Prédica
Data: 03 de abril de 2016 - 2º Domingo da Páscoa
Pregador: Teólogo Roberto Carlos Porto
Texto bíblico: Atos 5, 27-32
Texto: Atos 5.27-32
Exórdio: O texto que lemos trata de um dos momentos mais difíceis para qualquer pessoa: quando sofremos uma injustiça. Os apóstolos são interrogados simplesmente porque anunciavam Jesus Cristo;
(Aspectos bíblico-exegéticos)
O capítulo 5 do livro de Atos dos apóstolos é muito interessante: começa apresentando o modelo de como a comunidade não deve ser, com Ananias e Zafira. Em seguida, mostra o aumento da popularidade da comunidade, com novos membros. Depois, o texto diz que, por inveja, o sumo sacerdote e os saduceus prendem Pedro e João na prisão pública. Os apóstolos, porém, são libertados pelo anjo do Senhor, mandando-os ir ao templo e anunciar a Jesus. Quando o sumo sacerdote e sua gente mandam buscar os apóstolos da prisão, descobrem que eles já não estão mais lá. Recebem a notícia que eles estão no templo anunciando as boas novas de Jesus Cristo. Os oficiais do templo buscam Pedro e João, mas sem violência, para não serem apedrejados pelo povo. Então, a história segue com o texto que lemos, nos versículos 27 a 32.
Primeiramente, gostaria de lembrar que tanto o Evangelho de Lucas quanto Atos são de um mesmo autor. O que costura estes dois livros é a narrativa descrevendo a caminhada da Palavra, a caminhada do anúncio de que Jesus é o Cristo. Mas esta palavra, este anúncio, caminha na contramão do mundo. O choque entre as duas propostas é inevitável. Este choque gera a cruz, a proposta de morte que tenta evitar o triunfo da Palavra. Mas o Espírito de Deus é mais forte do que o Espírito do mundo. Deus ressuscita Jesus e era isso o que lhes dava força para perseverar na caminhada. A comunidade via na ressurreição de Jesus a realização de todas as promessas de Deus que estão no Antigo Testamento. No entanto, Atos deixa bem claro que a ressurreição de Jesus não significaria que as esperanças apocalípticas de uma instauração milagrosa do Reino de Deus aconteceriam imediatamente. Pelo contrário, o Reino é construído lentamente, pelo trabalho perseverante de pessoas engajadas pelo Espírito na caminhada de todas as comunidades. O crescimento do Reino é fruto do trabalho e do testemunho dos seguidores e seguidoras de Jesus. As comunidades são o espaço onde atua o Espírito Santo. O Espírito anima a prática e os atos das pessoas que transmitem a Palavra de Deus. Através desta prática, a Palavra de Deus caminha no meio da humanidade até o dia de hoje!
Os primeiros cinco capítulos do livro dos Atos são como um mosaico, feito de muitas pedrinhas. Como uma concha de retalhos. Fatos, discursos, resumos e orações foram justapostas num arranjo bonito para oferecer uma ideia do conjunto da vida comunitária. Diante do sinédrio, o supremo tribunal dos judeus, os apóstolos foram acusados de desobedecer à ordem que tinham recebido de não mais falar no nome de Jesus. Mas dão um resumo do anúncio da Boa nova que, naquela circunstância, se tornou um anúncio agressivo com denúncia muito forte que desagradou às autoridades. Como era de esperar, a reação das autoridades, sacerdotes e saduceus foi violenta. Quiseram matar os apóstolos (C. Mesters, F. Orofino. CEBI).
Diante deste juízo perante o sinédrio, podemos dizer que o que está em jogo é o poder das autoridades sobre o povo. Se os apóstolos continuam anunciando que Jesus ressuscitou, a culpa pela morte de Jesus cairá sobre essas autoridades, os quais se mostram zelosos de seu poder, que os apóstolos parecem subverter.
Mas o segundo juízo acrescenta o modo em que o mais escrupuloso legalismo formal se emprega para fortalecer o poder dos que já são poderosos. O juízo das autoridades sobre os apóstolos tem lugar com toda a formalidade. O sinédrio nem sequer menciona ou discute o modo em que os apóstolos haviam saído do cárcere, uma vez que isto não tem a ver com o motivo do juízo. Escrupulosamente, o sumo sacerdote lembra aos acusados da advertência anterior, com a qual fica aberto o caminho para condená-los a açoites. É o que acontece na continuação do nosso texto.
Todavia, há outra dimensão no juízo de Pedro e de João que também é importante assinalar. As autoridades poderosas do concílio, os que julgam os apóstolos, também estão debaixo de outro poder, o do Império Romano. Durante este tempo, eram os romanos quem determinavam, dentre os possíveis candidatos, quem seria o sumo sacerdote e, portanto, quem iria ocupar os principais cargos no templo e em toda estrutura religiosa dos judeus. O mesmo era certo da estrutura econômica. Se os ricos saduceus colaboravam com Roma, isto se devia, em parte, a Roma ter o poder de enriquecê-los ou arruiná-los. Então, os que parecem ser poderosos dentro do contexto da Judeia não o são tanto dentro do contexto mais amplo do Império. Por isso, sua política tem que ter em conta não somente o povo a quem tratam de controlar, mas também as autoridades romanas. E não poucas vezes seu interesse por controlar o povo se deve ao temor das repercussões que as ações do povo podem ter, levando, talvez, a uma intervenção por parte do Império.
Aos cristãos, isso não deve nos surpreender. A igreja cristã tem uma larga e gloriosa história de mártires que morreram precisamente porque se torcia a lei e o juízo se tornava em absinto. E, infelizmente, quando os cristãos chegaram ao poder do Império, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império no final do quarto século, muitos cristãos perseguiram a outros simplesmente porque não estavam de acordo com sua doutrina, porque subvertiam seus sistemas doutrinais ou porque, de algum modo, provocavam zelos semelhantes ao que os apóstolos despertaram nos saduceus e no sumo sacerdote. Cito, por exemplo, os cristãos montanistas, que divergiam sobre quando seria o final dos tempos, ou os cristãos arianos, que discordavam da interpretação que se fazia de Jesus como divino, ou dos donatistas, que não aceitavam sacramentos ministrados por sacerdotes que tinham a honra duvidosa. Todos estes cristãos foram perseguidos pelos próprios cristãos!
Mas Pedro e João anunciavam o evangelho. Não anunciavam para provocar zelos, mas para ser fiéis ao Cristo ressuscitado que os havia enviado. Se despertavam zelos, não foi por culpa deles, mas por culpa dos poderosos que não estavam dispostos a que se questionassem sua autoridade. Em nossos dias há muitos Pedros e Joãos – e também muitas Pedrinas e Joanas, que de formas distintas, dão testemunho do evangelho em nossa sociedade. Uns pregam desde o púlpito; outros ensinam na escola; outros ensinam às pessoas os seus direitos; outros ensinam a ler. Dado o mundo pecador em que vivemos, em seu aspecto individual, mas também social, estes sinais do Reino de Deus, que se constroem lentamente, despertaram os zelos e a oposição de quem serve o reino presente. O surpreendente seria se não houvesse oposição, que todos dissessem que nossa mensagem é maravilhosa. Se assim o for, tenhamos cuidado, pois é muito provável que tenhamos nos afastado da mensagem dos apóstolos (González, Justo. Comentário bíblico iberoamericano).
(Aspectos pastorais)
Assim, podemos ver como o nosso texto trata das injustiças provocadas por quem deveria zelar pela lei, para, em última instância, defender a vida.
Mas, ainda na fé pascal, como os apóstolos foram enviados pelo Cristo ressuscitado, somos também enviados por este mesmo Cristo, cheios do Espírito Santo, para anunciar que Jesus venceu a morte! Toda opressão, injustiça, miséria e guerras serão vencidas.
(Conclusão)
Para encerrar, gostaria de lembrar o sentido da palavra político. A rigor, politikós, em grego, é o genitivo da palavra grega pólis, cidade. Assim, político é a pessoa da cidade. Todos nós somos políticos, uma vez que a palavra destacava a relação de uma pessoa dentro de uma cidade e sua relação com as demais pessoas. Deste modo, em nossas relações em sociedade, devemos evitar ações injustas e corruptas. Por exemplo: uma pessoa que não respeita o farol vermelho, não respeita os pedestres, não respeita os idosos será injusta ou até corrupta se assumir um grande cargo.
Lembro as palavras do Papa Francisco, falando sobre a corrupção. Diz ele: “a corrupção é o pecado que, em vez de ser reconhecido como tal e de nos tornar humildes, se tornou sistema, torna-se um hábito mental, uma forma de vida. O corrupto é aquele que peca e não se arrepende, aquele que peca e finge ser cristão. A corrupção nos coloca em um lugar que não podemos sair, por isso, devemos rezar para Deus abrir uma fresta nos corações dos corruptos, dando-lhes a graça da vergonha e de se reconhecerem como pecadores”.
Mas na fé pascal, enviados por Cristo, devemos anunciar a justiça, pois o Reino de Deus é construído lentamente, é fruto do trabalho e do testemunho dos seguidores e seguidoras de Jesus. Isso jamais entenderá quem imagina que a pregação de justiça do evangelho de Jesus Cristo e o compromisso de vivê-lo em sua plenitude é um movimento como qualquer outro, bastando leis, castigos e ameaças para detê-los. Esta obra é de Deus e nada a poderá deter. Amém.
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Data: 13 de março de 2016 - 5º Domingo na Quaresma
Pregador: dr. Ricardo Mitsuo Tariki
Texto bíblico: Isaías 43, 16-21
Cara Comunidade:
O livro de Isaías reúne tradições proféticas de quase 4 séculos, perpassando o início de sua própria pregação, por volta de 740 a.C até a redação final, que se dera em torno de 400 a.C.
Durante este longo período, Judá sofreu a dominação assíria, posteriormente a caldeia e, finalmente, a persa.
O texto indica um novo tempo.
Nele, Deus fala ao seu povo de modo tal que já não é mais possível permanecer preso ao passado; mas que é preciso abertura para o novo tempo que virá.
Abertura para o novo! Quanto não nos traz às ideias este desafio…
Por vezes, na nossa caminhada de peregrinos por estes vastos terrenos de desertos e de desconhecido, sentimos a necessidade de nos prendermos a um período passado, onde havia segurança, onde havia felicidade, onde éramos alegres. Nós vamos caminhando e, de repente, um tombo, uma desilusão, uma perda muito grande, um vazio…. Tudo isso. Assim é viver como peregrinos.
Ocorre que, no mais das vezes, nós nos iludimos com verdades criadas nessas memórias romanceadas do passado. Como já ocorreu, não há o que nos surpreender. Aí temos a possibilidade de recontar histórias a nós mesmos que nos sejam reconfortantes e que não nos colocam no incerto da vida cotidiana. Tudo se torna maravilhoso e poético.
Deus nos coloca, então, o desafio:
“Não fiquem lembrando do que aconteceu no passado, não continuem pensando nas coisas que fiz há muito tempo. Pois agora vou fazer uma coisa nova que logo vai acontecer.”
A vida é para ser vivida.
Como disse Thomas Mann em “Doktor Faustus”: “o conhecimento deve ser construído sobre vastos espaços de vazio”. Assim, também nossa vida como um todo deve ser experimentada - e edificada nossa personalidade - sobre vastos espaços de desconhecido e de árido.
A nossa confiança em Deus nos permite dar esses passos fundamentais porque Ele cumpre suas promessas ao povo; Ele se compromete com esse povo, que somos nós, na jornada de peregrinação pela terra. Ele diz:- sigam em frente, estou com vocês!
O texto, não por acaso, encontra-se previsto para o tempo de Quaresma; período muito especial para nossa espiritualidade, em que nos preparamos para uma vida comprometida com Deus, intensa e repleta de alternativas. Época apropriada para a realização de jejuns, de reflexão, de auto-análise. Boa época para pararmos de atacar os outros, vendo culpa pelas frustrações próprias na conduta alheia; boa época para reconhecermos que tudo o que passamos é consequência das nossas próprias opções. Pode alguém dizer:- “ah, mas a desgraça pela qual passei não foi culpa minha”. Ainda que não pudéssemos evitar certo acontecimento, o como isto afeta nosso cotidiano é responsabilidade nossa.
Deus nos diz para seguirmos em frente, vivendo intensamente; aproveitando cada minuto para nosso crescimento em solidariedade, em compreensão e, em suma, no amor.
Há uma mensagem de Dietrich Bonhoeffer (teólogo, místico, pastor luterano, assassinado pelos nazistas por sua participação no movimento de resistência ao regime) que diz o seguinte e que está no folheto que vocês têm em mãos:
"O primeiro serviço que alguém deve ao outro na comunidade é ouvi-lo. Assim como o amor a Deus começa com o ouvir a sua Palavra, assim também o amor ao irmão começa com aprender a escutá-lo. É prova do amor de Deus para conosco que não apenas nos dá sua Palavra, mas também nos empresta o ouvido. Portanto é realizar a obra de Deus no irmão quando aprendemos a ouvi-lo. Cristãos e especialmente os pregadores, sempre acham que tem algo a "oferecer" quando se encontram na companhia de outras pessoas, como se isso fosse o seu único serviço. Esquecem que ouvir pode ser um serviço maior do que falar. Muitas pessoas procuram um ouvido atento, e não o encontram entre os cristãos, porque esses falam quando deveriam ouvir...”
Um novo tempo! O texto caracteriza-se por proclamar a salvação como processo de transformação da realidade, não só para o povo mas para a própria natureza.
A vinda de Deus nos coloca em movimento. Cansados e abatidos são fortalecidos pela Sua presença. Ele nos liberta, Ele nos revigora. Para que? Para que possamos ter um tempo qualitativamente melhor. Para que possamos viver intensamente, respondendo ao seu chamado com vigor ao nos comprometermos com as pessoas. Para que possamos ouvir mais, falar menos, ponderar. Para que possamos ser honestos com nossos semelhantes, buscando contribuir para a edificação de um ambiente de respeito, onde a traição e a maledicência (que tanto atormentam nossas comunidades e o mundo) não tenham espaço propício para se desenvolverem.
Aproveitamos este momento para, conscientes de que somos multiplamente agraciados por Deus, refletir sobre nossas vidas e nossas práticas, buscando o essencial e, assim, respondendo ao chamado com comprometimento responsável com nosso semelhante.
Evangelho é amor que se concretiza na solidariedade. Não há cristão que não seja solidário, que não seja companheiro. Se não é companheiro, se não é solidário, não é discípulo de Jesus.
Minha oração é que possamos todos aproveitar este período muito especial para refletirmos sobre nós mesmos, nos afastarmos das ilusões e, finalmente, dar vigorosa resposta a Deus que se concretiza na responsabilidade, no respeito profundo a todo ser humano e na solidariedade. Amém.
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28 de fevereiro de 2016 - 3º Domingo na Quaresma
Pregador: dr Ricardo Tariki -
Texto bíblico: 1 Coríntios 10. 1-13
Estimada comunidade!
A humanidade sofre hoje pelo crescimento da intolerância, pelo racismo, pelo fascismo (na Alemanha, p. ex. o advento do PEGIDA: Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes) que voltou à carga, pela miséria. E as igrejas muitas vezes aproveitam disto para oferecerem seguranças irreais, baseadas na prosperidade individual, no enriquecimento. E é exatamente contra essas falsas seguranças que o apóstolo Paulo nos quer alertar hoje, a fim de que descubramos a esperança consciente, que não engana.
Prezados irmãs e irmãos! O apóstolo Paulo alerta para as seguranças falsas dentro da igreja o que tem, seguramente, reflexos para o contexto amplo do mundo. Por isso, convido a vocês para acompanhá-lo em sua argumentação. Pois, afinal ele quer libertar das seguranças falsas para a esperança que não engana nem decepciona.
Na comunidade de Corinto havia o seguinte pensamento: Chegamos a crer em Cristo e fomos batizados; ou, inversamente, fomos batizados e chegamos a crer em Cristo. Participamos da Ceia do Senhor. Portanto, estamos livres para comer carne sacrificada, sem podermos cair na tentação da idolatria pagã. Igualmente estamos livres de todos os excessos, inclusive sexuais (estupros, etc), que se praticam nos rituais pagãos. O povo de Corinto, entretanto, não se dava conta de que faltaram com o amor ao próximo carente; na refeição comunitária, ligada à celebração da Ceia do Senhor, por exemplo, estavam marginalizando e, de certo modo, excluindo membros pobres e carentes. Isso não corresponde à fé, que se resume na prática do amor a Deus e ao próximo – o que Paulo tratará no capítulo seguinte.
E se olhamos em nossa comunidade e igreja, podemos dizer também: Fomos batizados; cremos em Deus; participamos com mais ou menos frequência da Ceia do Senhor e damos nossa contribuição – em serviço ou dinheiro - mais ou menos fiel e responsável. Porém, quando se trata de eleger um grêmio de direção, seja no nível comunitário, sinodal ou nacional, acontece que ou nem há pessoas dispostas à candidatura ou há tantas lutando pelo poder. Ou, ainda, olhando na vida familiar, ainda acontece desrespeito à dignidade da mulher, das crianças e das pessoas idosas. Poderíamos continuar a enumerar incoerências com a nossa fé que deveria resumir-se na prática do amor a Deus e ao próximo.
É por isso que o apóstolo alerta contra a tentação de banhar-se em segurança falsa que sutilmente se pode instalar na família, na comunidade e na igreja. Ele diz: “portanto, aquele que pensa que está de pé é melhor ter cuidado para não cair.” Paulo ilustra isso no exemplo da história do povo de Israel que foi muito querido de Deus. Ele o fez povo seu. Libertou-o da escravidão. Guardou-o nas passagens pelo mar vermelho e pelo deserto e lhe deu terra para morar, plantar e colher. Mesmo assim, ele, volta e meia, se queixou do abandono por Deus, marginalizou as viúvas, as crianças; desrespeitou mulheres e pessoas idosas; flertou crenças que tiravam de si a responsabilidade consciente e cometeu, assim, idolatria. Isto é, não prendeu seu coração em Deus, mas em outras coisas transitórias, não perenes.
E por isso o povo teve que arcar com as consequências de seus atos de rebeldia contra a ordem maior (que dá sentido ao todo) e de desamor (falta de confiança no Transcendene e de consideração pelo semelhante). Sofreu desgraças na vida familiar e social. Parece que nós também podemos dizer que os sinais das consequências de nosso desamor estão aí, ou seja, na vida em família, na comunidade de fé e na sociedade. Pode-se ler isto tudo como evidência de castigo, mas não creio ser este o sentido; ao contrário, é consequência inexorável da nossa conduta. Deus não está para castigar; esta ideia é uma ideia infantil e apequenada do todo que é muito maior. A questão é de grau de consciência e confiança em que há algo muito maior, infinitamente maior que nossa miúda perspectiva das coisas.
O que fazer? A pequenez, a arrogância e a desconfiança estão em toda parte. Ninguém pense que esteja isento dela. Luther disse: “Não podemos impedir que os passarinhos voem ao redor da nossa cabeça, mas podemos impedir que em cima dela façam seus ninhos.” Como, então, podemos impedir que caiamos na tentação do desamor que nos cerca em toda parte?
O apóstolo Paulo afirma: Deus nos acompanha nesta nossa jornada de peregrinos nesta terra de oportunidades de crescimento (mas, também de perigos desconhecidos) e nos inspirará abertura de espírito, prudência e abundância de vitalidade nos momentos apropriados. Quando um perigo vier, Ele nos inspirará uma conduta apropriada e, assim, poderemos supera-lo já modificados e mais conscientes. Como vamos entender isso?
No Pai Nosso Jesus nos ensina pedir: E não nos deixes cair em tentação. Podemos pedir confiantes como as crianças pedem aos que delas cuidam. Não nos deixes cair em tentação, assim, pode significar: “não permitas que caiamos ou sucumbamos na tentação”. O próprio Jesus, no deserto, resistiu às tentações de satanás somente pela confiança e pela fé suprema que sempre tenta nos ensinar. Ela pode também ser nosso recurso para não cair. A Palavra quer ser o nosso alimento diário; quer ser nossa introspecção para aumentarmos nossa consciência e dar perspectiva ampliada das coisas. Daí, a leitura, a discussão aberta e honesta nos grupos, a participação nos cultos. Tudo para expandir nossos horizontes, a partir de nossa consciência alargada por graça e fé.
Além disso, convém que nos lembremos de como Luther explica magistralmente, no Catecismo Menor, o Sexto Pedido do Pai Nosso: “Não nos deixes cair em tentação. O que significa isto? Deus não tenta ninguém. Mas pedimos nesta oração que ele nos proteja e guarde, para que não sejamos enganados pelo diabo, pelo mundo e por nós mesmos, nem sejamos levados a crenças falsas, desespero e outra grande vergonha ou vício. E pedimos que, mesmo sendo tentados, vençamos no final e mantenhamos a vitória.” É dizer, que possamos ser humildes porque conhecedores das nossas dificuldades e confiantes do suporte daquele que entende a fundo as coisas.
Deus não tenta ninguém. Embora haja alguma passagem bíblica que possa insinuar o contrário. Paulo e Lutero querem dizer que há nesta terra de oprtunidades de crescimento muitos perigos no desconhecido. Nossa ignorância é enorme e nos coloca na possibilidade de muitas quedas. Por isso mesmo, podemos pedir e confiar profundamente na insuperável sabedoria e ciência de Deus para que inspire nos momentos graves. Eis o sentido do que Paulo disse.
Humildade e confiança. Saber que somos pequenos e que enxergamos restritamente; mas confiar em Deus, nessa maravilhosa ordem transcendente e que dá sentido ao todo, na graça de sermos inspirados a expandir nossa perspectiva das coisas, mediante fé, mediante uma confiança que cresce dia a dia porque vê que as inspirações não são vãs e que o Amor não é transitório.
Que possamos internalizar isto e viver uma vida plena. Amém.
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11 de outubro de 2015
- Texto bíblico: Marcos 10, 17-35
Marcos 10, 17-31
Este é um texto aparentemente fácil de se explicar. Jesus saiu de viagem à frente dos discípulos em direção a Jerusalém; um homem passa à frente dele, se ajoelha respeitosamente e faz uma afirmação e uma pergunta.
Jesus corrige as duas!
Quanto à afirmação de ser bom, Jesus aponta para o fato de que este homem não entendeu que Jesus é Deus, pois só Deus é bom. Se ele tivesse entendido que Jesus é Deus, diria “Senhor” e não um bom Mestre. Ele reconhecia em Jesus um bom mestre, mas não Deus mesmo que se fez ser humano.
Quanto ao que fazer para herdar a vida eterna, Jesus faz uma espécie de uma pegadinha, ou melhor, um teste em dois momentos. Mas, também aí o homem roda nos dois momentos do teste. Primeiro, Jesus aponta para os mandamentos. O homem diz que cumpre todos, desde criança. Depois aponta para o desfazer-se dos bens materiais, que o homem tinha muitos. Mas, homem visivelmente não quer desfazer-se deles e baixa a cabeça triste.
Jesus sabia que nem um, nem outro é garantia de vida eterna. Cumprir os mandamentos é bom e necessário, mas não são garantia de salvação e vida eterna. Da mesma forma, estar preso a juntar tesouros, riquezas, é ruim e desnecessário, mas não exclui da salvação e da vida eterna. Essa decisão é de Deus, que julga e decide com outros critérios, que não os nossos.
Jesus pregava e hoje nós sabemos bem: só a fé, concedida pela graça de Deus é garantia de vida eterna.
Portanto, Jesus procura ver se este homem já entendeu alguma coisa de sua pregação, se já se converteu à fé, ou se ainda pensa em termos legalistas da religião judaica. E o homem decepciona. Não estava interessado em Jesus, não estava interessado na fé em Jesus; só estava interessado em garantir um lugar na vida eterna, sem que isso tocasse o seu coração, sem que isso alterasse o seu jeito de viver.
Desde pequeno eu escuto esta história e uma pergunta me segue, para a qual ainda não achei resposta: o que, afinal, aconteceu com esse homem? Foi para a vida eterna ou não? O que vocês acham?
- ele se julgou indigno da vida eterna. Baixou a cabeça e saiu de cena. Mas, Jesus não o considerou indigno da vida eterna. Para Jesus foi como se ele continuasse ali, e sobre ele Jesus conversou com seus discípulos. Ele queria dizer para o homem que também ele, que estava enganado a respeito de Deus e de como viver aqui na terra, também ele estava no plano de salvação de Deus.
Pena que tenha ido embora tão cedo. Não pegou a conversa de Jesus com os discípulos sobre o acontecido. Nesta conversa, Jesus insiste que para herdar a vida eterna, é necessária a fé. Só a fé. E que esta é graça de Deus. É da vontade de Deus que as pessoas sejam salvas. E isso não depende de ser uma pessoa certinha (que segue tudo que a lei manda), e vale para uma pessoa erradinha (que centra sua vida nos bens materiais).
Dito isso, Jesus insiste que, como resultado da fé e da certeza da salvação, as pessoas procurem ser certinhas e deixem de ser erradinhas. De posse da salvação e da vida eterna, a pessoa deve sentir-se livre, alegre, grata, disposta para viver uma vida coerente com a lei e distante da ganancia.
A pessoa deve agir no mundo, denunciando o que está errado, mudando o que pode ser mudado; a pessoa deve agir no mundo sendo solidária com as pessoas que sofrem e procurando o bem comum; mas deve fazer tudo isso por amor; o amor que é resultado da consciência de que Deus resolveu a questão da salvação e da vida eterna para nós em Jesus Cristo.
Que o amor de Deus Pai revelado em Jesus Cristo nos sejam a grande prioridade de nossas vidas. Queremos seguir a Jesus, ficar junto dele. Diante deste diálogo com Jesus, através da sua palavra, queremos sair com a lembrança de que somos aceitos pela graça de Deus. Através desta aceitação incondicional, sejamos fortalecidos em nossa fé, também para o desapego, aquilo que está atrapalhando a nossa comunhão com Deus e uns com os outros. Amém.
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04 de outubro de 2015.
Texto bíblico: Hebreus 1.1-4; 2.5-12
Roberto Carlos C. Porto
Igreja Luterana (IECLB), paróquia da Ressurreição
04 de outubro de 2015
Exórdio
De todos os livros da bíblia, acho que o de Hebreus é o mais difícil para se fazer uma prédica. Este livro é uma carta? Uma epístola? Um tratado? Um apelo? Não sabemos. Quando já havia perdido a esperança de conseguir montar a prédica, lembrei que um dos textos mais bonitos de Martin Luther, “a teologia da cruz”, foi escrito com base em Hebreus. Foi assim que me animei de novo e me surpreendi com o que o texto que lemos nos ensina.
Para melhor compreendermos este livro, precisamos compreender o contexto histórico de quando foi escrito.
Questões bíblico-exegéticas
Não podemos definir quem escreveu este livro ou em que ano, mas parece que estamos por volta da última década do primeiro século da era cristã. O imperador é Domiciano. Em algumas regiões do Império Romano, cristãos são perseguidos a mando do imperador. Não bastasse a perseguição, a comunidade enfrenta dois riscos à fé: uma fé que ensina que Jesus não era um ser humano, mas um espírito iluminado que traz a salvação mediante um conhecimento secreto revelado a poucos e um grupo de missionários que pensavam ser necessários os rituais do judaísmo antigo. Esta ameaça era mais forte.
Por causa disso, nosso texto usa a linguagem do judaísmo para mostrar que não é este o caminho. O livro de Hebreus se divide em três partes: (1) descreve o caminho de Jesus, nosso Redentor; (2) a segunda fala do sumo sacerdócio de Jesus e (3) fala do caminho da fé. Nosso texto está na primeira parte, tratando da relação entre Jesus e as pessoas da comunidade de fé.
Mensagem
Nosso texto começa falando que “em muitas vezes e em muitas maneiras, tempo atrás, Deus, tendo falado aos Pais nos Profetas; nesses últimos dias, tendo falado pelo Filho”.
Para o autor, encontra-se Deus apenas através da palavra histórica. O acontecimento da salvação é a palavra de Deus. É o acontecimento do anúncio vívido da palavra de Cristo. Quanto a “nesses últimos dias”, para o autor, o tempo dos profetas é passado. A aparição do Filho é a abertura de uma nova época de salvação. A Igreja daqueles tempos já acreditava estar vivendo o tempo da salvação. Deus fala, pelo Filho, coisas de salvação eterna. O Filho é a revelação definitiva de Deus. Para a fé da comunidade ameaçada por uma fé que vê Jesus como um espírito, o texto enfatiza a palavra de Deus com Jesus, para afirmar a encarnação.
Depois diz que “Foi ele quem Deus escolheu para possuir todas as coisas e foi por meio dele que Deus criou o Universo”.
O herdeiro tem a ideia que, como o Filho recebe um nome, trata-se da celebração de um ato de entronização de um rei no mundo antigo: pela exaltação do Filho, ele recebe todas as coisas. Deus ter criado o universo através do Filho, se baseia na tradição da sabedoria dos antigos judeus: foi por sua sabedoria que Deus criou o mundo. O autor mostra que essa sabedoria é Jesus.
Depois, diz que “o Filho brilha com o brilho da glória de Deus e é a perfeita semelhança do próprio Deus. Ele sustenta o Universo com a sua palavra poderosa”. Ao descrever essas características de Jesus, o autor mostra que, como Filho, ele é totalmente depende do Pai e a ele pertence, mas ele próprio é quem traz a salvação. Sustentar o universo com palavra poderosa é que a palavra, aqui, também é Jesus, e o autor quer descrever Jesus como governador do Universo, isto é, mostrar que Cristo pode preservar o mundo e tirá-lo do caos.
Depois, diz que “e, depois de ter purificado os seres humanos dos seus pecados, sentou-se no céu, do lado direito de Deus, o Todo-Poderoso”. O texto quer mostrar que Jesus é o mediador entre Deus e as pessoas. A morte de Jesus na cruz é o acontecimento da própria salvação. Com a exaltação de Jesus, seu sentar-se à direita de Deus, pensa-se na participação no domínio e poder de Deus, que Jesus toma parte.
O texto segue dizendo que “assim Deus fez com que o Filho fosse superior aos anjos e lhe deu um nome que é superior ao nome deles”. Com a ascensão de Jesus, atinge-se o ponto alto: herdando um nome, Jesus se torna o Senhor de tudo.
Depois, “Pois Deus não deu aos anjos o poder de governar o mundo novo que está por vir, o mundo do qual estamos falando”. O autor mostra que o mundo vindouro pertence ao Filho: ele é o herdeiro de tudo; seu é o reino, não dos anjos. Mas isso o leitor já sabe há muito tempo. Todavia, a ideia é de um espaço físico. Ficará mais claro a partir dos próximos versículos.
Agora, nosso texto cita o Sl 8.5-7: “Pelo contrário, em alguma parte das Escrituras Sagradas alguém afirma: “Que é um simples ser humano, ó Deus, para que penses nele? Que é o ser mortal para que te preocupes com ele? 7 Tu o colocaste por pouco tempo em posição inferior à dos anjos, tu lhe deste a glória e a honra de um rei 8 e puseste todas as coisas debaixo do domínio dele.”
Mas se o salmista falava de qualquer ser humano, aqui, o autor o interpreta à luz de Cristo. Todavia, é mais do que isso. O texto de salmos citado é interpretado a partir de Jesus, mas não se limita a isso: interpreta-se, também, a partir da comunidade, das pessoas da Igreja; a “diminuição” de Jesus é a pressuposição para sua exaltação, com a qual ele se faz solidário à morte dos irmãos e irmãs e assim garante a redenção. A interpretação envolvendo também a Igreja é o ponto forte da solidariedade entre Redentor e redimidos.
Nosso texto diz, depois, que “Quando se diz que Deus pôs “todas as coisas debaixo do domínio dele”, isso quer dizer que nada ficou de fora. Porém não vemos o ser humano governando hoje todas as coisas”. O autor mostra que a salvação é presente e futura. Enquanto o domínio do Filho não for visível, o poder de redenção do sumo sacerdócio de Cristo ainda não está completo. Propositalmente, ele mostra que a entronização de Jesus no céu não corresponde com a realidade na terra.
Continua: “mas nós vemos Jesus fazendo isso. Por um pouco de tempo ele foi colocado em posição inferior à dos anjos, para que, pela graça de Deus, ele morresse por todas as pessoas. Agora nós o vemos coroado de glória e de honra”. Por pouco tempo, feito menor do que os anjos, por causa do caminho que percorreu: humilhação, depois coroado com glória. O autor quer mostrar a presença na história do redentor Jesus, além do seu lado humano, para fazer ligação entre o Filho e os filhos.
Depois diz que, “de modo que pela graça de Deus, ele pode experimentar a morte”. O autor mostra que Jesus é o condutor da salvação, por meio da graça de Deus é que a morte de Jesus tem valor salvífico, porque expiou os pecados. A graça de Deus, aqui, é o ato de graciosa salvação de Deus que conduz Jesus da humilhação à redenção. Por causa de Paulo e Luther, estamos acostumados a ver graça como sinal de salvação. Mas, em hebreus, é a palavra aliança que tem este significado de graça.
E segue: “Pois Deus, que cria e sustenta todas as coisas, fez o que era apropriado e tornou Jesus perfeito por meio do sofrimento. Deus fez isso a fim de que muitos, isto é, os seus filhos, tomassem parte na glória de Jesus. Pois é Jesus quem os guia para a salvação”. Aqui, o autor usa o conceito do mundo grego: um ser divino é medido para estar perfeito por meio do sofrimento. Depois, é a repetição que o Filho é mediação.
Segue o texto: “Jesus purifica as pessoas dos seus pecados; e todos, tanto ele como os que são purificados, têm o mesmo Pai. É por isso que Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos”. O autor mostra que tanto o alvo como a origem têm a mesma base, tanto o Filho como os filhos – que é Deus.
Conceito de santificação: No Antigo Testamento, Deus é santo no sentido de ser mais elevado do que o ser humano: este não pode alcança-lo. Depois, santo passa a ser o que Deus escolhe e separa para si: pessoas, objetos, lugares.
Tanto Jesus quanto as pessoas participam da santidade de Deus. Aqui, Jesus santifica porque é o meio de salvação dos filhos, das pessoas. Porque eles têm a mesma base, Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos.
Por fim, nosso texto termina dizendo que “Como ele diz: “Ó Deus, eu falarei a respeito de ti aos meus irmãos e te louvarei na reunião do povo”, citando agora o Sl 22.23. No Sl 22, o salmista fala da mais externa necessidade de salvação e é levado a cantar louvores, pois foi atendido. Foi o caso de Jesus, quando passou da morte na cruz à vida da ressurreição. Assim, o texto fala que ser irmão/ã de Jesus significa reclamar a sua parte da salvação. Anunciar o nome de Deus diante dos irmãos é expressar o ato de salvação de Deus. Desta forma, cantar louvores a Deus na Igreja, na comunidade, não é apenas cantar a salvação, mas onde ela se realiza.
Penso que o v.11 é a chave para o texto. A singularidade de Jesus, sua encarnação como palavra de Deus, sua exaltação à direita de Deus. Tudo é importante para que seus irmãos e irmãs possam participar da redenção realizada pelo sumo sacerdote celestial. Ele santifica e a comunidade é santificada. Mas o que implica essa relação?
Questões teológico-sistemáticas
Martin Luther compreendia que a santificação é ação do Espírito Santo. No catecismo menor ele diz: “Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé, assim como chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra”.
Para Luther, a pessoa, a partir de si mesma, não pode crer em Cristo. É o Espírito Santo quem proporciona esta fé. Quando o ser humano é santificado, isso quer dizer que Deus mesmo o santifica, comunicando-se a ele como santo. Deus mesmo é santo. O Espírito vem pela palavra articulada e audível, ou seja pelo evangelho. A palavra da prédica, o batismo e a ceia são os meios pelos quais o Espírito Santo vem a nós. De alguma forma, a santificação não nos deixa esquecer a obra salvadora de Cristo.
Questões pastorais
Se olharmos para a bíblia, o primeiro a ser santificado não foi uma pessoa ou um objeto. Foi o tempo. A tradição bíblica diz que Deus santificou e descansou no sábado. Deus descansa de suas obras, mas também em suas obras. Faz que elas existam em sua presença. Está presente na existência delas. O sábado encerra a habitação de Deus em sua criação. Assim, o sábado é a existência presente de Deus na criação. Deus sai para fora de si para criar o mundo e no sábado retorna a si pelo descanso. O sábado é santificado porque Deus o escolhe o para si. Deus destina o tempo como sua propriedade. Reservar um tempo exclusivo para Deus significa reconhecer que toda a criação saiu de suas mãos e respeitar a natureza como criada, deixando-a em seu repouso.
A redenção operada por Jesus é para a toda a criação: para todos os seres humanos, não só para os bons, porque, diante de Deus, todos são injustos e necessitam da graça divina. Mas estende-se também a natureza, como criação de Deus. Toda a criação precisa ser redimida, não apenas uma parte dela. Enquanto isto não acontecer, o poder da redenção de Cristo ainda não foi completo. Quando acontecer, tudo estará sujeito a Cristo: no mundo redimido não terá lugar mais para a injustiça, a desigualdade, as guerras, a miséria, a opressão. Um novo mundo, não porque seja outro, mas este mesmo redimido por Cristo, ou seja, a partir da nossa redenção, nós agimos para que esses valores – justiça, igualdade, paz, liberdade – se tornem concretos. Que o Espírito Santo nos ajude a não esquecer isto! Amém.
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27 de setembro de 2015.
Texto: Lucas 24, 13-35
“O que é que vocês estão conversando pelo caminho”?
Existe a história do homem muito bom e piedoso que teve a chance de falar com Deus. Deus permitiu que fizesse uma pergunta sobre algum assunto que não conseguisse entender. O homem pergunta para que serve o horizonte; pois ele está lá, a gente vai até ele e já está distante mais uma vez. Deus responde: pois o horizonte serve exatamente para isso: fazer caminhar.
Cada pessoa tem seus caminhos na vida. Cada pessoa tem que caminhar por esses caminhos. Mesmo que tenham muitos obstáculos. Não adianta escolher outros; todos têm os mesmos obstáculos. Não tem como escapar. Mas, então, estou destinado a sofrer, a lutar contra os obstáculos? Não!!! O que se pode, é mudar o jeito de caminhar. Sobre isso nos fala o texto de hoje. As duas pessoas que são abordadas por Jesus a caminho de Emaús não mudam de caminho. Mudam o jeito de caminhar. Farão aquele mesmo caminho entre Jerusalém e Emaús milhares de vezes, mas nunca mais como daquela vez em que Jesus entrou na sua vida.
Eles vinham tristes, decepcionados, arrasados. Cada pedra, cada buraco na estrada parecia enorme, difícil de contornar. Tudo parecia tão cinza, tão sem graça, tão sem vida, tão sem esperança.
Jesus entra e muda tudo. Não no contato direto, mas no partir do pão, que nos lembra o sacramento da Santa Ceia. Primeiro veio a sua Palavra. A partir da Palavra, o sacramento. E daí a fé e uma jeito totalmente diferente de caminhar, de encarar os desafios, as montanhas, os buracos, as pedras, os espinhos, os troncos deixados pelos caminhos.
Dito isso sobre o contexto do texto bíblico, vamos para o nosso contexto atual.
Eu gostaria que vocês pensassem no “caminhar” e nos “caminhos da vida”, de duas formas: ou literalmente, ou de forma simbólica.
Se tomarmos literalmente, vamos lembrar que, na vinda para cá cada um de vocês (nós) tomou um caminho. Poucas vieram caminhando. A maioria veio de carro, mas talvez alguns também de ônibus. Alguém veio de bicicleta? Algumas pessoas vieram sozinhas, outras acompanhadas. Mas, todas passaram no caminho por centenas de situações: centenas de casas/apartamentos, cada qual com sua vida, seus dramas internos e suas alegrias; passaram por muitas pessoas; talvez tenham passado por alguém que não conseguiu chegar em casa e dormiu na rua mesmo; todas passamos pelo guardador de carros João, que é um morador de rua; cruzamos, na caminhada, com outros carros, ônibus; cruzamos com pedestres, cada qual com as sua vida, seus caminhos, suas preocupações, ocupações, sonhos e planos, esperanças; algumas pessoas passaram por rua esburacada, cheia e de obstáculos, e também por ruas desertas, fáceis de andar.
E, o que vocês vinham conversando pelo caminho? (Compartilhar...).
Até aqui tomei o caminhar e os caminhos da vida de forma literal.
No entanto, também o caminhar e os caminhos da vida de forma simbólica, como analogia, por exemplo, para os objetivos que a gente coloca na vida, nos alvos que pretende alcançar, sonhos que deseja realizar. Qual o horizonte que nos faz caminhar?
Voltemos ao texto bíblico, porque ali se juntam a experiência literal e a forma simbólica do caminhar e dos caminhos da vida.
O casal, que vinha de Jerusalém para sua casa no vilarejo de Emaús, trilhava o caminho de 60 estádios, (10 km.) entre essas duas cidades. Sabemos das dificuldades que existiam na época numa empreitada como esta, no sol forte, com estradas esburacadas, perigosas devido aos assaltos.
Nessa caminhada, conversavam sobre o futuro, como será a vida de agora em diante; tinham conhecido pessoalmente a Jesus, faziam parte do grande grupo de discípulos que tinham se convertido à fé em Jesus, e que também tinham acompanhado sua morte na cruz. Agora achavam que estavam sem ele. O que fazer? Como viver? Os caminhos não mudam. Tinham mudado o jeito de caminhar, mas estavam frustrados. Parecia que tinham entrado numa fria ao seguirem Jesus. Parecia que ele era fraco e não podia cumprir suas promessas.
Vocês já perceberam o que faltou. Faltou integrar nos seus pensamentos a ressurreição.
Não entenderam, não acreditaram que algo ainda aconteceria com Jesus, depois de sua morte humilhante na cruz. Não entenderam, não acreditaram que esta morte não tinha sido o fim de tudo. Não entenderam, não acreditaram que Jesus ainda estava com eles. Literalmente!
Conosco acontece algo parecido. Quando caminhamos os caminhos da vida estamos tão ocupados/as com os obstáculos que não percebemos a presença de Jesus ao nosso lado.
- e para isso existe a Palavra e os sacramentos. O gesto de Jesus, partindo o pão, abriu os olhos do casal;
- não mudou os caminhos, mas mudou o jeito de passar por eles.
Cara Comunidade, meus irmãos e minhas irmãs. A cada dia caminhamos rumo ao horizonte da vida. Sejam caminhos concretos, de asfalto, buracos, carros, ônibus, trem, a pé ou de bicicleta. Sejam caminhos simbólicos, na busca pelo sentido da vida, a razão de ser das dores, a causa das injustiças.
Estamos a caminho rumo ao horizonte da vida. Literalmente ou simbolicamente, encontramos obstáculos, buracos, pedras, espinhos.
O que o texto nos propõe é um novo jeito de caminhar; é um caminhar com o Cristo ressuscitado, que não pode ser visto nem reconhecido no seu corpo carnal que os poderosos deste mundo mataram, mas no seu corpo espiritual, ou seja, na sua Palavra e nos Sacramentos.
Não somos nós que o buscamos e encontramos. Não. Ele entra na nossa vida, caminha o nosso caminho, não nos livra dos obstáculos, mas ensina um novo jeito de caminhar.
É o jeito da fé. A fé que é dádiva. Dádiva que surpreende, que aparece nos momentos e lugares mais inesperados e inusitados. Porque é graça do Espírito Santo Jesus que ensina e faz lembrar os seus ensinamentos.
- os discípulos de Emaús estavam desanimados, prontos para abandonar a fé, quando Jesus retorna à sua vida, os reanima e faz voltar à missão, agora de forma renovada e segura.
Jesus entra na minha e na tua vida de mansinho. Chama e envia com o poder de sua presença na Palavra e nos sacramentos. Não muda os caminhos, mas o nosso jeito de caminhar. E, quando se muda o jeito de caminhar, acontece que os caminhos ganham cores e os obstáculos se tornam superáveis. Amém.
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20 de setembro de 2015
Jeremias 11, 18-20
Estamos diante de um desabafo do maior de todos os profetas: Jeremias. Ele viveu aí pelos anos 640 antes de Cristo, quando o rei se chamava Josias. Este rei fez muitas mudanças boas em Israel, mas também permitiu que a riqueza dos ricos aumentasse e a pobreza dos pobres ficasse sempre maior.
Os amigos do rei evidentemente não gostavam de Jeremias, pois esses amigos viviam no luxo e esbanjando dinheiro, viviam fazendo acordos com outros povos, o que era proibido por Deus. Esses povos funcionavam como a máfia: ameaçavam invadir e matar todos. Para não fazer isso, ofereciam proteção, em troca de dinheiro. Assim, havia paz, mas não havia justiça, pois quem pagava os impostos eram os pobres e os amigos do rei continuavam a viver com seus privilégios.
Como Jeremias denuncia esta situação injusta, os amigos do rei fazem ameaças a Jeremias, botam medo, perseguem como podem. É claro que ele entra em crise, não sabe o que fazer, começa a ter dúvidas de novo sobre sua vocação. Vamos recordar que desde o início Jeremias tinha problemas com a missão recebida de Deus: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança.” (Jeremias 1.6). Mas, Deus fez uma promessa a Jeremias e nessa promessa ele confia: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor.” (Jeremias 1.8)
Muito bem. Deus tinha prometido estar com ele e o livrar, mas agora Jeremias estava “com a água no pescoço”; sentia-se impotente diante dos inimigos. Só Deus mesmo poderia defende-lo. Seu apelo, seu pedido é que Deus execute uma vingança. Que é o tipo mais comum de se achar que se está fazendo justiça: que é, se vingando. “Fez. Paga!” Ele deseja para os inimigos o mal que estão desejando para ele. Mas, como ele não pode realizar isso, pede que Deus o faça.
Jeremias não conhecia Jesus Cristo. Não sabia que a justiça não se faz retribuindo mal com mal, mas com resistência ao mal. Jesus nos ensinou que a justiça não se constrói sem dor. A vingança pode dar uma impressão de alívio, mas não resulta em justiça, porque provoca no inimigo a vontade de se vingar também. Daí se entra no círculo vicioso do “olho por olho, dente por dente”.
Jeremias também não conhecia Gandhi, que disse que se vamos nessa de olho por olho, dente por dente, vamos terminar todos cegos e banguelas.
Também não conhecia Carlos Drummond de Andrade que disse que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”.
Em todos os casos, ao pedir por vingança, Jeremias errou o alvo e entrou em contradição com o que ele mesmo pregava. Alguns tradutores preferem traduzir por “harmonizar”, em vez de vingar. Talvez isso acerte melhor com todo o resto da atividade de Jeremias, que era de fidelidade absoluta a Deus, confiança nos seus juízos, e permanência nas suas promessas.
Talvez Jeremias, que era um lutador, que era corajoso, pois tinha Deus a seu lado, tenha pedido para harmonizar a luta, pois ela estava desigual; havia muita gente poderosa tramando para tirar a sua vida e pouca gente a defende-lo.
Jeremias busca sinais da presença de Deus ao seu lado. Pois a sua vida era integralmente dedicada a Deus.
Nós, hoje, também nos sentimos muitas vezes como Jeremias: os inimigos são fortes e nos sentimos fracas, impotentes diante do seu poder. Queremos, precisamos sentir a presença de Deus ao nosso lado. Mas, cuidado para não confundir justiça com vingança. O resultado da justiça é o perdão, a reconciliação, a restituição do equilíbrio ou da harmonia perdida.
Neste dia das ações de graças, temos a oportunidade de reconhecer onde, como e quando Deus esteve ao nosso lado. Como Jeremias, o que somos e temos vem da vocação que Deus nos deu. Como Jeremias, podemos pedir que Deus harmonize a luta contra as forças que nos querem tirar do sério, que nos querem fazer sofrer por causa da dor. Mas, não. Não vamos sofrer. Vamos enfrentar a dor com valor, constância e coragem, e vamos dar graças pelas vitórias alcançadas e vamos continuar lutando para que a dor se transforme em justiça. Amém.
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13 de setembro de 2015:
Marcos 8, 27-38
Cada qual de nós tem uma concepção, um jeito de pensar a respeito de Jesus: quem ele foi, como foi, o que significa para si. Estes jeitos são criados de acordo com o que aprendeu na família, na escola, na mídia, na Igreja, afinal, de acordo com o que gostaria que Jesus fosse.
- certo é que cada pessoa gosta do seu Jesus, da imagem que criou dele para si, para sua fé, para seu conforto e esperança;
- por isso, fica difícil aceitar um Jesus diferente, que não combina com aquilo que a gente espera e imagina;
- fica difícil aceitar um Jesus que não confirma, mas questiona o que a gente pensa dele.
- Por que isso é assim? Por um lado, por que a fé que tenho em Jesus também revela algo de mim; algo que eu não gostaria de mudar ou mexer dentro de mim;
- por outro lado, porque se ele é diferente do que eu creio, acaba me faz sentir distante ou até decepcionado com Jesus. Afinal, não é aquilo que eu pensava e eu gostaria que fosse!!!
O mesmo já aconteceu na época de Jesus. Praticamente cada pessoa tinha um conceito, uma ideia diferente de quem era essa pessoa. Jesus evidentemente tinha consciência disso e faz a pergunta aos seus discípulos: o que as pessoas dizem, creem, imaginam a meu respeito?
Pedro dá uma resposta que, em vez de ajudar, complica mais ainda: tu és o Cristo! Em português Pedro teria dito: tu és o Ungido; em hebraico teria dito: tu és o Messias.
Os judeus, como sabemos, esperavam a vinda do Messias. No entanto, para os judeus, o próprio conceito Messias já vinha carregado de vários significados. Vejamos os principais: às vezes era entendido como um rei (tipo Davi); mas, para outras pessoas, seria um sacerdote; para outras pessoas, ainda, um interprete da Lei, ou alguém que teria espírito de sabedoria, compreensão, prudência, valentia e de conhecimento do Senhor; ou ainda um juiz justo, que julgará com a verdade e justiça, mas que castigará o opressor com vara que é a sua boca.
- note-se que todos são diferentes daquilo que Jesus foi; eles esperavam uma coisa e Jesus era bem outra;
- Jesus era um Messias humilde, simples, sem cargo e sem pompa. Depois de sua morte na cruz, sabemos que ele era um derrotado, que foi humilhado, crucificado, que se colocou ao lado das pessoas humildes e pobres, das mulheres, das pessoas doentes e excluídas da sociedade, das pessoas que perderam um ente querido. Isso não correspondia a qualquer ideia de Messias que as pessoas tinham aprendido e esperavam.
- Assim podemos entender a atitude de Pedro, que chama Jesus para o lado para o repreender! Na cabeça de Pedro, o Messias não pode ter a figura de alguém rejeitado, sofrido, morto.
- Jesus o repreende de volta e diz que isso é coisa de quem pensa como ser humano, mas ele, Pedro, já poderia estar pensando diferente, pois já tinha aprendido o suficiente para pensar como Deus pensa.
- Talvez, se Pedro vivesse hoje, ele diria para a família enlutada, por exemplo, que Deus não existe, senão não deixaria o pequeno Theo morrer. Pedro não vive, não pode dizer isso, mas muitas pessoas pensam e dizem.
Por isso, temos que voltar ao Jesus verdadeiro, o Cristo, nosso Messias. Ele conhece as dificuldades, as derrotas e as crises pelas quais passam os seres humanos. Ele não dá falsas esperanças. O Messias Jesus não faz promessas que ele não pode cumprir;
- o texto da prédica quer nos ajudar a encontrar o Messias Jesus em meio aos acontecimentos da vida. Talvez ele não seja como gostaríamos que fosse; talvez a gente tenha que ouvir o mandato de Jesus de que antes de falar, é para a gente pensar melhor quem ele é. Tem tanta gente que o aceita pelo que ele não é; e tem tanta gente que o rejeita pelo que ele não é.
Para ter uma vida verdadeira, temos que crer no Jesus verdadeiro. Jesus, o Messias talvez não seja aquele criado por mim ou criado por outros para mim; talvez o Messias Jesus seja alguém que não se enquadra nos meus conceitos tradicionais e pré-formados.
Isso vale tanto para a família enlutada, como para a família que hoje traz uma criança para ser batizada. E vale para toda a Comunidade. O questionamento que Jesus fez aos seus discípulos na época revelou que eles tinham muitas maneiras de pensar sobre o Messias, e que precisavam refletir e pensar sobre qual a imagem que o Messias queria que eles tivessem. E nós também. Amém.
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06 de setembro de 2015:
Tiago 2. 1-10 (11-13) 14-17.
O texto parece muito difícil e complicado. Levei muito tempo brigando com ele. Até me estressou e me causou uma labirintite (que me dá quando estou estressado).
Mas, pensando bem, é bem simples. Tiago tem a preocupação de incluir as obras nos processo de salvação. Tanto que Martin Luther considerava que esta carta nem deveria estar na Bíblia. Demorou, mesmo. Enquanto que todos os outros livros já estavam na lista aí pelo ano 180 d.C., Tiago só foi plenamente aceita em 365 d.C.
Nos interessa hoje, o que Tiago considera, o que Tiago chama de obras. Vejam, que não é algo que se faz com as mãos, mas com a mente, com o coração.
- no início do texto de hoje, Tiago aponta para a discriminação, fazer diferenciação entre pessoas. Essa é uma obra que ele condena. A obra que ele aprova é a que aceita, acolhe, transforma as pessoas.
- quem tem fé, pratica esse tipo de obras.
Vamos começar pela segunda parte. Tiago diz que a fé sem obras é morta. Tem pessoas que acham que tem fé, mas se fazem obras do mal, então mostram que na verdade não tem fé, ou seja, que sua fé já morreu.
Tiago usa dois casos de sua comunidade para exemplificar o que disse: o primeiro caso é o de pessoas bem vestidas que vêm para os encontros de oração nas casas. Essas pessoas eram bem tratadas, enquanto que uma pessoa com roupas simples era desprezada. Isso acontecia no ambiente da Igreja! Eles nem percebia que isso não era certo. Achavam que é assim que a gente faz. Tiago tem que dizer explicitamente: isso é discriminação; e isso não se faz na Igreja.
- o pessoal ficou estupefato. “Ué, não se faz? Não é certo assim, que se trata melhor as pessoas com mais dinheiro?” Eles estavam surpresos com esta novidade.
Parece que eles eram ingênuos, mas se olharmos para os nossos dias, será que mudou muito?
- já contei para vocês a história da compra do carro, quando fui 2 vezes na mesma concessionária. Uma vez mal vestido e ninguém veio me atender, e outra vez bem vestido e vieram logo 3 me atender.
- às vezes me parece que na Igreja também ainda se faz discriminação com relação a pessoas, de acordo com suas roupas ou seu poder econômico, sua origem étnica. Quantos de nós estamos dispostos a abrigar um refugiado sírio em nossa casa? Ou um haitiano, dos milhares que estão morando em Santo André e redondezas?
O segundo caso é o da discriminação que se faz lá onde também deveria haver um tratamento justo e igualitário, mas onde são feitas maiores injustiças: no Judiciário.
- na época de Tiago o negócio era descarado. Uma pessoa com muito dinheiro queria comprar a casa ou a filha de um pobre. Se ele não vendesse, o rico ia para o juiz e acusava o pobre de qualquer coisa; comprava testemunhas que diziam isso ser verdade e o pobre perdia a causa. Sem apelação;
- em nossos dias não mudou muito. Ficou mais sofisticado, mas também aqui os tribunais são parciais e fazem discriminação entre pessoas. Os poderosos conseguem tudo e a gente, que não consegue pagar um advogado mais malandro, quase nunca tem seus direitos garantidos. Conheço vários casos aqui na Comunidade, de pessoas injustiçadas, ou que nem vão à justiça porque sabem que não têm chance de ganhar. Mas, o filho de um milionário brasileiro atropelou e matou com seu carro esportivo Mercedes um ciclista humilde que vinha na beira da estrada depois de trabalhar a noite inteira. Ele está solto. O rapaz que roubou um litro de óleo para sua família, este está preso.
Portanto, isso de fazer discriminação (antigamente se falava em “acepção”) não é algo novo e não é algo superado na história da humanidade. Se fazia, e continua se fazendo! São obras que contradizem a fé.
Tiago diz claramente que quem faz isso não tem fé. Em outras palavras, a pessoa pode até pensar que tem fé, mas sua fé é morta, inativa, congelada.
O que são, então, obras da fé? A fé cristã não só não faz distinção entre as pessoas como nos impulsiona a irmos ao encontro para socorrer quem está em desvantagem.
- a fé cristã é uma fé que opta por socorrer quem não tem habilidades que gerem dinheiro suficiente para uma vida digna.
- a fé cristã desperta a pessoa para ver a realidade como ela é e não como alguns querem que a gente enxergue;
- a fé cristã faz mudar as obras do nosso coração e da nossa mente; faz mudar as atitudes, a maneira de viver, esta é uma fé viva, coerente, que se traduz em obras. E não uma fé morta, que acha que é fé, mas aceita as distinções, diferenças e injustiças.
- Segundo Tiago, as obras serão sempre consequência da fé. Fé sem obras não é fé cristã; é fé morta, que não move nem montanhas, nem pessoas.
Talvez o objetivo de Tiago tenha sido chamar a nossa atenção para outro exagero: o da fé sem obras. Muitas pessoas vivem sua fé individual, particular, com suas leituras bíblicas, suas orações, mas nunca olham ao redor.
- olhemos, pois, para os lados, para as pessoas que sofrem. Não olhemos com os olhos do mundo, mas com os olhos da fé. Uma fé viva, que tem frutos, e frutos visíveis e concretos em nossa vida particular e na vida em sociedade, neste mundo em que vivemos. Amém.
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23 de agosto de 2015
Josué 24.1-2a, 14-18
Graça e paz da parte de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.
Querida comunidade, irmãs e irmãos,
Após a morte de Moisés, Josué, que era seu ajudante, recebe de Deus a incumbência de liderar o povo na conquista da terra prometida. O livro de Josué conta sobre as inúmeras guerras enfrentadas pelas 12 tribos para tomarem posse da terra. Houve muita luta e um grande número de mortes.
Josué liderou o povo e enfrentou todos os obstáculos que apareceram. Sonhou um futuro com terra, comida, estabilidade e paz e agiu para que esse sonho se transformasse em realidade. Josué agia na certeza de que Deus estava com ele. A palavra de Deus “Seja forte e corajoso” o acompanhava. Após a tomada da terra, Josué dividiu-a e a distribuiu entre as 12 tribos por sorteio. O livro conta que cada tribo recebeu suas terras e houve paz.
Como Josué estava idoso, reuniu as lideranças do povo em assembleia, é o que conta o cap. 24, e relembrou toda a história do povo hebreu com seu Deus: falou de Abraão, passou por Jacó, Moisés, Arão, lembrou da travessia do Mar Vermelho, das lutas, a travessia do Jordão, a batalha de Jericó, a conquista da terra. No momento da assembleia, o povo está bem, tem comida, terra, pastos, animais e vive em paz.
Neste ponto da história do povo de Israel, eles já haviam agregado vários outros povos do deserto, além de egípcios que tinham fugido junto com eles do Egito. Cada um desses povos tinha um deus diferente e por um bom tempo conviveram com a fé em Deus (Javé), que tinha estado com eles desde Abração, Isaque e Jacó.
As condições materiais eram boas (comida, água, animais, paz), mas espiritualmente eles estavam divididos e corriam o risco de iniciarem brigas entre eles por causa da religião. Era necessário que se unissem numa fé, num deus, para que o povo não se enfraquecesse e se tornasse vulnerável diante dos povos vizinhos.
Josué não acho prudente impor a fé em Deus, mas deu um belo testemunho e um convite: “Eu e minha família serviremos a Deus, o Senhor”.
Aí o povo respondeu que não servirá a outros deuses, pois Deus, o Senhor os tirou e tirou seus antepassados da escravidão do Egito. Deus os guardou pelos caminhos onde passaram. Por isso, servirão o Senhor, pois ele é o seu Deus.
É interessante notar que esse texto não fala em adorar a Deus, mas em servir. Eles se decidem por um Deus a quem querem servir.
Os outros deuses que tinham conhecido eram deuses dos poderosos, que exigiam sacrifícios do povo pobre.
Eles decidem abrir mão de adorar os deuses dos poderosos, os deuses daqueles que os escravizaram no Egito, por exemplo, para servir àquele Deus que optou/se decidiu pelos escravos, pelo povo pobre e os libertou daquela situação. A partir da libertação, eles começaram a sonhar com uma vida diferente.
Os deuses egípcios não permitiam esse sonho. Os deuses egípcios, dos poderosos, diziam que eles, os hebreu, tinham nascido para serem escravos e assim deveriam viver e morrer. Outra possibilidade de vida para eles não existia.
Mas Deus intervém, liberta e acompanha seu povo. E esse povo, de acordo com este texto de Js, decide-se por ele. Abandona os outros deuses.
Hoje nós também somos tentados a adorar/servir outros deuses: - -
- consumismo,
- individualismo,
- uso da tecnologia em detrimento da das relações humanas,
- ...hoje nós endeusamos o ser humano: “Eu” me adoro, eu preciso mais e mais e mais... Se os outros têm de menos, isso não é problema meu. Será???
Por fim, vamos sempre lembrar: a escolha de Deus foi pelos escravos e não pelo faraó; a escolha de Jesus foi pelos/as pecadores/as, não pelos justos aos seus olhos. Servir a Deus é denunciar os endeusamentos, anunciar a paz e a justiça e defender a vida, e vida digna, acima de tudo.
Que esta seja nossa decisão também, e que tenhamos alimento e paz em nossa vida também. Amém.
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16 de agosto de 2015.
João 6, 51-58
O texto começa de forma surpreendente: o povo não aceitando o que Jesus disse. (Normalmente ouvimos falar do povo admirado com o que Jesus dizia).
- Jesus tinha dito que ele é o pão da vida; quem comer deste pão viverá para sempre (v. 51);
- Os ouvintes vivem na religião de sacrifícios,
- o sangue do animal sacrificado era derramado na terra e a carne era comida;
- os ouvintes entendem literalmente as palavras de Jesus e ficam pensando num certo canibalismo;
Lendo o evangelho de João como um todo, vamos ver que João tinha relatado a multiplicação dos pães no início deste capítulo.
- Jesus tinha alimentado o corpo de milhares de pessoas para saciar a fome imediata; isso é bom e é importante. Dar de comer às pessoas que não têm ou que não conseguem providenciar o pão para colocar na sua mesa faz parte da missão da Igreja, de toda pessoa cristã;
- Jesus, então, toma a figura do pão e da fome material para introduzir ao mesmo tempo dois temas que têm uma importância acima de qualquer outro tema:
- 1) a salvação e a vida eterna junto a Deus.
- 2) viver aqui uma vida com sentido.
1) Ele sabe que nós todos buscamos isso: a salvação e a vida eterna. Ninguém quer ficar de fora; ninguém espera passar a eternidade em constante aflição e desespero, como se fosse um fogo nos queimando – o que nós chamamos de inferno na nossa linguagem religiosa... Ninguém quer isso para si, nem deveria desejar isso para ninguém (embora às vezes a gente gostaria de ver uma ou outra pessoa queimar no inferno...).
- Por causa dessa fome de salvação e vida eterna junto a Deus, Jesus se oferece como alimento; um alimento que será levado em consideração no último dia, para a ressurreição; quem comer deste pão e beber deste sangue é marcado para ser reconhecido e acolhido na eternidade junto a Deus;
- Esta “marcação”, na verdade, acontece no Batismo;
- no entanto, o pecado quer apagar o sinal, que precisa ser atualizado e alimentado periodicamente, o que fazemos na Santa Ceia;
- Isto responde a pergunta: por que tem que ser repetido a cada missa/culto, se já recebemos a marca/sinal no Batismo e na primeira comunhão...
2) Ele sabe que nós todos precisamos de uma vida com sentido. Uma vida com sentido é aquela que responde a pergunta: o que estou fazendo neste mundo?
- Comida e bebida material não são suficientes para dar um sentido para a vida. Precisamos de algo mais.
- Vejamos. Por que existem tanto problemas no mundo? Porque muitas pessoas encontram um sentido para a vida no egoísmo, na ambição, nos seus próprios desejos. Querem acumular para si a comida e a bebida material; reduzem o sentido da vida a esse acúmulo de bens e de coisas, de poder e de privilégios.
- Uma vida alimentada por Jesus Cristo é uma vida com sentido diferente dessa; é uma vida que sabe da vida eterna junto a Deus, é uma vida que sabe da salvação e do perdão. Portanto, uma vida livre; não centrada em si, nas suas fomes, mas centrada em Deus e nos seus propósitos, como a solidariedade, a justiça, a fraternidade, a paz.
Na Ceia, corpo e sangue de Cristo unem-se ao nosso corpo, e o desejo de vida plena para todos/as é sempre de novo despertado e prometido. O sopro que deu a vida desde o início, alimenta o sentido dela aqui e na eternidade. Amém.
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09 de agosto de 2015
Efésios 4.25-5.2.
Prezada comunidade irmãos e irmãs de Jesus Cristo, filhos e filhas do mesmo Pai!
Inicio lembrando a história que contei para as crianças.
O apóstolo Paulo não menciona a construção de nenhuma ponte em seu texto. Mas, escreve sobre as implicações práticas de se abraçar a fé cristã. Ele faz uma referência clara às atitudes que promovem a unidade das pessoas que creem, assim como daquelas que fazem romper essa mesma unidade.
Os dois irmãos estavam unidos pelo vínculo familiar, o qual não escolheram, mas lhes foi dado,
- assim também na comunidade cristã, a unidade é dada por aquele que construiu a ponte que nos une a Deus e às demais pessoas que partilham da mesma fé: Jesus Cristo.
Por isso, a comunhão, que é expressão dessa unidade, não é somente uma construção das pessoas que partilham da mesma fé. Ela é uma dádiva, um presente para nós, que nos foi dado por Jesus. Assim sendo, poderíamos começar a leitura desta passagem de Efésios pelos dois versículos que a concluem: “Vocês são filhos e filhas queridos de Deus e por isso devem ser como ele. Que a vida de vocês seja dominada pelo amor, assim como Cristo nos amou e deu a sua vida por nós, como uma oferta de perfume agradável e como um sacrifício que agrada a Deus!” (5.1-2)
O amor para o qual o apóstolo Paulo aconselha a comunidade em Éfeso, só é possível porque Deus amou primeiro. A unidade, a comunhão entre nós é possível porque o amor de Deus nos encoraja para viver nela.
Nós conhecemos bem o que pode destruir essa comunhão e Paulo também faz questão de mencionar algumas coisas: a mentira, a raiva, o roubo, as palavras ditas com maldade e o provocar a tristeza do Espírito de Deus.
Paulo acentua, porém, o aspecto positivo da conduta das pessoas que integram a família cristã e para cada tema de conduta negativa ele propõe um remédio: digam a verdade; se ficarem com raiva não vão dormir com ela; em lugar de roubar, trabalhem com honestidade (eu não acredito em simpatias, mas tem uma na qual eu acredito: a simpatia para ganhar dinheiro: levantar cedo, tomar um banho e ir trabalhar!); em lugar de palavras que machucam e destroem, usem palavras boas e construtivas; em lugar de atitudes que entristecem o Espírito Santo, aprendam a perdoar, tal como foram perdoados por Deus.
Seguramente esse “modelo” de convívio entre irmãs e irmãos na fé também se aplica para o convívio nos ambientes em que estamos engajadas e engajados no dia-a-dia. Afinal, a fé cristã quer ser abraçada no cotidiano e não somente nos dias de reunião da comunidade. Trazer a proposta de nova vida, que resulta da fé, para dentro dos nossos grupos e espaços de convívio nem sempre é tarefa simples. Cada pessoa é diferente e acolhe de modo diferente aquilo que é dito e aquilo que é feito. Isso às vezes causa conflito, mas saber resolver o conflito sem violência, sem condenação, é sabedoria de Deus.
O que causa conflito? Muitas vezes a gente pensa que está fazendo algo bom, mas que não é entendido assim pelas outras pessoas. E daí já vem o conflito. Na verdade, não há “receitas” prontas e infalíveis. A vida em comunidade (família, igreja, sociedade), depende, sobretudo, de que a gente saiba ouvir-se mutuamente com atenção e abertura. Principalmente penso, hoje, no espaço familiar, considerando que hoje lembramos os pais em seu dia.
A tarefa paterna de amar e educar requer uma postura de amizade e de abertura e de firmeza. Quem é pai e pretende que os filhos e filhas o ouçam, então, demonstra-lhes amor e firmeza. Seja um “construtor de pontes”, através das quais possam acontecer reencontros, reconciliações e expressões de carinho. Se a vida nos leva por caminhos de rancor, de mágoas, de palavras ditas para ferir, não nos deixemos dominar por esses males. Em Cristo, Deus nos amou e libertou para que possamos viver nova vida. “Que a vida de vocês seja dominada pelo amor!”
Vida em comunidade é um exercício de cuidado e uma rica oportunidade de vida com sentido nestes tempos de isolamento e de individualismo.
Querem fazer-nos acreditar que as cercas nos fazem mais felizes do que as pontes. Temos, no entanto, uma intuição de que no isolamento, cada qual preocupando-se apenas consigo mesmo, não há futuro para a humanidade.
Por isso, tenho defendido que a vivência comunitária da fé pode funcionar como “vacina” contra a solidão e como um sinal profético de que a vida pode ser diferente.
A saída para a maior parte dos problemas passa pela capacidade de nos deixarmos amar e de amarmos, cooperando na construção de pontes que possibilitem que nos olhemos nos olhos, nos digamos a verdade com amor e troquemos um abraço. O construtor de pontes já está na minha e na tua casa: é Jesus Cristo. Vamos trabalhar e colaborar com ele! Amém.
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02 de agosto de 2015
1ª prédica - culto na Igreja da Ressurreição (10 horas)
Muito mais do que imaginamos, nossa vida depende de sinais de diversos tipos. Pensemos em sinais de trânsito ou na falta deles.
Quando chegamos e algum lugar desconhecido, se não há sinais ou há só poucos, nos sentimos perdidos. O mesmo vale em estradas que andamos pela primeira vez: Precisamos de sinais que nos orientem. Às vezes a ausência deles coloca em risco a nossa vida.
Nossos avós sabiam, e as pessoas que vivem no campo sabem identificar uma infinidade de sinais da natureza, do sol, da lua, das nuvens. Essa identificação ajuda a orientar a vida e as ações da lida na roça e com os animais.
E dependemos de sinais no relacionamento com outras pessoas: Um sorriso, uma cara feia, um abraço, um frio aperto de mão. Tudo são sinais que nos dão algum recado. Verdade que nem sempre fazemos a leitura correta desses sinais todos. E temos também, sinais bem particulares: Uma dor, uma tontura, um mal-estar, tristeza, abatimento, alegria. Tudo são sinais do que está acontecendo conosco.
E, na vida, buscamos sinais que comprovem autenticidade e verdade, no mundo moderno substituídos em grande parte por etiquetas, que tantas vezes nos enganam!
Jesus, durante a sua vida e vivência no meio de seu povo, por mais de uma vez foi desafiado, foi instado a dar algum sinal de sua autenticidade. Lembremos que até a sua família tinha dúvidas a seu respeito.
A passagem para a nossa reflexão de hoje é precedida pelo milagre da multiplicação dos pães, da comida concreta. Em decorrência disso muita gente foi atrás de Jesus, mesmo por caminhos diferentes. Jesus entende esse sinal como a busca de comida por mais tempo. E aí se estabelece um diálogo, que no primeiro momento parece um diálogo de surdos, porque Jesus começa a falar de comida em bem outro sentido.
Jesus não despreza o pão para o corpo – pelo contrário; tanto que dá de comer para o povo. Pão, na linguagem bíblica, significa mais que pão de farinha, mas tudo aquilo que precisamos para uma vida com dignidade e saúde. Mas, este pão tem um limite. Consegue apenas manter a vida terrena. Ou seja, tem um “prazo de validade”.
Mas, ele quer dar mais; ele quer dar um pão sem prazo de validade, um pão que habilita para a vida eterna. O pão que sacia mais que a fome física.
E este pão não precisa ser conquistado com suor e trabalho: é dádiva, é presente. O único trabalho que temos é a atitude de recebimento.
Esta atitude está presente na distribuição da Santa Ceia, quando a gente estende a mão para receber a hóstia. A mão vazia que, quando preenchida com a presença real de Jesus Cristo, alimenta o corpo todo para esta a vida e para a próxima, depois da ressurreição dos mortos.
Outro sinal disso que estou dizendo, nós temos aqui na Igreja da Ressurreição. É a nossa pia batismal. No pilão e na panela de cobre, onde se preparou comida para o corpo, agora vem a comida espiritual que é concedida no Batismo e que dura para sempre, para a vida eterna.
Portanto, o que Jesus faz é mostrar que a nossa vida não se limita ao mundo e ao tempo que aqui vivemos. Ele aponta para o horizonte da eternidade, para a comunhão definitiva com Deus.
Aceitar este pão que Jesus oferece transforma o jeito de viver aqui no mundo e no relacionamento com as gentes e a criação.
Porque eu tenho esperança não dependo da ânsia de viver tudo aqui e agora;
não dependo de gozar a vida em toda a sua plenitude ou até para além dela.
Prender-se à vida no mundo é combustível para a ganância e o egoísmo. Quem não recebe o pão como presente da mão de Deus e na perspectiva da eternidade, se obriga a “comer” tudo aqui e agora e acaba se afogando na própria comida, enquanto outros morrem de fome.
Crer e saber que o Cristo é o pão da vida abre espaço na minha vida para outros, na leitura verdadeira da comunhão eucarística.
Agradeçamos pelo pão de cada dia, pelos sinais do amor de Deus que este pão nos dá e, através dos sinais, deixemos que o Cristo nos abra olhos e coração para além dos limites da nossa vida e do nosso mundo e, assim os olhos para os outros, para que sejamos pequenos sinais do amor de Deus, revelado no Cristo, pão e sustento da e para a vida eterna.
Que a paz de Deus, que supera todo nosso entendimento, guarde nossos corações e pensamentos em Cristo.
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2ª prédica - oração verspertina (na igreja da Paróquia de Santa Lidia (anglicana) - 18 e 30 horas:
A causa de todo e qualquer acidente é a distração:
- no transito;
- em casa, na louça;
- no trabalho (dentista);
Às vezes basta uma pequena distração; outras vezes a distração é maior, e por mais que a gente explique e diga, as pessoas se distraem e acabam gerando acidentes.
Jesus passou bastante tempo brigando com seus discípulos e com o povo por causa de suas distrações;
- ele falava, explicava, mas o pessoal não se concentrava totalmente, não ouvia tudo o que ele dizia; se distraia e acabava provocando acidentes de percurso na caminhada da fé.
Nosso texto é um exemplo disso: Jesus tem uma discussão com o povo, porque não entendem o que ele tinha feito e dito:
- sabemos que no texto anterior ao nosso, Jesus tinha alimentado uma multidão de milhares de pessoas;
- o pessoal não se concentrou em ouvir o que ele disse, nem em entender o sinal que estava sendo dado e só queria mais comida para o corpo; queria que Jesus desse todos os dias essa comida, para que não precisassem mais trabalhar, nem se preocupar com o que comer.
Mas, o que Jesus queria com a multiplicação, era dar um sinal de seu poder, de sua autoridade divina para dar também um outro pão, um pão que não só alimenta o corpo, mas alimenta o espírito e que não se limita no tempo, mas conduz para a ressurreição e a vida eterna.
O que Jesus queria dizer era isso: quem come do pão material, morre um dia; o pão material tem prazo de validade: fica podre e estraga, sobretudo para quem acumula o que não precisa (ver exemplo do Maná no deserto;
- mas o seu pão (no exemplo da multiplicação dos pães), é o pão da partilha, da divisão, que não estraga, nem tem prazo de validade: porque é sinal para o outro pão, que ele mesmo se dá a si mesmo para a partilha, na cruz, que provoca a fé, que introduz a pessoa no número de pessoas a participarem da ressurreição para a vida eterna, a vida ilimitada, a vida que não apodrece, pelo pão que não apodrece.
Aqui quero trazer à lembrança a pia batismal da nossa igreja em Santo André. (Explicar...)
No nosso texto, Jesus diz exatamente isso: que quem recebe o pão da vida eterna também luta para que o pão limitado, com prazo de validade seja dividido na terra;
- mas não adianta receber um, se não acolher o outro.
Não adianta comer o pão que é partilhado na mesa se não acolher o pão repartido no altar; não adianta receber o pão do altar, se não tiver sensibilidade para fome material que assola milhões de pessoas. As duas coisas andam juntas.
Portanto, o que Jesus faz é mostrar que a nossa vida não se limita ao mundo e ao tempo que aqui vivemos. Ele aponta para o horizonte da eternidade, para a comunhão definitiva com Deus.
- Mas, também é tomar consciência de que este pão que Jesus oferece transforma o jeito de viver aqui no mundo e no relacionamento com as gentes e a criação.
- Porque eu tenho esperança não dependo da ânsia de viver tudo aqui e agora;
- não dependo de gozar a vida em toda a sua plenitude ou até para além dela.
Prender-se à vida no mundo é combustível para a ganância e o egoísmo. Quem não recebe o pão como presente da mão de Deus e na perspectiva da eternidade, se obriga a “comer” tudo aqui e agora e acaba se afogando na própria comida, enquanto outros morrem de fome.
Agradeçamos pelo pão de cada dia, pelos sinais do amor de Deus que este pão nos dá e, através dos sinais, deixemos que o Cristo nos abra olhos e coração para além dos limites da nossa vida e do nosso mundo e, assim os olhos para os outros, para que sejamos pequenos sinais do amor de Deus, revelado no Cristo, pão e sustento da e para a vida eterna.
Amém.
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26 de julho de 2015:
Querida comunidade,
Os 3 textos bíblicos previstos para hoje nos lembram que somos alimentados/as por Deus. O pão nosso de cada dia é uma dádiva, um presente que quer ser compartilhado, repartido.
No Sl 145, lemos que Deus ajuda as pessoas em dificuldade e levanta as que caem. Todos olham para Deus com esperança e Deus as alimenta.
No Ev de João, as pessoas que seguem Jesus para ouvi-lo estão famintas.
Filipe diz: para todos receberem um pouco de pão, precisaríamos gastar mais de 200 moedas de prata. André, outro discípulo, traz a Jesus um menino com 5 pães e 2 peixes, mas sabe que aquilo não é nada para alimentar quase 5 mil homens. Jesus pega aquele alimento, dá graças e reparte. Todas as pessoas comeram (também as mulheres e crianças) e ainda sobrou.
Antes de ler outra vez II Rs 4.42-44, que é o texto previsto para a reflexão de hoje, faço uma pequena introdução: após a morte do profeta Elias, seu ajudante Eliseu tornou-se profeta também. Profeta, no AT, não tem nada a ver com adivinhação do futuro. Profetas são pessoas normais, de muita fé e confiança em Deus que não tem medo de arriscar. Confiam tanto nas promessas de Deus, que ousam abrir mão do conforto e da segurança para seguir o que Deus prometeu. Os profetas questionam o poder político, econômico e religioso, denunciando as injustiças e anunciando a vontade de Deus. Muitos pagaram a ousadia de ser profeta e profetiza com a própria vida.
Com fé e confiança em Deus, Eliseu transforma situações de desespero e morte em nova possibilidade de vida: só no cap. 4, temos belas histórias que contam como Eliseu livrou uma família pobre da escravidão, fez reviver uma criança, transformou um cozido envenenado em comida boa e fez uma multiplicação de pães, que é o texto de hoje.
Leitura de II Rs 4.42-44
O texto começa de maneira surpreendente: ao contrário do que dizia a tradição e a lei, o agricultor não leva os primeiros frutos da terra, as primícias, para o templo, para os sacerdotes. Entrega os pães, feitos com os primeiros frutos da terra, para o profeta Eliseu. Este poderia tê-los recebido e encaminhado para o templo; porém, manda distribuir o pão entre as pessoas que o acompanhavam e estavam com fome.
Aparentemente não seria suficiente, mas todas as pessoas comeram e ainda sobrou.
Distribuir o pão, partilhar as primícias matou a fome e revigorou aquelas pessoas. O gesto de colocar o pão à disposição de todos/as trouxe novo ânimo a elas.
Nas últimas semanas, com as chuvaradas e enchentes, também vimos muitos gestos solidários que animaram as pessoas a continuar lutando. Foram gestos que revigoraram e deram esperanças às pessoas atingidas pelas cheias. Muita gente se mobilizou.
Mas, em meio a esses gestos de esperança, também ouvimos sobre egoísmo e ganância. Uma cidade ficou 6 dias sem água potável. Imaginem que, nessa situação de calamidade e desespero, algumas pessoas que tinham poço artesiano, o que é proibido ter, cobravam pela água. E havia fila para pegar e pagar por aquela água. Nada de partilha. Nada de generosidade. É meu, eu cobro!
Em função dessa postura (que não existe só naquela cidade – perguntemos a nós mesmos/as como reagiríamos se o poço fosse nosso), pessoas brigam, se matam. Para defender e proteger o “seu pão”/ a sua água pessoas se isolam, tornam-se rancorosas, doentes. Fecham a mente, o coração e a mão. Perdem a sensibilidade. Desumanizam-se. E nós, podemos nos surpreender procurando justificativas para esse tipo de postura... “É dele. Ele faz o que quer. Furou o poço, teve gastos,...”
Infelizmente, vivemos numa sociedade antipartilha, que se deixou fascinar pelo acúmulo. Nossa cultura é essa, nosso sistema econômico é assim. Primeiro eu preciso juntar. Depois, eu continuo juntando... é difícil alguém dizer que juntou o suficiente para poder partilhar. Como temos dificuldade de partilhar. Não falo só de recursos, mas também do nosso tempo, nossos conhecimentos e dons para ações voluntárias, por exemplo.
O papa Francisco tem questionado muito o acúmulo e as consequências dele. Coloca o dedo na ferida social e ecológica causada pela ganância. Ele teima em colocar o ser humano, sua dignidade, sua vida acima do capital, do lucro e do acúmulo. Mas, a dinâmica do mundo, que é definida pelos acumuladores, não permite que o ser humano seja colocado no centro.
E a mensagem bíblica é clara: a terra é de Deus, o pão é para todas as pessoas. Acúmulo de riquezas, ganância, egoísmo é pecado e nos afastam de Deus. Os profetas nos deixaram uma mensagem; Eliseu colocou o pão à disposição de quem tinha fome; Jesus alimentou uma multidão. Milagres que denunciam uma situação injusta – a fome – e anunciam a vontade de Deus através da partilha, do colocar-se à disposição.
Jesus, como pão da vida, partilhou a si mesmo em favor da humanidade e da criação. Que nós sejamos desafiados por essa palavra a partilharmos o que temos e o que somos, lembrando que o nosso alimento (nossos dons, capacidades, habilidades) é presente de Deus. Somos alimentados/as por Ele.
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Data: 19 de julho de 2015:
Marcos 6. 30 – 35 , 53-56
(Autor: estudante de teologia Paulo Sérgio Macedo dos Santos)
Caríssima comunidade!
O texto previsto para a prédica de hoje, Marcos 6. 30 – 35, 53-56, talvez não requeira tamanho exercício de investigação e interpretação. Em suma é um texto obvio. E como diz a máxima: O obvio precisar ser dito. Corremos o risco de não dizendo aquilo que parece elementar, arrepender-se dizendo: Era obvio!
No texto, os discípulos, retornam da missão que fora dada por Cristo, que m duplas fossem anunciar a boa nova. (Mc 6. 7)
Retornam cansados, e contam a Jesus como foi à recepção da noticia, da Boa Nova de que o Messias se encontrava entre eles.
Jesus busca um local onde os apóstolos possam descansar, mas a multidão quer ver Jesus, quer tocar em Jesus, quer ouvir Jesus.
Aquele que procuravam e procuram Jesus, ouviram e ouvem seus ensinamentos, doentes são curados, vidas restauradas.
Cristo atuou diretamente no coração daqueles que o procuraram. Se por um lado o texto aborda a questão missionária por outro deixa bem claro quem é o centro desta ação: Jesus.
Para a ação verdadeira de Jesus, não houve a necessidade de sacerdotes, de sacrifícios, de intercessores.
Este texto certamente inspirou Lutero 1500 anos depois. Podemos nos relacionar diretamente com o Cristo, na beira do lago, sem intercessores. Fomos libertos em Cristo dos penduricalhos humanos que podem cercear esta relação intima com o Cristo. Não precisamos mais de lascas de cruz, cartas de indulgencias, sacrifícios, óleos consagrados, toalhas ungidas, tijolos, intercessores etc..
O poeta Bertold Brecht diz em seu poema:
Aos que vierem depois de nós"
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura,
Uma fronte sem rugas denota insensibilidade.
Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.
Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!... ( ele continua)
... Ah! nós que quisemos preparar o terreno para a bondade não pudemos ser bons
Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem
Lembrai-vos de nós com indulgência!
Escrito por volta dos anos 40 em meio à guerra e tão atual...
Cristo, o único e verdadeiro Bom Pastor subverteu toda uma ordem para libertar o povo de uma cadeia de opressão, que incluía opressão religiosa, politica, psicológica etc. Isto também pode ser visto no texto de Jeremias 23.1-6 que ouvimos anteriormente.
Quase 1500 anos depois, Lutero, percebendo que penduricalhos adicionados em torno de Cristo oprimiam e distanciavam o povo de Jesus propõe que a relação com Cristo passe a ser mais direta, na beira do lago
Hoje...
Repito Brecht: Realmente vivemos tempos sombrios.
Onde muitos falam em nome de Cristo e muito poucos conversam com Ele.
Para se relacionar com Cristo basta chegar perto dele e o tocar, o procurar. Aí podem me dizer: Mas isto é fácil!
Mas para que a relação seja verdadeira é necessário compreender o que Ele diz, através das Escrituras, vivenciar o Amor de Cristo que se revela no amor ao próximo, na compreensão, na vivencia.
Aí podem me dizer: Ficou difícil, não tem um sacerdote aí para fazer este serviço não?
Cristo nos enxerga de maneira integral, sem máscaras. Talvez o medo de nos encontrarmos com o Cristo, e eu também tenho que trabalhar este medo, seja o medo de nos enxergarmos como somos. E nem sempre gostamos de nos ver.
Por isso assolam tantos sacerdotes nos dias de hoje
Mas Cristo nos aceita da maneira como somos, verdadeiramente.
Quando nos utilizamos de intermediários para construir esta relação, perdemos a oportunidade de sermos tocados diretamente por Cristo. Compreendendo melhor o seu amor. Compreendendo e amando o próximo, compreendendo e aceitando a nós mesmos, nossas falhas, nossos medos. Abrindo espaço para sentir o amor de Cristo e seu perdão e assim sermos curados. Faz-se então, o milagre.
Aqui em nossa comunidade, conseguimos experimentar um pouco esta relação com Jesus. Somos díspares, pensamos diferentes, temos posicionamentos ideológicos diferentes, historias de vidas distintas, mas ainda assim, convivemos em comunidade e nos preocupamos uns com os outros.
Para extrapolar esta relação ao mundo, será preciso apenas que cheguemos a beira do mar, que toquemos em Cristo e que deixemos Ele atuar em nossas vidas. Amém
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28 de junho de 2015 (Grupo de leitura bíblica e liturgia)
(Autor: pastor Luiz Eduardo Prates da Silva - Metodista)
Texto: Lamentações 3.22-33
I
- Saudação – Agradecimento – Admiração por: ser mesmo comunidade / ser acolhedora / música.
- O tema do Sofrimento – Texto do Calendário Cristão: Lamentações (convidar as pessoas para localizarem o livro – pg. 928 – que durante a prédica vou citando os versículos para lermos).
II
- Tocar a música “Angélica” de Chico Buarque – só a parte escolhida.
Um exemplo de sofrimento individual. É o período da ditadura militar. Muitos jovens por defenderem sua visão de como deveria ser a estrutura econômico-política do nosso país, são considerados subversivos. Alguns pensam que a única maneira de fazer frente à situação é a luta armada. Muitos são presos, torturados, mortos. Sturart Angel é um desses. Preso, torturado, seu corpo nunca apareceu. Suspeita-se que tenha sido jogado no mar. Zuzu Angel, sua mãe, faz um périplo pelos principais poderes do país, em busca de seu filho. Não o encontra e finalmente morre em um acidente de automóvel suspeito. Chico Buarque faz essa música, homenageando Zuzu e as muitas mães – brasileiras ou latino-americanas na mesma situação. É um exemplo de um sofrimento individual indescritível: “Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”; “... essa mulher Que canta sempre esse lamento? Só queria lembrar o tormento Que fez meu filho suspirar”
- Tocar música “Pedaço de mim” de Chico Buarque – só a parte escolhida.
“A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” Outro exemplo de sofrimento individual. No momento do velório e do sepultamento ainda há muitas pessoas, vozes, barulhos, mesmo que os familiares mais próximos não estejam se dando conta de tudo o que está se passando devido ao sofrimento. Mas depois, no silêncio da casa, entrar no quarto do filho morto – que se torna quase um santuário... deve ser muito difícil. Um sofrimento quase insuportável. Essa situação pode ser também relativa a de qualquer outro familiar que morreu. Mas no caso de filho ou filha, penso que seja ainda mais dolorosa, pois, na ordem natural, pensa-se que os filhos devem enterrar os pais e não o contrário.
- Além deste sofrimento individual, há também o sofrimento coletivo de um povo. Na história há centenas de exemplos. Mas agora eu gostaria de lembra um apenas. Assisti recentemente o Filme Xingu. A história dos irmãos Claudio e Orlando Villas Bôas. Nesse filme há uma parte em que diz que quando foi decidida a construção da estrada Transamazônica eles verificaram que o traçado passava pelas terras do povo indígena KRENAKARORE. Índios altos e com dignidade impressionante. Praticamente sem contato com a civilização branca. Os Villas Bôas fizeram de tudo para mudar o traçado, mas não conseguiram. Quando as obras passaram por esse local, os Krenakarore tinham uma população de 600 pessoas. Apenas um ano depois, a aldeia estava reduzida a 79 indivíduos. Os demais morreram de gripe, de tuberculose, de abuso sexual e doenças venéreas e de alcoolismo (comenta-se que propositadamente foram enviadas pessoas com gripe para o local, porque os indígenas não tinham anticorpos para enfrentar essa doença). A gente normalmente pensa em quem morreu. Mas hoje eu lhes convido a pensar no sofrimento dos sobreviventes. Viram as autoridades de seu povo, seu cacique, seu pajé e também seus familiares: avós, pais, mães, filhos e filhas morrerem de forma estúpida e inexplicável. É um sofrimento coletivo inominável.
- É desse tipo de sofrimento que nos fala Lamentações. É o ano 587 A.C. Dia 29 de julho. O exército babilônico, que cercava há tempos Jerusalém, finalmente consegue romper os muros fortificados da cidade. Na leitura religiosa e “crente” do autor de Lamentações, o Senhor Deus é quem comanda as ações (Lm 2.5, 7-9) (convidar pessoas voluntárias para irem lendo os versículos, na medida em que são citados); a cidade é arrasada (1.3, 2.2-4); o Templo é arrasado: 2.7; cerca de 4.600 pessoas, as mais importantes do povo (classe dominante e nobreza) foram feitos prisioneiras e levada para o cativeiro na Babilônia. Entre elas, o rei. O livro iniciai dizendo: “Como está solitária a cidade populosa” (1.1). Mais adiante (5.18): Sião (outro nome para se referir à cidade) está abandonado e as raposas andam pelas ruínas.
O doutor Valério Shaper nos diz: “A deportação atingiu um número pequeno da população, pois a grande massa, os agricultores, permaneceu. Sem líderes políticos (1.15-16; 5.3) religiosos e sem o lugar de culto, a cidade outrora populosa passa a “noite chorando” sem ninguém que “a console”. Ninguém vem às festas, as portas estão desertas e os sacerdotes, que sobreviveram e não foram deportados, “gemem”. Criancinhas “partiram cativas” e as que ficaram, ainda lactentes, “desfalecem” pelas ruas, uma pedem por pão (2.11-12) e outras serviram de alimento (4.10). As mulheres foram violentadas (5.11). A “filha de Sião” perdeu toda a sua “formosura”. É como se o “céu” tivesse se precipitado sobre a terra (2.1). (Proclamar Libertação, nº 25, p. 226).
- É muito sofrimento. É possível que muitas pessoas aqui presentes tenham passado por sofrimentos muito intensos. Eu até ia pedir que, se alguém quisesse fazer um depoimento, poderia fazer. Mas isso é difícil e pode ser constrangedor. Mas todas as pessoas passam por sofrimento. Ai eu pensei que sofrimento é como orquídea (flor que eu adoro): não tem uma mais linda do que outra – apenas são diferentes. Também não há maior sofrimento que outro – apenas são diferentes. Na verdade, o maior sofrimento é o próprio de cada pessoa. Os outros, como os relatados aqui, são terríveis. Mas a gente só imagina. O sofrimento maior é aquele que cada um experimentou em si mesmo.
III
- Agora, diante de tanto sofrimento, o que fazer? - Arte – Poesia – Lamentação. Por exemplo:
- Djavan – música “Flor de Lis” (tocar só a primeira parte)
Djavan teve uma companheira: Maria. E eles se amavam. Maria ficou grávida. Em plena felicidade eles escolheram o nome de Margarida para a filha. Maria morreu no parto. Margarida também. Por isso Djavan fez essa música, transformando em arte seu sofrimento: “Do pé que brotou Maria, Nem margarida nasceu”. “E foi assim que eu vi / Nosso amor na poeira, poeira / Morto na beleza fria de Maria”.
É interessante notar que a música é uma oração. Inicia dizendo: Valei-me Deus. Como quem diz “Me socorre, Senhor”. É assim que começa o Salmo 130, que foi lido na abertura do Culto. E continua com um sentimento de culpa e uma confissão difusa: No Salmo: “Se tivesses feito uma lista de nossos pecados, quem escaparia...”. E Djavan diz: “Perdoa, por favor / Eu sei que o erro aconteceu / Mas não sei o que fez / Tudo mudar de vez / Onde foi que eu errei? Eu só sei que amei / Que amei, que amei, que amei...” Um sofrimento do qual não se vislumbra especificamente a causa.
Esse é um exemplo de sofrimento individual que virou oração e arte. Há também o sofrimento coletivo, como no quadro Guernica de Pablo Picasso (projetar o quadro).
- Guernica era uma cidadezinha pequena na Espanha, no chamado País Basco. No dia 26 de abril de 1937, no contexto da Guerra Civil Espanhola, Guernica foi bombardeada com centenas de bombas. O bombardeio começou às 15 para as 5 da tarde e durou 2 horas e 45 minutos. Destruiu tudo. 1654 mortos. 889 feridos. Quase 40% da população atingida diretamente.
Pablo Picasso, então na França, vendo as imagens, teve a inspiração para o quadro que havia sido encomendado pelo governo republicano, contra o qual Franco se levantava e ordenou o bombardeio. A história do quadro vocês podem ver na internet. Talvez só um detalhe: em 1991, quando o Gen. Colin Powell, então Secretário de Estado dos Estados Unidos, ia anunciar na ONU, que os Estados Unidos iam mesmo fazer a guerra contra o Iraque, alguém observou que no salão onde ia ser feito o anúncio havia uma reprodução imensa do quadro de Picasso. Providenciaram então, imediatamente, para que a pintura fosse encoberta com um pano branco... Acho que só isso já diz muito dos horrores da guerra.
Picasso é um pintor que usa muitos símbolos. O touro - impassível – representando sempre o poder. O cavalo – horrorizado, representando o povo. A mulher com o filho morto no colo – uma Pietá espanhola. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada. Uma mulher com os seios expostos e grávida, voltada para a luz implora pela vida. Outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio. Uma casa arde em chamas. Dominando o quadro, a luz de um olho-lâmpada, que simboliza a tecnologia. Ao lado dela um lampião – simbolizando o saber popular. A tecnologia das armas mortíferas – dos aviões, das bombas. Contra ela, o que poderá o saber popular???
A presença do touro e do cavalo nos remete também para o sofrimento e a destruição da natureza, causados por nossa “civilização”...
- Lamentações é, também, sofrimento que virou arte. Na verdade, é um extenso poema meticulosamente elaborado. O estilo é do hebraico antigo, chamado de quiná. Trata-se de uma estrutura literária própria, como o soneto, por exemplo,: 14 versos, todos com o mesmo número de sílabas, as duas primeiras estrofes com quatro versos, as duas últimas com três. Sobre a estrutura literária, a Bíblia da Nova Versão Internacional nos diz: “Cada uma das lamentações contém 22 versículos (a não ser a terceira, que contém 66 – 3 vezes 22) cifra que reflete o número de letras do alfabeto hebraico. Além disso, as quatro primeiras são acrósticos – tem três versos no original hebraico, ao passo que na terceira, cada um dos 66 versículos se compõe de um só verso. A quarta é mais curta (cada um dos 22 versículos tem dois versos), e a quinta é ainda mais breve, tem um versículo apenas.” Ou seja, todo o poema tem o alfabeto como estrutura. Transformou o sofrimento em uma peça literária rigorosa.
- Diante do sofrimento extremo – ad-miração: colocar-se de fora para olhar. E aí entra a arte. Contrariamente ao que se pensa no senso comum, a arte não é só para a apreciação do belo. É a ad-miração, a estupefação, diante da vida e de seus problemas. A vida tem que ser ad-mirada para pensarmos seus horrores e suas belezas, e assim nos posicionarmos diante dela. Na nossa sociedade tecnológica, perdemos o sentido da surpresa, da ad-miração e da reverência diante do real.
“Mas nem todo o mundo é artista!”, alguém dirá. Cultivando esses sentimentos todo e todas nós, sim, podemos ser artistas. No varejo, no cotidiano. Além do mais, todos e todas somos artistas, no sentido que se nos deixamos tocar ou questionar por uma obra de arte é porque ‘complementamos’ a obra do artista com nossa apreciação. Ou seja, em algum sentido, somos coautores da obra, em nossa interioridade.
Mas, diante do sofrimento, não basta apenas a arte. É aqui que entra a mensagem de Lamentações e o texto do calendário Cristão destinado à prédica de hoje, Lm 3.22-33. A arte tem que ser complementada com uma atitude irredutível de Fé. É o que nos diz o texto. Vamos ler, mas vamos começar do versículo 21. (convidar para ficarmos em pé)
IV
- Aqui a segunda parte do tema: O sofrimento humano (1ª parte), mas a esperança (2ª parte). A esperança que surge de uma atitude inabalável de fé. Em meio ao sofrimento, trazer à memória o que pode dar esperança: Deus não retira de nós a sua Misericórdia. O seu amor renova-se a cada manhã. O Senhor não rejeita para sempre. Bom é aguardar a sua salvação, em silêncio – ainda há esperança. O tema é então: O sofrimento humano e a esperança que surge de uma fé inabalável.
- Agora, porque tratar desse tema tão sofrido para todos nós? São vários os motivos:
- Primeiro, porque o livro de Lamentações foi inserido na liturgia judaico-cristã. Da parte judaica: os judeus ortodoxos recitam o livro inteiro, uma vez por semana, na língua original, em frente ao Muro das Lamentações em Jerusalém. Da parte cristã: Lamentações faz parte do Calendário Cristão, como já foi dito. Isso significa que, pelo menos uma vez a cada três anos, alguma parte do livro de Lamentações deve ser lido e refletido no Culto. É por isso que o Calendário Cristão é importante: Ele nos faz ler textos que não são tão agradáveis e que de outra forma não leríamos. Na liturgia Católica Romana, também se lê Lamentações anualmente nos três dias que antecedem à Paixão.
- Porém, não é à toa que Lamentações entrou na liturgia, seja judaica, seja cristão. É porque o sofrimento faz parte da experiência humana e temos que refletir sobre ele. Nesses tempos atuais, onde o hedonismo, a busca de prazer, está em todo o lugar, a gente não gosta disso, de meditar sobre o sofrimento. Nas igrejas hoje, por exemplo, esse tema é quase proibido, quase um tabu. O que se prega é que crente não pode sofrer. Mentira. Eles, como nós, com qualquer pessoa, também passam por sofrimento. A Graça sem a cruz, já dizia o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, é graça barata. No cristianismo não há graça sem cruz.
- Mas o terceiro e fundamental motivo é porque a mensagem final não é o sofrimento, mas a esperança. O sofrimento é contingencial. A Esperança que brota da Fé inabalável é eterna. Deus não abandona seu povo. Sua Misericórdia é infindável. Ela se renova a cada manhã.
- Por fim, e voltando a um tema que já foi tangenciado, para nós cristãos e cristãs, o sofrimento não é estranho (projetar o Cristo Crucificado). É pelo sofrimento Dele que nos vem a salvação. Participarmos do seu sofrimento é um privilégio para nós. O castigo que nos traz a Paz estava sobre ele. Pelas suas pisaduras fomos sarados. A Ressurreição vence todo o sofrimento. À noite pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã. E a maior alegria será a manhã da Ressurreição.
Como diz o Apóstolo Paulo: “... tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18 – tradução Revista e Atualizada).
- Amém.
1. Angélica
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar
2. Pedaço de Mim
Chico Buarque
...
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
...
3. Xingu
4. Flor de Lis
Valei-me, Deus
É o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei
Que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força
Pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira, poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu
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21 de junho de 2015
Texto – Mc 4.35-41 e Jó 38.1-11
Prezada Comunidade,
Quando éramos jovens, passamos por situações em que se estava com um problemão – para a gente, ao menos, era um problemão! Mas parecia que os pais não estavam vendo ou não estavam se preocupando!
Aí a gente quer dormir e não consegue, porque só pensa no problema;
a gente não consegue comer, se divertir,...
E olha para o pai, para a mãe e eles comem, se divertem, dormem, como se nada estivesse acontecendo...
Até que a gente não se aguenta e acorda/chacoalha o pai e a mãe e pergunta: ”vocês não vão fazer nada? Será que não estão vendo nada? Eu preciso de ajuda!!!”
E é para os pais mesmo que a gente tinha que falar. É com os pais que a gente podia compartilhar esses nossos problemões.
Aí os pais sentavam com a gente, reconheciam que a situação é difícil (pelo menos para nós!) e analisam junto o problema buscando, sugerindo algumas opções para sua resolução.
De repente a gente percebia que o problema nem era tão grande assim; que tinha uma solução bem diante dos olhos, só que a gente não enxergava. E que essa solução era possível e nem tão difícil de realizar.
Na vida sempre é assim: quando as cargas são divididas, carregá-las fica mais fácil; uma solução se torna possível.
Essas coisas que estou falando foram motivadas pelo texto bíblico que serve de base para a prédica do domingo de hoje.
Mc 4.35-41 (Aleluia).
Os discípulos, aquelas pessoas que seguiam Jesus, também estavam passando por um problemão; pelo menos parecia ser um problema sem solução. Vamos morrer!!!
Jesus dorme, parece estar indiferente ao drama que aqueles discípulos estavam vivendo.
Eles ficam aterrorizados com a possibilidade de afundar com o barco, e Jesus dorme tranquilamente. Provavelmente eles não sabiam nadar. Pescadores não podiam aprender a nadar, pois tinham que ter tanta confiança em suas habilidades de navegador, que eram proibidos de aprender a nadar.
E Jesus dorme tranquilamente. Enquanto uns vivem uma tormenta, Jesus está tranquilo.
Aliás, essa é a única vez em todo Evangelho em que a gente encontra Jesus dormindo durante uma situação de grande perigo.
Parece estranho. Não fecha muito bem com que esperamos de Jesus.
Nós é que queremos repousar em Deus e, enquanto repousamos em Jesus, esperamos que ele resolva nossas preocupações. Entretanto, esse texto apresenta a situação de forma invertida: Jesus repousa na confiança nos discípulos e espera que eles resolvam o problema.
Podemos dizer que Jesus sabia que estava na mão de especialistas e foi dormir. Não é que não se importava, mas demonstrou confiança. Talvez assim como os pais na nossa juventude, que aparentemente não se importavam com nossas tempestades internas.
Acontece que a tempestade era tão forte que eles não sabiam mais o que fazer. Acordaram Jesus com a frase “Mestre! Nós vamos morrer! O senhor não se importa com isso?”
Jesus conversa com eles, acalma seus nervos, resolve a situação. Talvez a tempestade nem tenha sido tão grande. Mas, pareceu maior por causa da sensação de abandono que os discípulos sentiram.
E aí pergunta: Por que vocês são tão medrosos? Ainda não têm fé?
Eles tiveram medo porque não conseguiram dominar a situação. Viram um perigo maior do que a sua capacidade para resolvê-lo. E, pelo que lemos, eles ainda estavam aprendendo a conhecer esse homem a quem seguiam.
Só pouco a pouco, os discípulos se dão conta que eles não estão seguindo uma pessoa qualquer, mas alguém que ajuda a acalmar as suas tempestades. Com uma palavra, o mar revolto dentro de cada um dos discípulos se acalmou. Eles recuperaram a sobriedade e manobraram o barco para um lugar seguro.
A pergunta de Jesus (vocês ainda não têm fé?) é feita a nós. Não só na juventude, mas em todas as idades passamos por tempestades internas e podemos e devemos responder: Sim, tenho fé. Ela está dentro de mim. Não nasci com ela. Me foi dada no batismo, é dom de Deus, é ação do Espírito Santo.
Mas, muitas vezes, em situações de fragilidade, de problemas também achamos que Deus está dormindo. Santo Agostinho, que inspirou Lutero em sua teologia, disse: “quando se diz que Deus dorme, somos nós que dormimos. Se vivemos a fé, o coração se acalma; se nos esquecemos dela, Cristo dorme e corremos o perigo de naufragar.”
Recebemos a fé, mas ela precisa ser alimentada pela Palavra e pelos Sacramentos. Hoje temos a oportunidade de fazer isso. Participando da Ceia, recebemos individualmente e como família, como comunidade um alimento, uma palavra de Jesus. Este alimento e esta palavra nos encorajam a gritar por socorro, a buscar o diálogo com Deus, e a consequente serenidade para acalmar as tormentas que se colocam na nossa vida.
E a Palavra que ouvimos, a partir do evangelista Marcos, nos desafia a ficarmos acordados/as não em virtude do medo da situação, mas por termos a certeza de que Cristo está conosco. E Ele atua na vida e na história sempre em favor da sua criação e de vida digna para todas as pessoas. Amém.
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14 de junho de 2015
Tema da prédica: Chamad@s para Comunicar e Exercer Diaconia Transformadora
O Objetivo Supremo da Diaconia Transformadora
Imaginemos uma “sociedade diaconal” que atingiu as seguintes características:
- o bem-estar da população e o respeito ao meio ambiente é uma realidade.
- as pessoas vivem na íntegra os ensinamentos de Jesus.
- estão conscientes do sentido de estar no mundo.
- amam a Deus sobre tudo (Lc 10,27). É tanto amor que ele se estende ao próximo e é sentido por todas as pessoas.
- elas se ouvem mutuamente, dialogam, são solidárias e vivem em paz. Cultivam a amizade na diversidade.
- as crianças aprendem os ensinamentos de Jesus desde pequenas. Assim, elas são ensinadas a moldar suas vidas de acordo com os princípios cristãos.
- os adultos dão o exemplo. São modelos ideais para elas.
- políticos, cientistas, artistas, religiosos e todos os cidadãos e cidadãs guiam suas vidas por esses nobres princípios. Tornam-se governantes as pessoas que realmente governam para o bem de toda população. Assim, o progresso e o bem-estar é orientado pelas pessoas mais sábias e honestas.
Como as leis são totalmente justas, todos as seguem com boa vontade. De tempos em tempos representantes dessa sociedade são enviados para outras sociedades. Vão com a missão de aprender a língua, conhecer novas descobertas e contribuir com sua experiência. Ao voltarem, os aspectos mais importantes dessa experiência são introduzidos em sua própria cultura.
Entendem que as relações entre pessoas e nações devem ser de cooperação e solidariedade, pois todas as pessoas do mundo são filhos e filhas de Deus. Nesta concepção, vivem em harmonia entre si e com outras sociedades. Nada lhes falta, pois aprenderam a buscar primeiro o Reino de Deus e tudo o mais lhes é acrescentado (Mt 6.33).
Ações Transformadoras por meio do Caminho Comunitário e Institucional
Embora “sociedade diaconal” seja ainda uma visão e não uma realidade, estamos a caminho para vir a ser. Se ainda estamos distantes é porque há muitas coisas profundamente erradas conosco e com nossa sociedade.
Contudo, várias ações diaconais transformaram realidades no passado, transformam no presente e transformarão no futuro. Há experiências, mesmo que em nível micro, de altruísmo e de relações de cooperação. Diaconia transformadora também consiste em reconhecer o que está bom e intervir apenas no que ainda precisa mudar. Esta atitude passa pelo reconhecimento de ações diaconais feitas por nossos irmãos e irmãs no passado.
Há na IECLB várias instituições diaconais que já contribuíram e estão contribuindo para essa transformação. Há muitos anos trabalho em uma dessas instituições, criada em 1970 na Paróquia do ABCD, Santo André - SP. Junto com a comunidade local e uma equipe multiprofissional, criamos um espaço educacional e terapêutico com as seguintes abordagens: Terapia Familiar, Psicopedagogia, Psicoterapia, Terapia Somática, Fitoterapia, Acupuntura e Quiropraxia. Nele exercitamos o ouvir atencioso, respeitoso e qualificado, além de intervir em situações de sofrimento que pedem mudanças.
Este é apenas um exemplo. Há muitas outras instituições diaconais e inúmeras iniciativas de diaconia comunitária, igualmente importantes para nossa sociedade.
O texto de Lucas 24.13-35, que inclui o lema do ano de 2015, é um dos textos que apresenta uma metodologia diaconal. Neste texto, quem está em ação é o Jesus ressurreto. Ele se aproxima, pergunta, ouve, caminha com os discípulos e repete verdades já anteriormente ensinadas. Embora os discípulos estivessem aflitos e achassem que tudo estava perdido, reconheceram a Jesus na ação de partir o pão. Perceberam que Ele havia vencido e triunfado sobre o sofrimento, a morte e o mal. O texto nos ensina que Ele vive e caminha conosco quer o percebamos ou não e que todas as injustiças e sofrimentos são vencíveis, se enfrentadas a partir da comunhão com Ele. O hino 107 do HPD nos lembra que “só com Jesus em comunhão constante podemos sempre triunfar”.
Portanto, é a comunhão com Ele que nos capacita para exercer e comunicar, de forma coerente e autêntica, diaconia transformadora.
Ações Transformadoras por meio do Caminho Individual e Familiar
Deixar Jesus se aproximar, andar conosco pelo caminho da vida e ficar em comunhão com Ele também nos leva a percepção do meio ambiente interno. Os discípulos perceberam que seus corações ardiam enquanto o ouviam pelo caminho. E nós? O que percebemos em Sua companhia quando ouvimos a palavra, oramos e meditamos? Não é ela reveladora da verdade sobre nosso interior?
Durante anos eu achava que a sociedade e outras pessoas tinham que mudar, menos eu. Esse tipo de pensamento ainda é comum. Em geral somos mais tolerantes com os nossos próprios erros do que com os erros dos outros. Na instituição diaconal em que trabalho, famílias costumam trazer as pessoas consideradas “problemáticas”, geralmente crianças e adolescentes, para terapia. Aos poucos percebem que elas próprias também necessitam de transformação. Certa vez, pai e filho em conflito foram atendidos separadamente por algum tempo. No final do processo terapêutico, o pai veio agradecer pela mudança do filho. Porém, sem um saber do outro, o filho também agradeceu pela mudança do pai. Isso demonstra como é difícil olhar para dentro de si e reconhecer a necessidade de mudanças internas, as quais se refletirão no ambiente externo.
Gandhi, embora hindu, seguiu princípios cristãos. Amou, como poucos, a seus inimigos e conseguiu muitas transformações pela não-violência. Dizia ele: “Devemos ser a mudança que queremos no mundo”. Porém, o que é necessário para nos tornarmos a mudança que queremos no mundo? Ir à igreja e ter uma rotina espiritual regular com estudo e oração? Meditar sobre as verdades bíblicas até fazerem parte de nosso repertório de conteúdo interno? Substituir as angústias e preocupações pelas verdades do amor de Deus, reveladas em Jesus Cristo, a exemplo dos discípulos a caminho de Emaús?
A Diaconia de Jesus é tão profundamente transformadora, que se, adotada por toda pessoa, por toda família, por comunidades, por instituições, por micro e macro ambientes, pode criar relações sociais totalmente novas, um paraíso terrestre, uma verdadeira “sociedade diaconal”.
Autora: Diac. Irma Schrammel
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24 de maio de 2015
Texto: João 4, 7-14
O tema neste domingo de Pentecostes é caminhada. Me lembra a história do camarada que disse que gostaria muito de fazer uma caminhada, mas quando lembra que é a pé, então desiste!
Pentecostes lembra caminhada. Vencer uma distancia usando os pés, as pernas, o corpo. Essa era a situação dos discípulos quando estavam trancados numa sala em Jerusalém. Lá fora o pessoal participava de uma festa, e eles lá dentro, com medo, paralisados pelo medo, sem coragem de caminhar para fora e encontrar-se com as pessoas.
Jesus já tinha dado o exemplo das caminhadas da fé. Conforme nosso texto da prédica, Jesus e seus discípulos caminhavam para a Galileia. No meio dessa caminhada estava um país inimigo, a Samaria, com quem os judeus não se davam e eram proibidos de falar.
- ele e seus discípulos estavam cansados e com fome e sede. Param a caminhada diante de um poço conhecido na história, o poço de Jacó que fica perto de uma cidade chamada Jope. Os discípulos vão para a cidade e Jesus fica ali, quando chega uma mulher, na hora sexta, ou seja, ao meio dia. Ela faz a sua caminhada rumo ao poço na hora mais quente do dia.
- e daí acontece algo inesperado: Jesus faz uma caminhada muito difícil. Mais difícil do que os quilômetros de distancia entre Judá e Galileia; mais difícil do que os caminhos áridos, quentes e perigosos que passava. Faz uma caminhada de 3 metros, que era a distancia entre ele e a mulher. Jesus se dirige a ela para conversar. Quanta coragem, quanta ousadia!
- para fazer esta caminhada, ele teve que romper com muitas leis, preconceitos, regras que impediam ele de fazer isso. Era rigorosamente proibido fazer o que Jesus fez; era perigoso fazer o que ele fez. Mas, assumiu todos os riscos e conversou com aquela mulher.
- iniciou um diálogo que deve ter continuidade aqui na nossa igreja, na nossa Comunidade, na nossa sociedade. Jesus limpou o caminho para que no diálogo jorrasse uma água que estava trancada, estava reprimida dentro dela.
Eu penso que quando Jesus pede que ela lhe dê água de beber, não está pensando na água do poço de Jacó. Mas, está pensando numa água que não precisa de balde para tirar, de uma água que jorra do interior da pessoa quando entra em contato com Jesus.
- que água é essa? Penso nos dons, nas qualidades, nas habilidades de cada pessoa. A mulher samaritana era uma pessoa amargurada por casamentos frustrados, seus dons não apareciam porque ela estava tapada por obstáculos que Jesus removeu quando conversou com ela;
- naquela cidade ela era mal vista, não era valorizada, não era reconhecida pelo que tinha no seu interior (pela sua água que não cessa de jorrar); ela mesma não acreditava mais que tinha algo para dar. Era só tristeza, frustração, decepção. Ela sobrevivia do jeito que dava, com o seu 6º marido, com quem nem era casada,
- seu coração estava cheio de bondade, de amor, de criatividade, mas tudo isso estava tapado pelos obstáculos da vida. Esses obstáculos que Jesus removeu quando conversou com ela e fez jorrar sua água interior. E ela se encheu de coragem e foi falar do que tinha aprendido e vivenciado no encontro com Jesus.
Nesta última semana, oramos pela unidade cristã. Nos propomos a remover os obstáculos entre as igrejas e fazer uma caminhada de um para o outro. Nem sempre essa caminhada é fácil.
- mas, ela é possível: isso Jesus mostrou na caminhada de 3 metros que ele fez até a mulher samaritana no poço.
- este é o Espírito que sopra em Pentecostes. Um espírito que soprou sobre os discípulos e os colocou a caminho das pessoas de quem se sentiam afastados, distantes. Um espírito que sopra em nós, em ti e em mim e nos faz ouvir Jesus pedindo um pouco de nossa água. Essa água que está no interior e que muitas vezes não sai por causa dos muitos obstáculos que a vida coloca.
- Hoje, mais uma vez Jesus nos toca com seu Espírito e lembra que temos água interior; valoriza essa água e pede que a coloquemos para fora, para que a gente enxergue o valor que tem e que as outras pessoas nos valorizem também. Amém.
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10 de maio de 2015
Texto: João 15, 9-17
No domingo passado e neste domingo, o tema principal do culto é o amor. Na semana passada abordei o amor em dois sentidos:
- um: que não nascemos sabendo amar, mas que precisamos ser amados primeiro para, então, poder amar também;
- dois: falando de histórias de amor intenso, que terminam em morte (como da ave e de Romeu e Julieta). E que a história de amor da cruz de Jesus Cristo não termina com morte e sim com ressurreição; por isso, somos parte dessa história, ela continua a acontecer na nossa vida, a partir da fé.
Hoje os pais, padrinhos e madrinhas da Sofia a trouxeram para que seja batizada, ou seja, para que seja introduzida na história de amor sem fim de Deus pela humanidade.
Quando dizemos que Deus é amor, que nos ama, ao mesmo tempo dizemos que amamos a Deus e ao próximo. Em dois sentidos o amor é uma via dupla: amor de alguém mim e de mim por esse alguém.
- vale para a relação de amizade – amor de um amigo, amor por um amigo;
- vale para a relação conjugal entre duas pessoas; são duas pessoas que se amam mutuamente, uma à outra;
- isto vale para a relação com Deus – amor de Deus, amor por Deus;
No entanto, na relação com Deus acontece algo diferente: o amor por Deus não se mostra no que fazemos por Deus, mas no que fazemos pelo próximo, pelo outro. Nas outras expressões de amor, há uma reciprocidade, ou seja, um “toma lá, dá cá”. Mas, quando falamos do amor de Deus, o foco muda, a direção do olhar muda, a pessoa a ser amada muda;
- não é nem preciso que o próximo me ame para que eu o ame! Basta me saber amado por Deus, então temos o amor “de” para então amar o outro, o amor “por” alguém, talvez até alguém que não conheço.
Nisto reside a grandeza da fé cristã. Esta via dupla, quando inclui, quando envolve Deus, acontece na relação com o outro, em especial, o pobre, o desprezado, o marginalizado, senão ela não acontece.
Um colega pastor da nossa Igreja escreveu: “o amor de que fala o texto [bíblico] não é um mero sentimento, mas é um comprometimento com o bem-estar da outra pessoa”. Vejam que simples, e que belo, que profundo é este pensamento: um compromisso com o bem-estar do outro.
Essa frase me lembrou uma história contada pelo arcebispo da igreja anglicana, na África do Sul, prêmio Nobel da paz em 1984, Desmond Tutu.
- Como vocês sabem, a África do Sul também teve uma Comissão da Verdade para trazer à luz as atrocidades cometidas pelas pessoas brancas contra as pessoas negras durante o Apartheid. Lá, se chamou Comissão da Verdade e Reconciliação.
Numa sessão, na corte de justiça, uma mulher negra sul-africana estava presente e ouvia o relato de um policial branco, de nome van der Broek. Ele falava de sua participação em assassinatos e torturas. Ele havia matado o filho de 18 anos daquela mulher. Juntamente com outros policiais, queimou o corpo do rapaz até reduzi-lo a cinzas.
- Ele contou, também, que 8 anos mais tarde, voltou à casa daquela família e pegou seu marido; forçou a mulher a presenciar todo o ato: amarrou o homem em uma pilha de lenha, jogou gasolina e ele foi consumido pelas chamas. A última coisa que ela ouviu do seu marido foi: perdoe-os.
Agora, a corte trazia van de Broek e outros para encararem seus atos na frente dos familiares e do sistema judiciário. E a comissão da verdade e reconciliação quis saber o que a mulher/mãe queria que fosse feito.
Ela disse: “Quero 3 coisas:
1 - Quero que o sr. Van de Broek me leve até o lugar onde meu filho foi queimado. Gostaria de pegar o pó daquele lugar para dar-lhe um sepultamento decente.
2 – o sr. Van de Broek me tirou toda a família, e eu ainda tenho muito amor para dar. Duas vezes por mês, gostaria que ele viesse ao gueto e passasse o dia comigo para que eu possa ser uma mãe para ele.
3 – gostaria que o sr. Van de Broek soubesse que ele é perdoado por Deus e que eu o perdoo também. Gostaria de abraça-lo agora para que ele saiba que meu perdão é real.”
Quando a mulher, já idosa, foi guiada até o lugar onde ele estava, van de Broek desmaiou.
Desmaiou diante de tanto amor; um amor que ele ainda não conhecia. Um amor que nestes dias tão carregados de ódio como vivemos no Brasil, temos que reaprender também. Temos que desmaiar diante do amor de Deus revelado em Jesus Cristo, para acordar para uma nova realidade de vida. Onde o ódio e a vingança dão lugar à consciência e, como foi dito acima, um compromisso com o bem-estar do outro. Amém.
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03 de maio de 2015
Texto: I João 4, 7-21
No ano de 1921 aconteceu um grande incêndio nas florestas do Himalaia. Muita gente olhava o fogo. Uma senhora perguntou a algumas pessoas que estavam com o olhar fixo em uma árvore: “Que é que vocês olham tão admirados?” Apontaram-lhe então um ninho de pássaros em uma árvore que queimava. Acima do ninho voava um pássaro adulto em grande aflição. Minutos depois o ninho começou a queimar. Todos disseram: “agora a mãe vai fugir!” Mas, pelo contrário, ela deu um último voo para baixo e, estendendo suas asas abertas sobre os três filhotes, baixou sobre o ninho. Em poucos minutos tudo terminou em cinzas. Então a mulher disse aos outros: “Não é de admirar um amor tão maravilhoso?”
Uma emocionante história de amor. Histórias de amor são conhecidas na história, principalmente na literatura; a mais conhecida de todas é a de Romeu e Julieta, criação do genial William Shakespeare. Uma coisa todas essas histórias têm em comum. Terminam com a morte.
Nós, na Igreja cristã também somos testemunhas e divulgadoras de uma impressionante história de amor. Não só de amor de uma pessoa por outra, de uma pessoa por sua família, ou seu grupo, mas de amor pela humanidade inteira, por todas as pessoas vivas, mortas e que ainda virão a viver. É a história da cruz de Jesus, com todos os ingredientes dramáticos de sofrimento, traição, abandono, mas com um ingrediente único: não termina na morte, mas introduz a ressurreição.
- nós não somos simples leitores, distantes deste drama, mas somos participantes dele.
Acho que esta é uma das maiores belezas da fé cristã, que a história de amor iniciada por Deus em Jesus Cristo nem termina com sua morte; vai acrescentando personagens e situações de vida pelos séculos afora.
- Nós somos personagens deste drama, desta história de amor. Somos introduzidas nesta história no Batismo e a vivemos no dia a dia, não só na Igreja, mas na família, na sociedade, no trabalho, onde andamos.
Nosso texto ainda esclarece algo muito importante: que a capacidade de amor não é inata. Não sabemos amar por natureza. Por mais linda que seja a natureza, por mais emocionantes sejam os exemplos de animais cuidando de filhotes e às vezes de adultos, isso não é amor: é instinto. Nós interpretamos como amor, mas não é; é instinto.
- só nos, seres humanos, temos a capacidade de amar, SE o experimentarmos primeiro. Quem só experimenta ódio, rejeição, crítica, exclusão, irá reagir assim na vida. Pode até ser tocado pelo amor, mas tem tanta coisa a abafar, que ele não transparece;
- o que nos capacita para o amor e sentir-se amada primeiro, é perceber-se amado, para então poder passar isso adiante. É perceber nas atitudes das outras pessoas aquilo que também já está dentro de si e que precisa crescer, florescer, ampliar sem limites e sem fim...
- De onde virá? Só pode vir de uma fonte; a fonte do amor que é o próprio amor: Deus. Deus entra na vida da gente pelo Batismo e instala o amor. O que a gente faz com isso, depende de muitos fatores, mas ele está lá.
O famoso bispo Agostinho escreveu certa vez: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”.
Penso nessas coisas, o reformador Martin Luther desenvolveu a ideia do Deus absconditus: Deus escondido.
Diz que Deus, por ser Deus, muitas vezes aparece a nós de forma inesperada. Significa que compartilha o seu amor conosco em lugares estranhos e escondidos, como, por exemplo, numa estrebaria, onde apenas pessoas pobres conseguiam fazer daquele lugar um lar; ou num monte solitário, fora de Jerusalém, onde apenas criminosos encontravam seu fim. Nesses lugares surpreendentes Deus se mostra e nos encontra.
Também no meu e no teu coração Deus se revela de forma surpreendente, muitas vezes sem que a gente espere, e muitas vezes até sem que a gente perceba.
- por isso o desafio do texto é exatamente este: que a gente esteja atento para as revelações de Deus; que a gente saiba identificar o amor e agir de acordo com a fonte do amor que é Deus mesmo. Amém.
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26 de abril de 2015
Texto: João 10, 11-18
Na prédica de hoje tenho duas tarefas:
1. explicar o que não é o bom pastor;
2. explicar como se formou o conceito de bom pastor a partir de duas concepções de pastor: a. Deus é pastor; b. reis (tanto de Israel como de outros povos) é pastor.
- as duas imagens se encontram e combinam na imagem do Messias.
1. Tradicionalmente a figura do bom pastor é vinculada ao pastor de ovelhas dos tempos de Jesus. Um dos trabalhos mais desprezados e mal vistos e mal pagos da época.
- é comum ver-se quadros de um jovem carregando uma ovelha nas costas e no fundo um rebanho de ovelhas;
- MAS, esta não é a figura do bom pastor que Jesus tinha em mente quando falou as palavras do nosso texto.
2. O bom pastor do nosso texto é o Messias anunciado pelos profetas, esperado pelo povo:
- acreditava-se assim: Deus mesmo virá e será rei. Será Deus e rei ao mesmo tempo. Mas, como sabemos, isso era difícil (e continua sendo) de entender, por que a imagem de Deus que tinham era de um Deus distante, irado, que castiga os que fazem coisas erradas; e a imagem de rei que se tinha era de alguém que vivia às custas do povo em troca de proteção contra inimigos que o rei mesmo criava.
Por esta razão, quando Deus se torna rei, o povo não consegue reconhecer, não consegue identificar em Jesus de Nazaré a realização do anuncio, o cumprimento das esperanças de vinda do Messias.
a. o que impediu na época?
b. o que impede hoje?
c. como sair dessa enrascada e reconhecer o bom pastor?
- o bom pastor é o Messias, aquele Deus e rei que te leva a sério; que te ama por seres humano/a; que não coloca pré-requisitos; que aguarda uma relação tua bem pessoal com ele; que não espera que tu o elejas para este cargo, pois ele já te elegeu.
A área de atuação, portanto, não é a prefeitura, o governo do estado ou o palácio do Planalto; a área de atuação é um lugar bem mais difícil de dirigir e governar: o meu e o teu coração!
Jesus se apresenta e se revela como Deus e rei: não fomos nós que o elegemos para estes cargos, mas ele nos elegeu para sermos seu povo. O profeta Ezequiel escreveu sobre isso: “Eles serão o meu povo, eu serei o seu Deus. O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor”.
Podemos imaginar o impacto que Jesus deve ter causado nos seus ouvintes, pois em nada se assemelha com o que o povo esperava. Não foi o que o povo esperava, mas o que o povo precisava. Um homem simples, humilde, sem poder social, mas que dá a sua própria vida pela salvação do povo de Israel e pelos outros povos também.
- este poder vem da relação íntima com o Pai e com o Espírito Santo e se torna visível através da ressurreição; o poder revelado na ressurreição também cria uma relação íntima com o rebanho, ou seja, com cada um e cada uma de nós. Nos versículos 14 e 15 do nosso texto, a palavra “conhecer” aparece 4 vezes.
- isso nos mostra que o poder do bom pastor tem a ver com um relacionamento intensivo, pessoal, profundo entre pastor e rebanho, determinado pelo amor incondicional de Deus para com os seres humanos.
- importante: um amor que não termina quando a pessoa não se mostra digna dele; Deus ama até os inimigos, porque também eles são suas criaturas e pertencem ao rebanho do bom pastor.
Hoje vamos lembrar no culto, o momento da eleição: o Batismo.
- quando a gente vota, elege alguém para um cargo por um tempo;
- quando Deus vota, elege alguém para ovelha para a eternidade. Deus não rompe o vínculo que faz. Nós podemos oscilar na forma como cumprimos a missão para a qual fomos eleitos, mas a eleição não se anula. O bom pastor não me elegeu, nem te elegeu para mercenário; me elegeu e te elegeu para ovelha do seu rebanho. Não aquela ovelhinha dos quadros bonitos, mas uma ovelha que assume sua relação com o bom pastor com coragem e determinação. Que assim seja. Amém.
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12 de abril de 2015
Texto: Marcos 16, 12-18
Graça e paz da parte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Querida comunidade,
Hoje estamos no segundo domingo da Páscoa. A semana da paixão foi celebrada de diferentes maneiras em nossas Comunidades da IECLB. Na quinta-feira, nós tivemos a celebração do Ágape, em outras Comunidades teve lava-pés ou santa ceia; na sexta-feira Santa, algumas dramatizações, os paramentos pretos, a cruz com coroa de espinhos; no sábado, a fogueira pascal,...
E o domingo com muitas cores, alegria e aleluias! Vi muitas fotos de comunidades celebrando o domingo da Páscoa. Teve borboleta, girassol, árvore de páscoa com ovinhos pendurados, fitas coloridas,… Teve amendoim e casquinha de ovo. Mas, teve pipoca também? O que a pipoca teria a ver com o domingo da ressurreição?
Trago para vocês uma pequena história de Rubem Alves:
“Repentinamente, os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes transformavam-se em flores brancas e macias, que até as crianças podiam comer.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Na simbologia cristã, o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho da pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro”.
Mas como isso é difícil!!! Deixar de ser de um jeito para ser de outro... Estamos vendo isso no nosso país. Existem jeitos de ser e de fazer que estão tão arraigados na nossa cultura que precisará de muito fogo para mudar. Mas, não olhemos só para Brasília ou para a Petrobrás. Olhemos para dentro das nossas casas e para dentro de nós mesmo, perguntando por nossas durezas e mesmices. O que precisa ser mudado em nós? O que precisa deixar de ser de um jeito para ser de outro? Certamente o dedo que aponta para os outros aponta também para nós. Por isso, assim como a pipoca, precisamos nos deixar transformar.
Mas, quem nos transforma?
Vamos recorrer ao texto do Evangelho, texto base para a pregação de hoje: Jesus, o ressuscitado, aparece para Maria Madalena (v. anterior ao do texto previsto) que se alegra e conta sobre a ressurreição aos discípulos que estavam tristes, mas eles a ignoram. A alegria não consegue contagiá-los e não se deixam tocar pela notícia.
Jesus aparece então para os 2 discípulos que iam caminhando pelo campo, eles contam aos 11 e esses não acreditam. Aí Jesus aparece aos 11, quando estão comendo, e os repreende por não terem fé e por não acreditarem nas palavras de seus amigos, pessoas que conheciam bem, mas não acreditaram neles. Os discípulos não creem na ressurreição e não acreditam nos amigos/as!!!
Aqueles onze discípulos estavam tomados de tristeza e luto, vivendo como mortos, aflitos e chorando. Viviam a não-vida por não acreditar em nada além da tristeza do presente. Não conseguiam ver além da mesmice e da dureza que os cercava. Eram como milho de pipoca. Por não confiar em Cristo e em sua ressurreição também não participavam da alegria que ela traz.
Mas Jesus sabia que transformar essa situação cabia a ele. Precisava ser sua iniciativa. Assim, apresenta-se aos 11, ainda que os repreendendo, e os anima para serem os mensageiros da boa nova. Jesus diz: “Vão e batizem!”
A partir da iniciativa de Jesus, de falar com os discípulos e de enviá-los, a realidade da ressurreição tomou conta de suas vidas. Foram transformados e se colocaram em movimento.
O milho virou pipoca! O milho da pipoca se transforma a partir do calor, estoura e provoca movimento. Dureza e mesmice são transformadas.
A ação de Deus em nós hoje também transforma. Nossa dureza e nossa mesmice, nosso jeito que precisa ser mudado, são transformados pela palavra de Deus e pelos sacramentos. Palavra e sacramento nos permitem viver a ressurreição no dia a dia.
Hoje temos o batismo de uma criança no culto. Testemunhamos a ação transformadora de Deus na vida do Max e de sua família. No batismo, que é iniciativa de Deus, Deus nos toca, nos aquece/esquenta, e desperta em nós a fé. Deus nos inclui na realidade da ressurreição. Deus diz que é possível deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Quem crer e for batizado será salvo”, nos diz o v. 16. O batismo é uma ação transformadora de Deus em nós, e acontece em comunidade. E a vida em comunidade é o lugar da manifestação do Ressuscitado.
Muitas vezes não entendemos que a fé é comunitária. Queremos seguir por caminhos isolados, evitando a vivência e o envolvimento na comunidade. Porém, fazemos parte do Corpo de Cristo e isto indica a total interdependência de todos os membros. Existimos na comunidade para o outro, e o crescimento na fé acontece de forma comunitária. A criança a que foi hoje batizada entenderá a ação transformadora de Deus em sua vida à medida em que for ensinada e introduzida na vida comunitária. Isolado, bastando-se a si mesmo, não conseguirá vencer a dureza de coração e a mesmice do dia a dia.
O mesmo vale para cada um/a de nós. A ressurreição afeta nossa vida se cremos nela, e só cremos se nos deixamos questionar, desafiar, esquentar e transformar pelo Evangelho e pelos sacramentos, em comunidade.
Ser discípulo e discípula de Jesus é deixar-se transformar e ajudar na transformação de outras pessoas. É saber-se embalado pela fé na ressurreição, na vida transformada, na vida que vence a morte. É vencer todo dia a incredulidade, a dureza de coração; é crer nos amigos que nos falam da ressurreição.
Quem experimentou a presença do Ressuscitado, quem vive diariamente seu Batismo, anuncia, em palavras e ações, essa experiência transformadora a todo o mundo.
O Ressuscitado revela-se em nosso caminhar comunitário, solidário, de amizade que confia. Ele revela-se hoje e aqui na pregação da Palavra e no sacramento. Que o nosso coração se aqueça, se transforme e fortaleça no testemunho. Amém.
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05 de abril de 2015
Texto: I Coríntios 11, 1-11
Prezada Comunidade!
Para nós, a Páscoa é um dia muito especial. Mas, para muitas pessoas por este mundo afora, inclusive pessoas batizadas, este é um dia de lamentação: lamentam que o feriadão terminou: agora é trânsito e trabalho no dia seguinte.
Para nós, que estamos no culto nessa manhã, a Páscoa tem sentidos e significados diferentes. Nem todos pensamos do mesmo jeito a respeito da Páscoa: tanto do que aconteceu, como do que significa para a vida.
Não acho que isso seja negativo. O que a ressurreição de Jesus Cristo fez para o mundo, para a história do mundo, não cabe numa só definição ou compreensão. Não existe, portanto, uma que seja a certa, a melhor, aquela que todos devem seguir. Nem a soma de todas as definições e compreensões é suficiente para dizer tudo que a Páscoa significa.
- só importa uma coisa: que a gente seja coerente; que a gente viva de acordo com aquela explicação que aprendeu, que guardou na memória e que acha bonita e significativa.
A origem da pregação sobre a Páscoa está no nosso texto bíblico. O que o apóstolo Paulo escreveu para a Comunidade de Corinto é o mais antigo e extenso relato da ressurreição de Jesus. Ainda não havia a festa da Páscoa para os cristãos, mas o apóstolo Paulo coloca como centro da fé cristã o que aconteceu naqueles dias: morte, sepultamento e ressurreição de Jesus.
Paulo salienta que Jesus apareceu para pessoas. Como hoje ainda acontece, já desde o início, a mensagem da ressurreição foi tendo ênfases, versões e interpretações pessoais. Pedro entendeu de um jeito, na verdade, cada um dos doze discípulos certamente também entendeu um pouco diferente um do outro; os 500 do v. 5 também foram tocados cada qual do seu jeito, pela mensagem da ressurreição de Jesus dentre os mortos.
- não se tratou de morte aparente (Scheintod), não se trata que o corpo tivesse sido roubado. Algo novo aconteceu: uma pessoa ressuscitou. O que é isso? Nunca tinha acontecido. Não era o mesmo que tinha acontecido com Lázaro, que ficou velho, morreu de novo, foi sepultado e ficou lá.
Por ser algo tão extraordinário e pessoal, o próprio apóstolo Paulo não está falando da festa da Páscoa para a Comunidade de Corinto, mas de sua história pessoal, de sua relação com a Comunidade e de como tudo isso foi marcado, determinado pela ressurreição de Jesus Cristo.
Portanto, prestem bem atenção: naquilo que Paulo diz à comunidade está o segredo de nossa fé. Não uma formulação pronta, que todos devem seguir, mas um pouco de história; de história pessoal; de como a ressurreição o atingiu; e de como atinge a cada um/a de nós!
Paulo havia chegado a Corinto pela primeira vez em torno do ano 50 d.C. Ele se hospeda na casa de um casal de judeus, Áquila e Priscila, que tinham vindo de Roma. Permanece na comunidade por quase dois anos. Tempo suficiente para estabelecer um forte vínculo com as pessoas da comunidade. Mas, ao longo deste tempo, Paulo também passa a enfrentar uma forte oposição a sua atividade missionária, especialmente por parte de judeus que haviam se convertido. Inclusive precisa recorrer à proteção da autoridade romana (At 18.9).
Então, Paulo sente necessidade de se defender. Ao olharmos o texto mais de perto, percebemos que Paulo organiza sua defesa da seguinte forma:
Primeiro, lembra a comunidade de sua pregação. Ela não consiste em alguma doutrina, ideias vagas ou palavras bonitas e convincentes. Ele transmite o que também recebeu. Mas o que ele recebeu?
O que ele recebeu foi uma notícia boa. Esta ele passa adiante. E, na boa notícia anunciada aos coríntios está o cerne da fé cristã recebida e transmitida por Paulo. Este fundamento consiste na seguinte afirmação: que Cristo morreu e ressuscitou. Primeiro fala que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras (v.3); foi uma morte vicária, ou seja, “no lugar de”. Foi no lugar de mim que ele morreu. Isto é libertador, mas tem consequências.
- é libertador, porque me tira das costas a necessidade de eu morrer por causa dos meus pecados; tem consequências, porque esta liberdade não é irresponsável, mas me dá a responsabilidade de agir de forma libertadora no mundo em que vivo.
- assim como o poder da morte tem fim com a ressurreição de Jesus, assim também o poder da mentira, da violência, da corrupção, do roubo... perdem seu poder absoluto sobre nós, seres humanos.
Mas, estes poderes ainda estão ativos. Às vezes parecem mais forte hoje do que no passado. No entanto, não são mais invencíveis (inderrotáveis); podem, sim, ser derrotados, seu poder não é mais infinito como muitos pensavam na época e creio que muitos ainda pensam hoje. Mas, é nosso compromisso, é nossa responsabilidade mudar o mundo....
Cada qual com seu dom, cada pessoa com o seu jeito, com a forma como aceitou a mensagem da morte e ressurreição de Jesus; pois os dons e os jeitos também são muitos, e nenhum é o mais certo, ou é o único a ser usado. Como eu disse acima: importa se coerente – agir de acordo com a consciência.
E é aqui, na Comunidade, que podemos fortalecer nossos dons, somar nossos jeitos, somar nossos sonhos para que os sinais da ressurreição sejam sempre mais fortes neste mundo e que sempre mais pessoas sejam tomadas por esta esperança de que a morte não tem a última palavra, tanto quanto os sinais da morte ainda presentes não a tem.
Para isso é necessário que a gente converse mais, troque mais ideias, experiências, convicções, planos e projetos. O cafezinho, depois do culto, é uma boa oportunidade para isso. Mas, desde já, daqui do culto, é bom que a gente sinta o poder que a soma de todas as visões pode provocar; o poder que pode transformar pessoas e criar um mundo mais “Páscoa”, “mais boa notícia”, mais “vida que supera a morte”. Amém.
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29 de março de 2015
(ATENÇÃO: a prédica de 15 de março está abaixo desta do dia 29).
(Texto: Marcos 11, 1-11): Mateus e Lucas mostram a entrada de Jesus diretamente ligada ao templo. Entra e vai para o templo, onde expulsa os mercadores. Para Marcos, o cortejo se dá fora da cidade e Jesus entra na cidade, tem contato com as pessoas, suas casas, seu modo de vida.
- Jesus entra para conversar, para conhecer, para perguntar, para questionar, para apoiar e fortalecer; coisas que de fora não se consegue fazer; de fora só se consegue ter uma ideia, uma opinião, um conceito, normalmente um preconceito;
- mas, quando ele entra, interage, não sai como entrou e não deixa as pessoas como estavam antes de sua entrada;
- é de perguntar se Jesus entra na tua casa, o que encontra? Ontem alguém me perguntou: se uma criança entra na Casa Mateus ou no Centro Social, encontra um lugar fundado e mantido por causa da fé em Jesus Cristo?
- e, quando entra na tua vida, no teu coração, o que ele vai encontrar? Vai te encontrar olhando BBB, as notícias mentirosas da Globo ou suas novelas boladas para vender os produtos dos patrocinadores, um jeitinho de passar o Leão para trás, uma conversa maldosa sobre um vizinho ou parente? O que vai encontrar?
Quando Jesus entrou em Jerusalém encontrou tudo isso (do jeito que era no seu tempo – graças a Deus não existia a rede globo na época!); encontrou pessoas cheias de esperanças, de sonhos, de desejos; entrou na cidade e entrou na vida de cada uma delas, marcou a vida daquelas pessoas; elas nunca mais foram as mesmas depois do encontro com Jesus.
- Diga-se de passagem, também as pessoas que o rejeitaram não ficaram as mesmas. Pensavam que estavam fazendo a coisa certa ao rejeitar Jesus e de pedir a sua morte na sexta-feira, quando tiveram a chance, quando foram para as ruas gritando: crucifica-o!!!
E a pergunta que eu me faço e faço para vocês: que importância tem a entrada de Jesus na tua cidade, na tua vida, no teu coração? É só uma visita formal, passageira, sem consequências, ou acontece algo?
Chama a atenção que, conforme o nosso relato de Marcos, o povo clama “Hosana” quando Jesus ainda está fora do muro da cidade; daí tem festa, tem burburinho;
- mas, quando está dentro do muro, daí não tem barulho, não tem reações em massa, onde nem todos sabem exatamente o que estão fazendo.
- quando Jesus ultrapassa o muro e está dentro, então existe conversa; sem pressa, sem pressão, sem expressões jubilosas; simplesmente existe contato humano/divino. O texto diz que foi ao templo e olhou tudo em redor;
- talvez tenha ficado impressionado com os muros do templo e como algumas pessoas entravam e outras não; que as mulheres só podiam entrar até um certo ponto, adiante, só os homens, que os interesses de alguns era espiritual, mas de outros comercial
- assim também Jesus entra na minha, na tua cidade, para que tu possas entrar no seu templo;
- o seu templo não exclui ninguém, abre espaços para que todas as pessoas entrem no seu templo, que se sintam em casa lá dentro, que se sintam acolhidas, amadas, respeitadas, libertas de todas as cargas de culpas, de todas as dores e amarras que a vida provê.
- no seu templo encontramos uma segurança que rompe toda insegurança humana; a segurança do seu templo não está baseada em poder de armas, de gritos ou de dinheiro, mas no poder do amor, da justiça, da liberdade.
Que nosso bom Deus continue ingressando no muro de nossa existência e continue gerando segurança para abrir a mente e o coração e assumir um papel na proclamação do seu templo no mundo, no contexto em que vivemos. Amém.
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15 de março de 2015
Autor: estudante Paulo Sérgio Macedo dos Santos
Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós. Amém!
Estimada Comunidade!
Estamos no tempo da quaresma. Na verdade, quase no final deste tempo litúrgico. Este é o ultimo Domingo da Quaresma, próximo domingo é Domingo de Ramos, quando inicia a Semana Santa. A Quaresma, conhecida também como tempo da Paixão de Cristo, não quer ser erroneamente compreendida como um tempo de sacrifícios, onde se faz necessário abrir mão de algumas coisas, mas quer ser compreendida como uma oportunidade, um tempo oportuno onde, através do silêncio, do recuo e da reflexão, as pessoas possam observar sua própria vida, fazer uma avaliação, traçar um novo rumo e recomeçar de um jeito diferente e muito melhor, sendo a motivação maior para este recomeço o acontecimento do Domingo de Páscoa.
As duas leituras de hoje, a de Jeremias e o Evangelho de João apontam para a necessidade do recomeço. Em Jeremias ouvimos Deus dizer que haverá uma nova aliança; não mais como aquela antiga, que foi quebrada, mas uma aliança onde todos conhecerão Deus sem que alguém precise ensinar isso; sem falar nos pecados que serão perdoados e nunca mais serão lembrados.
O texto do evangelho de João inicia contando que estavam em Jerusalém, para a grande Festa da Páscoa, alguns gregos, chamados também de não judeus. E estes gregos se aproximaram de Felipe, que é um nome de origem grega, e disseram que queriam ver Jesus. Felipe falou com André, nomes de origem grega, e os dois foram falar com Jesus sobre a intenção dos gregos.
Muito provavelmente eram gregos não prosélitos, não convertidos ao judaísmo, e ainda assim, tinham OUVIDO falar e queriam FALAR com Cristo!
A mensagem de Cristo havia extrapolado as fronteira de Israel. O mundo já ouvira falar de Cristo. Os Gregos assim como os romanos tinham uma ideia de Rei e de Senhor, de KÝRIOS, diferente da mensagem de Cristo. O poder nestas culturas era representado pela ostentação, de poder humano. A cultura do clientelismo ainda está presente nestes dois. Procuram os apóstolos de mansinho para falar com Jesus.
O que Jesus responde?
No verso 24 ele revela sua natureza divina e diz, assim como cantamos anteriormente que se o grão não morrer, ele não se tornará pão. Está declarada a inversão, a subversão da logica do poder humano. O poder humano é confrontado pela subversão da lógica de Cristo. É necessário abandonar a vida das convenções e da “toma lá da cá” para ganhar a verdadeira vida. A ética cristã surge estarrecedora aos olhos do mundo que ouve Cristo. É necessário rever os conceitos.
A multidão presencia a epifania de Deus que afirma a presença Gloriosa de Cristo “Eu já revelei e revelarei de novo”. E Cristo afirma que a manifestação de Deus se deu pelo povo e não por Ele. Na sequencia ele reafirma que será levantado da terra, crucificado, para que se faça a vontade do pai.
Temos aqui a ruptura do modelo estabelecido anteriormente e a voz de Deus que afirma que este modelo não condiz e nem conduz ao seu reino.
Cristo não reproduz o modelo. Rene Girard afirma que “Jesus Cristo é o sacrifício suficiente e que na morte do inocente encerra a necessidade da vingança”.
A verdadeira mudança proposta por Cristo não isenta do sofrimento, da cruz. Ela não é destino da nossa fé, mas passaremos e passamos por esta em nossa vida. A cruz não é uma marca da vingança, ela não legitima o modelo do olho por olho, dente por dente. Ela subverte este modelo, ou como os teólogos gostam de falar: ressignifica.
O evangelho de João afirma o caráter universal da palavra de Cristo. Galileus, Judeus, gregos, samaritanos. Todos são chamados. Todos são chamados a romper com a opressão e o sacrifício e crer que a libertação vem do sacrifício suficiente da cruz.
A mensagem de Cristo é para o mundo todo, tem um caráter universal. Coloca nossos preconceitos em questão. Algumas traduções anunciam a perícope em questão como; “Alguns judeus não verão Jesus”. A tradução que lemos diz “Alguns não judeus vão ver Jesus”. As duas ideias são imperfeitas. Não gosto destes subtítulos, talvez a melhor expressão fosse: Todos poderão ver Jesus. Afinal a mensagem se destina a oikumene, ao mundo todo.
O compromisso que assumimos em Cristo deve ser de maneira integral, como um todo, combatendo o preconceito, a ignorância, o medo e a opressão. A cruz de Cristo não nos deixa apáticos. Ela exige ação e modificação de vida. Devemos, seguindo o modelo de Jesus: atrair as pessoas independentes de sua origem, etnia, ou pensamento divergente, não afasta-las.
Temos o habito de rotular as pessoas. Hans Christian Andersen mostrou isso de maneira exemplar. Nós como, na obra de Andersen, chamamos o cisne de pato e ainda auferimos a ele uma característica: Feio. O que para nós é diferente também é divergente e feio e essa não é a verdade proposta por Cristo.
Cristo em sua paixão e morte propõe que tomemos um novo olhar sobre a vida. A vida neste mundo, com seus penduricalhos de arrogância, preconceito, ostentação e desejo de vingança perde seu sentido na Cruz. A nova vida proposta por Cristo não se isenta do sofrimento, pelo contrario, mostra-o como componente da vida. E muitas vezes os percalços que passamos pela vida nos ensinam mais que os momentos de alegria.
Estamos preparados para isso?
Romper com a vingança, com o preconceito, com a opressão e atrair as pessoas, por mais diferentes de nós que possam ser, assim como aceitar que somos falíveis, e não isentos do sofrimento é uma das mais importantes mensagens da cruz.
Nestes tempos de intolerância, é central a necessidade de ao olharmos a cruz, rompermos com este modelo. De não pregar o ódio e a discriminação. De buscar o encontro.Os penduricalhos que acumulamos durante nossa vida não tem importância. Somos chamados e chamadas a buscar a essência, não o visível. Saber que o sofrimento nos transforma e nos questiona, e que o processo dolorido faz parte.
Somos frutos da Nova Aliança. Somos chamados a pregar não a Cruz como destino de nossas vidas, mas a ressurreição, a nova vida proposta e inaugurada por Cristo. Vida que compreende o diferente não como inimigo. Rompendo com a vingança através do sacrifício eficaz de Cristo somos chamados a propagar o mundo de respeito, tolerância e amor.
Amem
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18 de março de 2015 - Conferência ministerial Plena.
Jeremias 31,31-34: Farei uma aliança eterno e não mais recordarão de seus pecados
Salmo 50: Ó Deus, criai em mim um coração puro
Hebreus 5,7-9: Aprendeu a obedecer e se converteu em autor da salvação eterna
João 12,20-33: Se o grão do trigo cai na terra e morre, produz muito fruto.
20 Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. 21 Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: Senhor, quiséramos ver Jesus. 22 Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. 23 Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. 24 Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto. 25 Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. 26 Se alguém me quer servir, siga-me; e, onde eu estiver, estará ali também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. 27 Presentemente, a minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora. 28 Pai, glorifica o teu nome! Nisto veio do céu uma voz: Já o glorifiquei e tornarei a glorificá-lo. 29 Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: Um anjo falou-lhe. 30 Jesus disse: Essa voz não veio por mim, mas sim por vossa causa. 31 Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. 32 E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim. 33 Dizia, porém, isto, significando de que morte havia de morrer.
Estimada Comunidade:
Que a graça de nosso Senhor, Jesus Cristo, o amor de Deus Pai-Mae e a comunhão do Espirito Santo estejam no meio de nós e inspirem nosso falar e nosso ouvir. Amém.
Antes de comentar o Evangelho de Joao, gostaria de compartilhar alguns pequenos comentários sobre os textos da leitura:
No meio da aflição que se sente ao ver Jerusalém destruída e por ver o povo dividido entre os que ficaram e os que foram deportados, ouve-se as palavras do profeta Jeremias como um canto ao perdão e à esperança. Com razão alguns exegetas chamam estes capítulos de Jeremias de “livro da consolação”. Deus quer começar de novo com seu povo, propondo selar uma “nova aliança”, que gere relações novas entre Deus e seu povo. Que tipo de aliança: Uma que já não está escrita em tabuas, mas no próprio coração das pessoas. Deus deixa claro que não é a simples lei, por si mesma, mas seu espírito, o que nos aproxima de Deus. Quando se tem Deus “no coração”, a lei se humaniza, perde o sentido de absoluto, é aceita a partir do coração, sem legalismos, com sinceridade, e ao ser humano passa a fazer parte do povo de Deus.
A carta aos hebreus destaca as atitudes de Jesus no cumprimento da vontade do Pai. A passagem recorda a cena do horto das Oliveiras, quando Jesus ora ao Pai ante a possibilidade de ser libertado da morte. A oração teve como efeito fortalecer Jesus para levar a termo sua missão e não poupá-lo da realização de sua missão. Os cristãos temos muito que aprender neste sentido, pois a maioria das vezes nossas palavras, mais que orações ou suplicas, parecem “ordens dadas a Deus para que nos faça sua vontade”.
O Evangelho de Joao nos relata que a poucos dias atrás, Jesus havia ressuscitado a Lázaro. A multidão não falava de outra coisa. Nesse contexto, ouvimos que no meio da caravana dos que vêm a Jerusalém para a festa pascal aparecem alguns gregos que aproveitam para pedir a Felipe: “Gostaríamos de ver Jesus”. O fato de que sejam gregos os que buscam a Jesus certamente quer ser um símbolo da universalidade do evangelho. Mesmo sem ter Facebook, Twitter ou Wahtsapp, a popularidade de Jesus ultrapassou as fronteiras. A ocasião é aproveitada para anunciar que o tempo das palavras e dos sinais e dos milagres está chegando ao fim, pois se aproxima “a hora” do “sinal” maior: sua paixão e morte de cruz. Jesus expressa publicamente a sua dificuldade com assumir essa hora. Não é algo fácil aceitar que em poucos dias, toda a euforia popular será substuida por um ódio coletivo das massas gritando “Crucifica-o”. Mesmo assim, Jesus deixa claro que pedir para que Deus o livre do Calvario, seria o mesmo que perder o sentido de sua vida. Pois sua obediência deverá conduzir as pessoas para a glorificação de Deus.
Jesus então lança mão de uma breve parábola. Somente o grão de trigo que morre dá muito fruto. Ou seja, com essa parábola, ele nos coloca diante de um dos paradoxos típicos do evangelho: “perder” a vida por amor é a forma de “ganhar” a vida; morrer é a verdadeira maneira de viver, entregar a vida é a melhor forma de retê-la, doá-la é a melhor forma de recebe-la… Parecem dimensões ou realidades contraditórias perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, dar-receber.
Esse paradoxo entra em choque com a “natureza”, no mundo animal sobretudo, onde o principal instinto é o da auto conservação. Esse instinto de auto conservação centra o indivíduo sobre si mesmo. Por isso, os comentários tradicionais sobre essa parábola de Jesus dizem que o ser humano, diferente dos animais da natureza, se caracteriza por ser capaz de amar, por ser capaz de sair de si mesmo e entregar sua vida ou entregar-se a si mesmo por amor. Essa é a mensagem central do Evangelho e também de outras religiões. O amor, a solidariedade... o “descentramento” de si mesmo são a essência das religiões.
No entanto, o momento neoliberal que vivemos convenceu a muitos do contrario. A mensagem do pensar nos outros perdeu o folego nesse mundo dominado pelas redes sociais, pelo egoísmo e pelo narcisismo. Vemos por exemplo que na internet gente com nome e sobrenome reais – algumas até membros de nossas comunidades - são capazes de difundir ódio, ofensas, boatos, preconceitos, discriminação e incitação ao crime sem nenhum pudor ou cuidado com o efeito de suas palavras na destruição da reputação e da vida de pessoas também reais. A preocupação de magoar ou entristecer alguém, então, essa nem é levada em conta. Ao contrário, o cuidado que aparece é o de garantir que a pessoa atacada leia o que se escreveu sobre ela, o cuidado que se toma é o da certeza de ferir o outro
Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expresse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana. Foi Nelson Rodrigues que disse: “Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”. O que passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas a internet nos mostrou também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa.
A religiosidade indígena dos Andes diz que temos dentro de nós um lobo e um cordeiro. Da luta entre os dois, si vencedor aquele que nós alimentamos melhor.
De repente vimos que o ser humano tem um imenso potencial para o bem e para o mal, para o divino e para a barbárie. E para que isso fosse visível, o ser humano teve que sacrificar o pudor. Cada um passou a expressar em público ideias que até então eram confinadas dentro de casa ou mesmo dentro de si. E quem as expressava descobria, para seu júbilo, que havia vários outros que pensavam do mesmo jeito. Mesmo que esse pensamento fosse incitação ao crime, discriminação racial, homofobia, defesa de linchamento. Assim chamar uma mulher de “vagabunda” ou um negro de “macaco”, defender o “assassinato em massa de gays”, “exterminar esse bando de índios que só atrapalham” ou “acabar com a raça desses nordestinos safados” tudo isso não só era possível, como rendia público e aplausos. Pensamentos que antes rastejavam pelas sombras passaram a ganhar o palco e a amealhar seguidores.
Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Mas será que os rapazes de boa família que chegam a matar e a estuprar no trote, ou aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador e que defende o linchamento de homossexuais, ou então as campanhas políticas que se fazem em base ao ódio grupal são coisas de gente de baixo nível educacional e cultural?
Isso sem mencionar a barbárie do EI (que tem entre seus membros vários que saíram de Universidades na Europa)
De forma nenhuma estou dizendo que a internet ou os meios de comunicação são algo nocivo em si. Ao falar assim da internet busco saber como esse instrumento que é utilizado para o mal, poderia ser utilizado para o bem. Pois a internet é algo que realmente podemos chamar de revolucionário, porque ela transformou a nossa vida e o nosso modo de pensar e a forma como nos enxergamos. No entanto, o mesmo que a internet tem de sim-bólico, ela também tem de dia-bólico.
Cada dia vemos que se confirma a concepção antropológica luterana que diz que o ser humano é mau por natureza. Sem a graça de Deus, que nos salva pelo sacrifício de Jesus Cristo, realmente estamos perdidos. Não há nada dentro ou fora de nós que nos possa salvar. A salvação é obra exclusiva de Deus, porque o pecado original do ser humano é essa sua teimosia em querer ser o seu próprio deus e não deixar Deus ser Deus. Para Lutero, ai está a raiz de todo o mal.
A nossa realidade atual confusa e contraditória, também tem sido alimentada de maneira odiosa pelos meios de comunicação (Folha, Estadao, Globo, Revista Veja, etc..). Isso destruiu nas pessoas a capacidade de dialogar sobre os problemas, de maneira que amizades antigas se desfizeram, parentes brigaram e até amores foram abalados. No entanto, diante de tudo isso, Jesus, em sua parábola (e as leituras do profeta Jeremias e da Carta aos Hebreus) nos dizem que em meio a essa situação de confusão e de morte se encontra também a possibilidade de nova vida, - tal qual a semente que cai na terra. Como?
Me lembro aqui de uma leitura do jovem Karl Marx a seu amigo Arnold Ruge em 1845. Arnold havia perdido a esperança na humanidade e também a fé em Deus. Marx – prevendo que as contradições do capitalismo seriam o seu próprio fim, responde a seu amigo em uma das cartas dizendo: “a situação desesperada da época em que vivo aqui (na Alemanha) me enche de esperança”. Também o filósofo brasileiro - Mario Sergio Cortella - diz sobre os nossos dias “o que vivemos hoje no Brasil não e o auge da sujeira, mas o início da limpeza”.
A partir de tudo isso, penso o que eu como pastor deveria aprender desse texto e diante dessa realidade? E será que esse aprendizado também pode servir aos outr@s colegas?
Alguns desafios são os seguintes:
- As redes sociais são hoje um forte instrumento formação de opinião. No entanto, nós na IECLB a utilizamos quase que exclusivamente para manifestar nossas opiniões pessoais. Quais são as possibilidades das redes sociais para o trabalho pastoral? Nesse ano em que somos chamad@s a pensar a comunicação, deveríamos arriscar fazer encontros que vislumbrem possibilidades para a igreja nessa área?
- A propagação do ódio de classe e a polarização social em temas políticos, são o prato do dia nas redes sociais. Por causa da internet, os almoços de família e até os encontros comunitários ficaram cada vez mais constrangedores. Os ânimos se alteram com muita facilidade e muitas vezes não sabemos o que fazer. Essa situação nos desafia em nossa tarefa de agentes de conciliação de conflitos. E como essa é uma tarefa primordial no trabalho pastoral, poderíamos propor seminários, palestras, cursos com profissionais da área de resolução de conflitos em nossas comunidades? E quem saber deveríamos nós mesmos dedicar-nos a um curso com especialistas universitários e psicólogos sociais?
- A propaganda desenvolvimentista (do progresso) não coloca limite para o desenvolvimento humano. A ideologia neoliberal defende que nada é mais importante do que deixar o ser humano – o centro da criação - se desenvolver. Penso que nesse sentido também poderíamos contribuir com matérias didáticos e reflexões bíblicas que ajudem as pessoas a compreender a inter-relação na criação de Deus. A natureza tem limites e já estamos vendo que as consequências da violência ambiental tornam a vida humana bastante difícil, mesmo nas grandes cidades.
- Sabemos que a desigualdade é uma das principais causas da violência. A gritante diferença entre pobreza e riqueza é uma ameaça para a paz em nossas cidades. As Nações Unidas dizem que ganhar 1,25 dólares diários, qualifica uma pessoa na linha de pobreza. Se existe um limite para a pobreza, qual é o limite para a riqueza? Em nome da paz, da convivência humana e da segurança pública, não deveria também existir um limite para a riqueza? Como tratamos a questão da pobreza e da riqueza desde a perspectiva teológica? Como benção e infelicidade?
Certamente ainda há outros desafios que poderíamos evidenciar. O certo é que estamos vivendo um novo momento histórico, e o tema para este ano que enfoca a comunicação não é um acaso. Deus nos está direcionando para algo novo. Ele nos quer apontar para os sinais de vida, que apesar de tudo são possíveis.
Que Deus nos abençoe e nos ajude a entender o seu chamado.
Amem
Oração: Ó Deus, Pai e Mãe de todos, nós te pedimos que mantenhas nossa fé e nossa esperança, para que nos comprometamos em fazer crescer a vida, ainda que para isso devamos entregar nossa vida a cada dia e colocar-nos a disposição para um novo aprendizado. Que com isso possamos acelerar a chegada do teu Reino de Justiça, paz e solidariedade. Isto te pedimos em nome de Jesus Cristo. Amém.
P.Nilton Giese
Conferencia Plena de Ministr@s do Sinodo Sudeste
marco 17, 2015
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15 de março de 2015
Números 21, 4-9
Cobras são animais muito perigosos, ardilosos, quietas, as cobras se enfiam por qualquer buraco; imaginem no deserto, onde elas se criam muito bem e a gente morando em tendas de pano. Cobras botam medo!
- por esta razão, elas viraram símbolo de poder, não só para o povo de Israel, mas para todos os povos da terra que tiveram que lidar com este animal tão perigoso e tão difícil de a gente se proteger;
Vejam que na Bíblia, as cobras já aparecem logo no início: uma serpente coloca os seres humanos em tentação; no Egito, os magos do faraó transformam duas varas em cobras, para demonstrar o poder do faraó, como se dissesse para Moisés: eu não preciso obedecer o Deus de vocês - se até as cobras me obedecem, imaginem o poder que eu tenho!;
- nosso texto fala que mesmo Deus, lento em irar-se e longo em seu amor usou o poder da serpente para dar uma lição ao povo reclamão.
- ontem, como hoje, muitas pessoas não veem o que melhorou e focam só no que está ruim e não conseguem mais ter uma visão objetiva, sóbria da realidade. São ingratos e orgulhosos – dois tipos de veneno muito perigosos. E esse veneno tomou forma de veneno de cobra e assustou o povo, pois muitas pessoas estavam morrendo deste veneno.
- assim, as cobras do deserto, seguindo suas ancestrais bíblicas se tornam sinais do pecado humano e ao mesmo tempo da justiça de Deus;
- essas cobras lembram o povo de seu pecado, o mesmo que entrou na história de Adão e Eva: rebelião contra Deus e seus bons feitos.
O texto bíblico nos conta que o povo se converteu. Cada um/a fez um profundo exame de consciência; assim como eu peço que façamos no início de cada culto; reconheceu que tinham exagerado nas reclamações; olhou para trás, para a situação de escravidão no Egito e olhou para a frente, para onde a dura caminhada no deserto apontava: a terra prometida! Um lugar de paz, de construção, de refúgio, de descanso.
- Deus tinha prometido essa terra para Abraão, uns 400 anos atrás, e agora finalmente eles se dirigiam para lá. O custo desta viagem estava sendo alto, é verdade, mas eles entenderam que valia a pena.
Quando o povo para de pensar só de um jeito, de ver as coisas só de um jeito, então aquilo que era ameaça passa a ser elemento de cura. Olhar para a serpente no poste é superar o medo, superar o poder que a serpente representa, superar a maldade que está dentro dela, o veneno. Ajuda a ser mais forte do que o poder do mal.
- olhar fixamente; sem medo de suas ameaças de destruição e de morte. Martin Luther disse certa vez que o diabo é como um cachorro amarrado: só morde quem chega perto. Se a gente fica a uma boa distancia deste cachorro, encara de frente, ele não pode fazer nada; deixa de ter poder, fica mansinho em seu canto. E nós podemos seguir firmes nosso caminho, apesar de todas as pedras, buracos e dificuldades.
Nós podemos cantar a vitória. Mas, antes temos que encarar de frente. Na nossa Igreja da Ressurreição temos uma cruz vazia sobre o altar. Simboliza a vitória de Deus sobre as serpentes de todos os tempos. Mas, não devemos nunca esquecer o que custou para Jesus; a vitória significou muito sofrimento. Isto tem um significado maravilhoso para nós, que também passamos por sofrimentos, por dúvida, incertezas, dores, decepções, passamos por serpentes que nos ameaçam, ou que nos seduzem, como foi no caso de Adão e Eva, mas sedução que resulta em dor e morte.
- a cruz nos ajuda a enxergar essas duas coisas: 1. de fora vem a sedução da serpente que quer nos dominar; 2. de dentro vem o nosso próprio veneno, nossas próprias decisões cruéis, impiedosas,
Antes de encerrar quero salientar a importância de encarar as serpentes de frente. Deus podia ter dado um comando e as serpentes todas morreriam; Deus podia ter ensinado ao povo um método eficaz de matar as serpentes; mas, não faz nada disso: Deus quer que o povo olhe o mal de frente; que reconheça o mundo em que vive; não fugir para tempos passados (como alguns que tinham saudades dos tempos de escravidão no Egito); não se deixar iludir pelas seduções das serpentes;
- Deus faz com que, olhando para a serpente no poste, o povo reconheça seu orgulho e sua ingratidão; quando faz isso, vem a cura, vem a libertação; não só destas serpentes, mas de todas que aparecerem na caminhada da vida; a serpente no poste funcionava como um espelho que mostrava a serpente dentro de cada um, para descobrir suas próprias forças destrutivas; para reconhecer como havia agido mal e como poderia se converter e se libertar desta serpente interna.
Quaresma é tempo de reflexão. É tempo olhar fixamente para a feiura da cruz e perceber nela a própria feiura. E perceber que dali sai a beleza do perdão, da reconciliação, da cura; o Cristo crucificado tem poder para superar o poder do nosso veneno interior e para superar os venenos exteriores. Olhar de frente, focado, sem distrações, com confiança e fé. Ele quer que a gente viva. Dele vem uma vida com sentido. Amém.
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01 de março de 2015
Texto: Romanos 4, 13-25
Nesta semana circulou pelo Facebook uma famosa frase de Martin Luther que diz: “Deus cria a partir do nada. Portanto, enquanto o ser humano não for nada, Deus nada poderá fazer com ele”.
Esta frase está bem de acordo com a historia para as crianças que ouvimos no início do culto e com o texto do apóstolo Paulo que serve de base para a pregação neste domingo. Abraão seguia as leis de Deus, mas isso não significou que Deus cumpriu sua promessa de uma grande descendência.
Ele cumpria toda a lei, mas não tinha filhos. Como ter descendência sem filhos?
Sara, mulher de Abraão, queria dar um jeitinho brasileiro. Já que Deus não cumpria a promessa de grande descendência, Sara deu sua escrava Hagar para que Abraão tivesse filhos e assim garantisse a continuidade da família. Ou seja, queria que acontecesse a vontade de Deus do jeito humano. Mas, Deus não age assim. Deus não age pelos nossos jeitinhos, Deus não age pelas nossas obras, nem mesmo age por causa da obediência à lei (aos mandamentos e outras 600 leis da Torá...).
Quando oramos “seja feita a tua vontade”, isso é sério. Não podemos orar essas palavras e continuar querendo que na verdade seja feita a nossa vontade, do nosso jeito.
Deus começa a agir em nós quando somos nada por nós mesmos; quando abrimos mão das nossas vaidades e egoísmos. (Em primeiro lugar, quando nos damos conta que temos vaidades e egoísmos. Este é o grande desafio da nossa Comunidade, pois somos pessoas boas, honestas, justas, não desobedecemos os mandamentos...; por que, então, temos que confessar pecados e pedir perdão; por que temos que prometer de mudar e de alterar o rumo da vida?). Porque esse seguir a lei, cumprir os mandamentos, nos deixa cegos para muitas coisas; nos torna pessoas acomodadas e satisfeitas com nossas verdades – que nem sempre são verdades verdadeiras – razão pela qual eu tanto combato os meios de comunicação de massa no Brasil.
A maioria de vocês prefere acreditar em mentiras falsificadas de verdade, porque não querem olhar o outro lado, estão satisfeitos com essas verdades/mentiras, não querem descobrir que existem outras formas de entender os eventos, de compreender a realidade, que não aquela divulgada pela rádio, TV e pelos jornais e revistas.
Abraão também teve que crer contra toda esperança, teve que abrir mão de uma verdade inquestionável: “Sara não pode ter filhos”, verdade que se mostrou uma mentira quando ele creu na promessa de Deus.
Começamos a perceber a ação de Deus em nós quando descobrimos que o nada abriu espaço para a fé. E a fé acolhe a promessa. (No Batismo recebemos uma promessa: “quem crer e for batizado será salvo”; na Santa Ceia recebemos uma promessa: “dado em favor de vocês para a remissão dos pecados”).
Por isso, um colega afirmou certa vez: “Fé acontece quando perdemos a ilusão de que controlamos nossa vida”. Ou seja, quando vivemos da promessa assim como Isaque é filho da promessa.
Encerro com palavra do mesmo colega já citado acima:
“Que aprendamos cada vez mais a fazer o exercício de nos lançar aos braços do Pai na Ceia do Senhor. Quando não temos controle de mais nada, quando o fogo e a fumaça obscurecem toda a visão é preciso confiar mais ainda na visão do Pai” que não esquece as suas promessas, nos revela a verdade e conforta em nossas fraquezas. Que Deus nos ajude! Amém!
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22 de fevereiro de 2015
Texto: Marcos 1, 9-15
A consciência do pecado pode levar à autojustificação ou ao arrependimento.
Autojustificação é a tentativa de fazer algo para aliviar a culpa, ou para pagar pelo erro cometido;
Arrependimento pode ser confundido com um sentimento de remorso, mas que não leva necessariamente à mudança de atitude. Arrependimento não é apenas lamentar pelo que se fez de errado, mas uma mudança de direção.
Mudar para onde? Para que direção? Sobre estas perguntas podemos pensar um pouco melhor.
- quando Jesus disse: “vocês sabem o caminho para onde eu vou”, Tomé respondeu: não sabemos para onde vais, como saber o caminho? O caminho é o caminho de volta para Deus. Mas, o que significa isso? Como chegar a este caminho?
- quem de vocês já leu as 95 Teses de Martin Luther que deram origem ao movimento da Reforma (do século XVI e não XV)? Imagino que a maioria nunca leu. Mas, se não quiserem ler todas, leiam apenas a primeira: “Ao dizer: Fazei penitência, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”.
- toda nossa vida deve ser de penitência, ou seja, do caminho de volta para Deus. Penitência não é fazer algo de bom, não é dar uma esmola, mas escolher o caminho de volta para Deus.
- seguindo os passos de Martin Luther, o caminho de volta para Deus é o caminho de volta para o Batismo. Não podemos caminhar na vida como se não tivéssemos sido batizados; como se o Batismo fosse um rito do passado, do qual só lembramos por fotografias, pelos presentes dos padrinhos/madrinhas e, eventualmente, pela Certidão de Batismo.
Só assim podemos entender o que significa voltar para Deus. É assim: no Batismo, Deus oferece o perdão dos pecados.
- o caminho de volta ao batismo é simplesmente admitir mais uma vez que somos pecadores: que em pensamento, palavra e ação nós realmente “pisamos na bola”;
- mas é admitir isso, sabendo que Deus já nos perdoou;
- que quando confessarmos os nossos pecados , seu perdão já está aí para nós.
- "Cristo", diz Luther: "não nos abandona quando pecamos, nem nos proíbe de voltar a ele, apesar de todas nossas traições".
- Arrepender-se como caminho de volta para o Batismo, é o caminho para para o estado de ser perdoado livremente e completamente por Deus.
E no Batismo, Deus nos torna seus próprios filhos. Então voltar ao Batismo significa lembrar o que somos de verdade; é lembrar que fomos marcados com o sinal da cruz, e que nós pertencemos a Cristo, corpo e alma, para toda a vida e também na morte; é lembrar que nada pode nos separar do seu amor, pois somos dele.
E no Batismo, Deus aniquila a velha pessoa dentro de nós, com todos os nossos pecados e maus desejos. Luther, em sua maneira colorida, diz que a velha pessoa, o velho Adão, é jogado para fora do barco da nossa vida e se afogou.
O único problema é que ele é um maldito bom nadador, e ele continua tentando subir de volta. Então voltamos para o Batismo, e Deus mais uma vez joga-o para fora!
Trata-se de um exercício diário e interminável. Por isso, eexistem igrejas que colocam a pia batismal logo na porta de entrada. Podemos entender esse simbolismo como entrada para a família de Deus. O batismo é a porta de entrada para essa família.
- Mas, outra forma de entender é que a vida de fé é uma vida com muitos retornos a Deus. Entramos na igreja e, ao passar pela pia, somos lembrados/as que estamos retornando. Somos lembrados/as que somos perdoados, pertencemos a Cristo e que a nossa vida pode ter novos rumos.
E, quando saímos para o mundo, passamos pela pia e somos lembrados/as que também lá fora a promessa do batismo é válida. Também lá fora Cristo está conosco nas decisões difíceis da nossa vida. Arrepender-se e mudar de vida pode começar aqui dentro, mas é lá fora que o caminho da mudança será trilhado. E, o fato de ter sido batizado/a de pertencer e de se saber amado é que nos mantém caminhando e retornando. Amém.
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15 de fevereiro de 2015
Texto: II Co 4, 3-6
Há algumas semanas eu publiquei no Face um quadrinho em que aparecia um político num palanque perguntando: - quem quer mudanças? E toda plateia levanta as mãos. No quadrinho seguinte ele pergunta: - quem quer mudar a si mesmo? Todos baixam a cabeça.
Este quadro mostra muito bem uma realidade humana que ultrapassa os tempos. Já no tempo de Jesus e do apóstolo Paulo as pessoas queriam mudanças, queriam VER as mudanças na sociedade, mas não queriam mudar a si mesmas, não queriam SER a mudança na sociedade.
O apóstolo Paulo tinha fundado a Comunidade na cidade de Corinto, na Grécia, em sua primeira viagem missionária (50/51 d.C.). Primeiro ele queria apenas converter os judeus que viviam em Corinto. Mas, poucos aderiram, então ele passou a pregar também para gregos e de outras nacionalidades, das muitas que existiam em Corinto. Corinto era uma cidade portuária, com mais de 250 mil habitantes. Alguns falam até em 500 mil habitantes.
- sabe-se que os membros eram bem pobres. Alguns pensaram que aderindo ao cristianismo teriam ascensão social, o que não aconteceu e os deixou decepcionados e intrigueiros. Começam aquelas correntes, puxa para cá, empurra para lá, todo mundo querendo ser o dono da verdade, querendo impor sua vontade, seu jeito de entender as coisas. Que coisas? Desde o que é a fé em Jesus Cristo, até a relação com as outras religiões e com o poder do imperador.
Paulo é duro com estes intrigueiros. Diz que eles não enxergam a luz deste mundo porque o “deus” deste mundo “conservou a mente deles na escuridão”.
A fé em Jesus Cristo tira da escuridão e liberta a pessoa.
Para o apóstolo Paulo, a pessoa na escuridão é rígida, pensa sempre do mesmo jeito, pensa que sempre está certa e que quem não concorda está errado, está na escuridão!
Se a gente puxa isso para os dias de hoje, posso identificar muitas pessoas assim. Pessoas que só têm uma visão das coisas, tanto da fé, quanto da sociedade, do que está acontecendo no nosso Brasil. Acreditam piamente no que ouvem na TV e não admitem outra verdade, outra versão dos fatos, outra possibilidade de entender o que está acontecendo. Ora, é claro que as coisas precisam mudar com relação à corrupção no governo, mas que quem mais bate nessa tecla é uma das redes de TV mais corruptas do mundo. Quando eles vão mudar? Eles são Deus para estarem certos sempre? Não sei quando eles vão mudar, mas eu preciso mudar logo e parar de acreditar neles...
Muitas pessoas dizem: mas, está tudo tão claro, será que o pastor não enxerga?
- o que está claro é o lado, o aspecto que é mostrado; esta não é toda a verdade; existem outros lados e estes nunca são mostrados.
Talvez alguns de vocês agora estejam pensando: o pastor é do PT; está defendendo o governo, a corrupção, o desvio, a mentira.
- e aí nós chegamos lá onde o apóstolo Paulo estava: enquadrando o pastor, qualquer pessoa pode condenar o pastor, pintar de vermelho, dizer que ele é conivente, mas eu não preciso mudar. O pastor tem que mudar, o governo tem que mudar, a sociedade tem que mudar, mas eu não! Não preciso e não vou mudar em nada.
Foi exatamente esta realidade que o apóstolo Paulo encontrou em Corinto. Cada um defendendo o seu; a tal ponto que o foco, o essencial que é Jesus Cristo, já tinha sido colocado de lado.
A vida da comunidade tinha se tornado uma briga de vaidades, de estrelismos, de verdades humanas, cada um pregando a si mesmo.
Mas a verdade principal não estava mais sendo seguida: que Jesus Cristo é o Senhor. Ele revela o Deus da verdade. O deus deste mundo, não quer que a gente enxergue a verdade. O deus que se revela na TV, nos noticiários, nos comentários; este deus não exige mudança pessoal, mas sempre te diz que o culpado é o outro, que quem tem que mudar o jeito de pensar e agir é o outro; este é o deus que esconde a luz e traz a escuridão.
Com o apóstolo Paulo, nós temos que voltar a focar em Jesus Cristo. Crer que ele é o Senhor e nós seus servos. Quem não quer ser servo, vai adorar um deus que realiza as suas vontades; “seja feita a minha vontade”, assim como eu penso, assim como eu quero; e não mais a “tua vontade”.
Para encerrar, lembro que esta mentalidade também estava presente nos discípulos. No domingo de hoje também lembramos da transfiguração, conforme a leitura do Evangelho. Também os discípulos queriam um deus que atende as suas vontades; um deus distante do povo e seus sofrimentos; um deus lá em cima do monte Tabor, sem compromissos, sem responsabilidades. Observando lá de cima como os outros estão errados, como os outros têm que mudar, mas sentados no conforto de suas verdades cômodas, egoístas e escuras.
Não é isso que eu quero para vocês. Como pastor e ministro da Palavra de Deus, tenho que fazer como o apóstolo Paulo: chamar atenção para o que é central: Jesus Cristo que revela um Deus cujas vontades nos foram reveladas como luz, que esclarece, liberta, alegra, engaja pelo bem do próximo. Não se deixem intimidar pelo pensamento dominante. Pensem a partir de Jesus Cristo. Amém.
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21 de dezembro de 2014.
2ª Samuel 7, 1-11 e Lucas 1, 26-38
O lecionário da nossa Igreja propõe confrontar duas historias:
- por um lado, David preocupado para construir um grande templo, isto é, um espaço externo para Deus. Quer realizar um grande projeto, generoso, que honre a Deus. Mas David, (como se misturam as intenções!), tem sonhos de grandeza. É um grande político.
- Ele quer competir com os sonhos colossais que outras nações levantaram para suas divindades. Mas Deus não quer una casa própria, feita de pedras, e sim prefere caminhar com seu povo. Através de Natan, Deus envia uma mensagem ao Rei: "Eu não pedi um templo, sempre andei em templos de campanha (barracas) com vocês, na intempérie também".
A segunda história é a de Maria. A historia de Maria é bem diferente. Não procura construir um espaço externo para Deus mas sim um espaço interno de escuta e acolhida. David está no meio do povo, no palácio; Maria não é conhecida por quase ninguém e está em um povoado de pouca importância para a época.
- Não tem outra bagagem para introduzir-se no projeto de Deus que sua fé decidida. Maria se deixa encontrar. No texto está ela dizendo "Aqui está a escrava do Senhor". Só pode dizer que é servo de Deus aquele que é verdadeiramente livre.
- Ela só sabia que Deus a tinha convocado; não sabia o que viria, nem tinha já entendido o que estava acontecendo com ela, mas sabia a quem estava respondendo. Vejam uma possível definição de fé: “Saber que Ele sabe”. Há uma relação de cumplicidade entre Deus e Maria mediatizada pelo anjo.
- Maria oferece a Deus o único espaço que Deus lhe pede: seu corpo, sua pessoa, todo seu ser. O templo espetacular que David queria era pequeno para ela. Somente um corpo humano de carne poderia conter toda gloria de Deus. Somente uma pequenez despojada poderia abraçar a gloria de Deus. O menor espaço, mas, mais consagrado é que poderia ser apto para hospedar o infinito.
- Deus encontrou uma casa para si no corpo de Maria. O corpo humano, a obra-prima de Deus; este é o lugar mais digno e formoso para que seja habitado pelo menino Jesus.
- Deus está em sua casa própria quando está em nossa casa.
Os textos nos convidam a contemplar a formosura do mistério que está diante de nós. O Filho infinito de Deus se tornou carne humana, se fez homem no seio de Maria,
- o divino se uniu com o humano de uma maneira chamativa e inesperada.
É interessante observar como o anjo anuncia a Jesus e prepara Maria para o "sim". A palavra do anjo é um convite a despertar em nós algumas atitudes básicas e necessárias para responder a Deus com um "sim", com a atitude de Maria tal como Deus o quer. O anjo disse: "alegra-te, o Senhor está contigo, não temas, achaste graça diante de Deus, cheia estás de graça, da graça de Deus".
Um convite para alegrar-se é a primeira coisa que Maria escuta de Deus. Em tempos de obscuridade e confusão como os que estamos vivendo, tempos de dificuldades, conflitos e incertezas, nós também somos convidados a não perder a alegria.
- Sem esta alegria a vida se faz mais dura e difícil. "Deus ama quem dá com alegria": em muitas Igrejas, as ofertas são coletadas em envelopes com estas palavras!
- A alegria não pode ser forçada ou obrigada, mas surge do ser interior como um dom do espírito de Deus.
"Tu és cheia de graça". Não só Maria é cheia de graça e sim toda pessoa que diz "sim" ao “sim” Deus como Maria.
- Deus não é uma receita infalível para resolver os problemas diários, mas tudo se torna diferente quando buscamos nele a luz e o refugio para caminhar pela vida cumprindo Sua vontade.
- O "Sim" de Maria mudou a sua história de vida e fez da sua história a uma história de salvação. Cada "sim" que damos aos chamados de Deus nos prepara para um novo "sim" que vai construindo nossa vida cristã, ainda que com limitações, mas num ritmo de chamados e respostas.
Por isso Maria nos leva ao essencial do Natal. Com sua atitude de escuta, com sua extraordinária capacidade para acolher a presença de Deus dentro de si.
- Deus necessita de Maria como necessita e necessitará de todos aqueles que não se opõem à sua ação.
- Deus não pode contar com alguém que lhe diga: aqui está o que EU pensei para ti, o EU que preparei para ti, o que EU tenho para ti, mas alguém que simplesmente diga com Maria: “Eis-me aqui".
Um colega pastor escreveu assim: “Necessitamos falar mais e mais da espiritualidade do corpo; não espiritualizando o corpo, mas corporizando o espírito”.
- Quer dizer, fazendo de nosso corpo o lugar que serve de canal para que circule o plano e a obra salvadora de Deus. Para isso apontava Paulo quando falava de apresentar "vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é vosso verdadeiro culto";
- o verdadeiro templo, aquele onde se expressa uma espiritualidade que não é falsa. O lugar disponível para Deus. Maria disse "sim", entrega seu corpo e se transforma de espectadora em protagonista.
Que seja um exemplo para nós... para nossa Comunidade e para toda a Igreja. Amém.
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14 de dezembro de 2014
Texto: I Ts 5, 16-24
Graça e paz da parte de Jesus Cristo, Nosso Senhor!
Queridos irmãos e irmãs,
A mensagem que Paulo dirige aos Tessalonicenses é o que poderíamos chamar de óbvia: como cristãos, devemos nos alegrar sempre, orar sem cessar, agradecer em todas as circunstâncias e fazer o bem, evitando o mal.
Todos nós sabemos disso. O povo de Tessalônica também sabia... mas, então, para que dizer?
Temos sempre essa postura (alegria, oração, agradecimento, fazer o bem)? É essa disposição que marca a nossa vida?
Muitas vezes, a tristeza toma conta da gente; para que orar se não somos ouvidos? Agradecer o quê? Por quê? Existem situações em que essa é a moldura da vida e é sobre isso que Paulo alerta. O querer de Deus para nós, a partir da vinda de Jesus Cristo, é que a moldura da nossa vida seja de alegria, oração, agradecimento e fazer o bem. Existem situações difíceis e de desespero? Sim, mas essas situações não devem definir a moldura da vida. Somos convidados por Cristo a redefinir o padrão, redefinir os marcos da moldura. E esse tempo de Advento é próprio para isso.
Às vezes, a forma como a gente se sente ou reage a algo depende do tamanho da moldura que colocamos ao redor do fato. Se estou experimentando uma dor no meu peito e só foco nesse momento de dor, posso sentir medo e pavor diante da situação. Mas, se eu foco no fato de que ontem eu tive uma cirurgia de transplante de coração, que salvou minha vida, e que a dor atual é uma decorrência normal dessa cirurgia, aí o sentimento em relação à dor será de alívio e alegria. Tudo depende do tamanho da moldura em que nossa vida está inserida.
Há um mês, Ruth foi a um seminário na África, no Quênia. Havia muita notícia sobre o ebola, que ainda está matando muita gente naquele continente, mas não na região para onde ela foi. Contudo, haveria razão para ela não ir? Com certeza. Muita gente a aconselhou a ficar por aqui e, se ela olhasse somente para a situação de doença e morte, teria ficado. Mas o quadro é muito maior que esse. E esse tamanho do quadro a fez aceitar o desafio.
João Batista fez o mesmo exercício quando os inquisidores exigiram dele algumas respostas. Quando lhe perguntam por que está batizando se não é o Messias, nem Elias, nem Moisés, ele não responde as questões, mas faz uma remoldura. Ele diz: olha, vocês estão tão focados em mim, que não estão vendo o todo, a grande tela. No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem. Ele vem depois de mim, e é muito maior que eu. E quando ele vier e agir, vocês verão que perderam tempo se preocupando comigo.
Aumentar os limites da moldura é permitir que a vontade de Deus, que é a de que sejamos alegres, agradecidos, pessoas que oram constantemente e fazem o bem, determine a nossa vida. Isso não significa ignorar ou minimizar a realidade de sofrimento, doença ou desemprego que nos atinge. Mas é confiar que a maior batalha já foi vencida por Jesus na cruz e que, por isso e com isso, nossa vida tem um significado maior que as desventuras e problemas pelos quais passamos.
A Lara será batizada hoje e o batismo a introduzirá na possibilidade de viver uma vida com uma grande moldura. Vivê-la inteiramente dependerá da sua participação na comunidade cristã, onde ela vai ouvir a Palavra e experimentar na Ceia a presença de Cristo em sua vida. Com essa experiência, a moldura da sua vida irá além das frustrações ocasionais que fazem parte do cotidiano.
Viver a vida dentro deste marco: este é o desafio nesta época de Advento para que tenhamos um Natal significativo.
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07 de dezembro de 2014
Texto: Marcos 1, 1-8
Nós cremos que o dia do juízo final chegará. Quando será e como será esse dia, não sabemos, mas um dia tudo será transformado, as pessoas que já morreram irão ressuscitar e serão colocadas junto com as que estiverem vivendo diante de Deus.
- esta não é uma ameaça. É uma promessa. Vivemos nossa fé nesta promessa, de que no dia do juízo final seremos ressuscitados e colocados diante de Deus para herdar uma nova realidade, a vida eterna.
Por ser promessa de Deus, essa nova realidade não é apenas um sonho distante, mas uma realidade que já bate à porta; na segunda carta de Pedro lemos: “Deus prometeu, e nós estamos esperando um novo céu e uma nova terra, onde mora a justiça” (3, 13).
- aquilo que teremos por completo a partir daquele dia já se antecipa em sinais, em vivências, em experiências neste mundo, nesta vida. E a Igreja de Jesus Cristo é um bom exemplo desta antecipação. Aqui recebemos um pouco de tudo que Deus vai nos dar a partir daquele dia: sua Palavra, se perdão, sua acolhida, sua justiça, seu amor.
- a promessa que foi feita (para mim e para ti) é aguardada com ansiedade. Estamos no tempo entre a promessa e seu cumprimento pleno, ou seja, no tempo de espera. Mais uma vez eu digo que espera não é ficar parado esperando, mas espera ativa, de quem já se sabe escolhido e amada por Deus. Esta espera ativa vivenciamos de forma intensa nesta época de Advento.
Cantaremos no hino final: Advento é tempo de preparação. Ter um tempo de preparação é importante em qualquer área da vida. Tomemos o futebol, antes de iniciar o campeonato, há um tempo de preparação, em que os jogadores vão para outro lugar e recebem instruções de como deverão jogar durante o ano.
- para a fé, ter um tempo de preparação é tão importante, que Marcos inicia seu relato do evangelho com o maior representante desta preparação: João Batista. Não só Marcos, mas os outros 3 evangelistas também começam com a pregação de João Batista.
- normalmente nós só lembramos de João Batista nas festas de São João, nas festas juninas, mas a sua importância para nossa vida de fé é fundamental. Porque sua mensagem de preparação humilde para a vinda do Senhor hoje se traduz na nossa preparação humilde para o Natal e para a vinda do dia do juízo final.
Então, volto à pergunta com a qual iniciei a prédica na semana passada: vocês se sentem preparados para vinda do Salvador? No calendário humano, ainda restam 18 dias; mas, no calendário de Deus pode ser a qualquer momento. Estamos preparados?
Muitas vezes eu me pergunto se todos se ocupam mesmo com esta pergunta, ou melhor com a resposta. Vejo tantas pessoas viverem a fé de forma superficial, como algo “legal”, mas não que dirige a vida, que forma os pensamentos, que não entra no fundo da vida.
- será que está existindo uma preparação de fato, ou só um “faz-de-conta”? Afinal os afazeres nesta época são tantos: tantas festinhas, tantas confraternizações, amigos secretos (ocultos)...
- por outro lado, nos meios de comunicação revezam-se notícias de corrupção (dos outros), de violência, de acidentes, com propagandas de onde se deve comprar para ter um feliz natal.
- tudo isso impede que se faça uma profunda pesquisa interior, dos meus pensamentos, das minhas atitudes, dos meus compromissos.
No meio de tudo isso recebemos uma notícia, um anúncio, de que há dois mil anos nasceu uma criança em Belém. Uma criança que viveu somente 33 anos. Mas a morte não teve poder sobre essa criança. Ela ressuscitou.
Quando estivermos diante de Deus no dia do juízo final, sua morte e ressurreição será nosso passaporte para a vida eterna.
Vivamos, pois, já, este tempo de preparação e antecipação daquilo que viveremos completamente na eternidade junto a Deus. Amém.
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30 de novembro de 2014
Texto: Isaías 64, 1-9
EM BUSCA DA PRESENÇA DE DEUS
Prezada comunidade!
Vocês se sentem preparados para um ano novo?
Mais uma vez temos como pano de fundo do texto de prédica o Cativeiro Babilônico vivido pelo povo de Israel de 586 a 537 antes de Cristo. Depois de 50 anos longe da terra, das casas, das cidades e vilas, do templo e das sinagogas, o povo deseja voltar. Lamenta o seu destino cruel e expressa o desejo de que Deus faça como já tinha feito outra vez, ou seja, que liberte o povo para a volta para casa.
- o texto começa com: “como gostaríamos que tu rasgasses os céus e descesses”.
As lamentações dos nossos antepassados na fé em geral estão marcadas por súplicas. As súplicas encerram desejos profundos. Súplica e desejo não raro desembocam na alegria antecipada da realização do desejado. A lamentação culmina no louvor!
Uma parte do povo já tinha voltado do Cativeiro para reconstruir a cidade e o templo testemunhava feitos grandiosos que Deus fez por eles. Pela boca de um profeta de nome Isaías Júnior, lhes havia sido anunciado que Deus faria coisas grandiosas como nos tempos de outrora. Haveria um novo êxodo para o povo deportado. O retorno era visto como sinal claro da presença e atuação do Deus de sua fé.
Mas, para a maioria do povo que havia permanecido na Babilônia, Deus parecia não mais operar feitos grandiosos. Sua presença não era mais percebida. Muitos se sentiam como aqueles sobre os quais Deus não dominava mais. Estes perguntavam: "onde está aquele que fez subir do mar o pastor de seu rebanho?" (63,11) Onde está aquele "que fez fender as águas diante deles?" (63,12) Onde está aquele "que os guiou pelos abismos?" (63,13). Esta parte do povo perguntava de forma nova e intensa pela presença de Deus em meio às suas muitas penúrias e dificuldades.
Por isso, no início do texto se diz: "Como gostaríamos que tu rasgasses os céus e descesses!" (v.1). Em outra tradução "Tomara que!"
- O lamento expressa a busca interior! A interrogação manifesta o desejo pela presença desejada! "Rasgar os céus e descer" relembrava a maior de todas as manifestações de Deus. Lembrava como Deus tinha aparecido no deserto do Sinai. Trazia à memória a intervenção salvadora de Deus em favor de seu povo. Sim, o desejo se alimenta da memória.
A tradição estava repleta de palavras e testemunhos sobre a presença e a atuação deste Deus; os hinos, as histórias contadas pelos mais velhos falavam desta presença; a fé-tradição vivia dessa presença. Mas, isso foi no passado! E o presente?
Prezada comunidade!
No seu presente, aquele povo tinha a tradição, tinha a fé-tradição, tinha o ensino-fé. Mas as pessoas buscavam a presença viva de Deus em seu cotidiano.
- E nós? E no nosso tempo presente? Ainda buscamos a presença viva de Deus?
Porque também para nós a fé se tornou tradição. Estamos rodeados de tradição, de memória, de lembranças. Especialmente neste tempo de Advento, que deveria ser por excelência um tempo de espera, estamos rodeados por tradições que cintilam como o bronze ou que retinem como címbalo. Gingle bells, gingle bells! Adornos de advento. Lançamento do Tema do Ano de 2015; preparativos para o Papai Noel. Símbolos natalinos.
- Para muitas pessoas soam vazios! Levam quase só para a prática do consumo. Presentes... presentes... E o conteúdo?
Aos pregadores é dada dura tarefa nestes tempos. Há que falar da tradição! Há que manter viva a memória! Afinal, não há mais povo sem recitação da tradição. Não há memória sem a recitação! Por isso falamos. Pregamos. Mostramos. Encenamos. Celebramos. Falamos daquilo que foi prometido. Relembramos o que Deus fez. Recordamos que veio morar entre nós. Indicamos para a manjedoura. Hoje de tarde virá o nosso pinheiro enfeitado.
- Celebramos o Messias que veio em Jesus. Essa tradição nos rodeia. Estamos cheios de tradição! Somos tradição! Mas, e o conteúdo? Ainda buscamos Deus de fato? Ainda o buscamos como nossa companhia pessoal?
(Baseada em prédica do pastor Haroldo Reimer).
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23 de novembro de 2014
Texto: Ezequiel 34, 11-16. 20-24
Quem de vocês já escreveu uma biografia? Uma história pessoal, onde constam todos os momentos vividos.
- Ezequiel fez isso com relação ao seu povo, seu país. Vivia em Israel, mais ou menos 600 anos antes de Cristo. Em seu longo livro de memórias (são 48 capítulos na Bíblia), ele faz uma biografia. Relata os momentos vividos por ele com seu povo. E faz isso de uma forma especial: sempre relacionando os acontecimentos do país com a vontade de Deus.
- lembra um pouco aquela história das pegadas na areia. Mas, ao contrário: nos momentos bons havia a pegada de uma só pessoa. É porque as pessoas tinham deixado Deus de lado. Tinha caminhado em outra direção, com consequências sempre negativas, de dor, sofrimento, destruição.
Interessante, no entanto, é que o nosso texto não introduz palavras de juízo para o povo sofrido, para o povo que se desviou, mas palavras de acolhida. Até parece meio injusto. Como que eles não têm que pagar pelo que fizeram?
- e, mais ainda: as pessoas “gordas e fortes”, essas ouvem palavras de juízo. Por “gordas e fortes” Ezequiel não pensa isso literalmente, mas pensa nas pessoas que esqueceram as dores e os sofrimentos do povo; ou nas pessoas que pensam tanto em si, que não enxergam mais como Deus age em sua vida, são ingratas e injustas com os outros.
O que Ezequiel fala aqui a respeito da biografia do povo na relação com Deus quer ser uma motivação para uma grande mudança de vida. Motivação para que cada pessoa assuma seu papel no mundo. Que cada pessoa não fique esperando pela decisão dos outros, mas que tenha a coragem e a liberdade de tomar suas próprias decisões. Que cada pessoa assuma uma posição de liderança.
Quando falamos de líderes, lideranças, pensamos em primeiro lugar nos governos, nos políticos. Talvez também em lideranças de clubes de futebol, clubes sociais, de sindicatos, associações de bairros, onde mais???
- mas eu gostaria que vocês pensassem também na Igreja. Não só na sede da Igreja em Porto Alegre, ou do nosso Sínodo em São Paulo; também na Igreja que é nossa Paróquia, com nossa Comunidade e as duas entidades diaconais: o Centro Social e a Casa Mateus.
- quem assume o papel de liderança? São os outros? Ou sou eu mesmo/a? No texto de Ezequiel, vemos claramente que Deus confia nas pessoas, sobretudo quando elas se sentem fracas e desamparadas. Deus escolhe essas pessoas para assumirem um papel de liderança? Quem? Eu? Não! Não posso; não sei; não consigo!
- será que não pode, não sabe, não consegue mesmo? Ou não tentou ainda. Ou, talvez, tentou não confiando plenamente em si e na presença de Deus em sua vida. Eu vejo muitas pessoas desistirem, fraquejarem, se acomodarem porque acham que não tem condições de realizar tal ou qual tarefa. Mas, como tentaram? Será que Deus estava mesmo em sua vida, em suas decisões? Ou Deus foi uma palavra vazia, que apareceu, mas não decidiu?
- tentar confiando na presença de Deus. Esta é a mensagem de Ezequiel para o seu povo na época. Escrever uma biografia em que o nome de Deus não aparece apenas como nota de rodapé, mas como alguém que decide junto, que caminha junto e que fortalece nos propósitos;
- o cuidado de Deus será percebido. Esta é a mensagem de Ezequiel para o seu povo e da mesma forma para nós. Deus cuida de ti. Tu percebes esse cuidado? Tu sentes este cuidado? Ou estás tão ocupado/a com tuas frustrações que não sobrou espaço para perceber a presença de Deus na biografia da tua vida?
A dica para hoje é dar uma passada na biografia da vida; revisitar lugares e acontecimentos; e, talvez, reescrever algumas passagens, alguns episódios, interpretando a presença de Deus de outra forma; não como ausente, não como desinteressado, mas como um cuidador amoroso e muito presente. Mudando a biografia, mudamos nosso presente e melhoramos o nosso futuro. Amém.
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09 de novembro de 2014
(Prédica feita pelo p. Carlos em Porto Alegre):
Mateus 25, 1-13
A parábola descrita em Mateus 25 está dentro de um longo discurso de Jesus, que começa no capítulo 24, 3 e termina no capítulo 25, 46. Só o Sermão da Montanha é maior do que este discurso.
Jesus já está em Jerusalém e mais uns dias será traído, julgado, sofrerá a pena de morte e será ressuscitado. São os últimos momentos de Jesus junto aos 12 discípulos e na companhia do povo que se reunia para ouvi-lo. Os assuntos abordados giram em torno das últimas coisas, o que na teologia nós chamamos de escatologia. Um dia, este mundo terá fim. O dia do juízo final, quando todas as pessoas que estiverem vivendo e as que já morreram estarão diante do grande julgamento. Uns irão para a vida eterna, junto a Deus, e outros para o juízo eterno, no inferno.
Jesus falava sobre essas coisas com seus discípulos e com o povo. Um tema difícil, complexo, sobre o qual há muita especulação. Pergunta-se pelos sinais, pelo dia e a hora, pergunta-se o que fazer para estar entre os julgados dignos do Reino eterno junto a Deus.
Então, Jesus usa duas parábolas para explicar melhor. A parábola do nosso texto é a segunda. Não pode haver dúvida. A chave para entrar no Reino eterno junto a Deus é a fé, não qualquer tipo de merecimento. A fé recebemos pela graça de Deus. Só pela graça.
- muitas pessoas achavam (e acham) isso muito pouco. Acham que tem que fazer algo para merecer o Reino eterno junto a Deus; pelo menos contribuir um pouco. Mas, isso não é possível, e nem é necessário. Tudo foi feito por Jesus Cristo.
ACONTECE que, como não há o que fazer neste sentido (de conquistar a salvação), muitas pessoas se tornam relapsas, acomodadas, irresponsáveis, ou como diz o nosso texto, sem juízo. Eu diria, distraídas.
- Jesus chama a atenção dos discípulos e do povo que o ouvia para o perigo da distração. Hoje ainda é assim: se dirijo distraído, vou provocar um acidente; se caminho distraído, posso ser atropelado, ou tropeçar numa pedra; se vivo distraído, não assumo minhas responsabilidades como pai, como cristão, como cidadão.
- o fato de recebermos a salvação e a vida eterna de graça, também deixa muitas pessoas distraídas.
- sabemos que quem ganha as coisas de graça, sem esforço, acaba não dando muito valor ao que ganhou; por isso, em nossos bazares da economia, não damos nada. Nem que se cobre um Real, mas tem que cobrar alguma coisa, para as pessoas valorizarem.
- assim também é na criação dos filhos. Quantas famílias tradicionais já botaram tudo fora na segunda (ou terceira) geração, porque os filhos não aprenderam o valor das coisas;
- na vida da Igreja não é diferente. Nós recebemos a salvação e a vida eterna de graça. No Batismo fomos tornados herdeiros/as dos bens de Deus, perdão, libertação, salvação;
- e sempre de novo constatamos que, em muitos casos, esta herança é mal aproveitada;
- quem tem garantida a salvação vida eterna sem precisar conquista-la pode se tornar uma pessoa fraca, irresponsável, relapsa, ou seja, distraída com relação à sua vida familiar, ao trabalho, e também com relação à Igreja. PODE. Não necessariamente é assim, mas acontece. E acontece muito mais do que a gente espera.
- Existem igrejas que ameaçam seus membros com a punição eterna de Deus e com o inferno, ou com o fracasso na vida financeira; daí as pessoas se engajam, dão 10 por cento de tudo que ganham, trabalham pela igreja, vão todos os domingos no culto, testemunham, distribuem Bíblias, cantam, dançam, gritam, tudo para não ficar de fora no dia do juízo final e da eternidade. E usam o nosso texto como “prova” desta teologia.
Na nossa tradição luterana não há ameaças. Ninguém precisa ter medo de ficar de fora.
- para nós, o texto não quer dizer que algumas pessoas são atentas e outras distraídas. Ninguém é sempre atento e ninguém é sempre distraído. O número 10 quer dizer que a pessoa por inteiro, às vezes é atenta e às vezes distraída.
- quando sou atento, assumo minhas responsabilidades: na família, na sociedade, na Igreja; quando sou distraído, acabo me prejudicando e prejudicando as pessoas ao meu redor.
Então, o texto quer nos chamar a atenção para aqueles momentos em que somos distraídos, para voltarmos a estar atentos; e não deve servir de desculpa para ser relapso, acomodado, irresponsável.
- o nosso texto quer ser uma motivação, um incentivo para que sejamos fieis e vigilantes. E, aqui vem o mais importante: não por medo de perder a salvação e a vida eterna, mas por medo de perdermos um sentido para esta vida. Quantas vezes eu ando por aí, distraído, sem focar no sentido da minha vida, da minha vocação, sem cuidar do enorme tesouro de bens que herdei no meu Batismo???
Martin Luther disse (repitam comigo):
Fé e amor perfazem a natureza do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes.
Por estarem distraídas, as 5 moças não foram excluídas da salvação e da vida eterna; não são exemplos de pessoa que não tem fé. Muito pelo contrário, tinham muita fé, queriam assumir uma responsabilidade na festa de casamento, mas se distraíram.
- com isso, não assumiram o seu papel, a sua missão, que era de servir ao noivo e seus convidados nesta festa.
Querida Comunidade: as 5 distraídas não são os outros, mas sou eu mesmo quando crio empecilhos/distrações na minha própria vida que me impedem de estar lá onde deveria e poderia estar e cumprir com a minha missão de amor.
- o que acontece comigo, acho que acontece contigo: recebemos o convite para a festa no Batismo; este veio de Deus e ninguém tira de nós, nem podemos jogar fora. Podemos negligenciar, relaxar, distrair, mas a marca feita no Batismo não sai.
Mas, (e é para o que nosso texto aponta), mesmo tendo sido convidado, mesmo de posse do convite, em muitas oportunidades da vida eu sou relapso, ajo de forma irresponsável, não preparo bem as minhas tarefas e acabo me prejudicando e prejudicando outras pessoas.
- a boa notícia, o evangelho, é que Deus não retira o Convite, nem para as pessoas distraídas. Vamos imaginar que Jesus tivesse continuado esta parábola. Seguramente ele teria ido na direção da parábola do filho pródigo, onde o pai acolhe o filho relapso, irresponsável, distraído. Talvez Jesus teria contado que o noivo foi lá fora, ouviu a confissão de culpa e a disposição de mudar das 5 sem juízo. Como vem na porta da minha e da tua vida, na porta do meu e do teu coração, na porta da minha e da tua consciência, e ouve, escuta atentamente nossas intenções mais profundas e diz:
- Vem! Entra. Agora já sei que tu és. Lembrei dos dons e das heranças que te dei. Assume a vigilância que tu podes assumir, assume o papel para o qual eu te convidei e te qualifiquei. Não fica te fazendo de coitadinho, de vítima; não fica botando a culpa dos teus descuidos nos outros.
- Vem! Entra. Levanta a cabeça; o passado não dá para esquecer, mas ele não precisa ter um peso maior do que o necessário; não precisa ter um peso que te paralisa e te distrai.
- Vem! Entra na festa da vida com sentido, na festa da vida com consciência, na festa da vida assumida com responsabilidade. Fica vigiando aqui dentro, porque não sabes qual será o dia e a hora do juízo final. Eu já te prometi que estarás no Paraíso. Estás livre para beneficiar teus semelhantes pelo amor. Amém.
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02 de novembro de 2014
Texto: Isaías 35, 1-10
O calendário litúrgico da nossa Igreja aponta como festas menores o dia 1º e o dia 02 de novembro: dia de todos os santos e dia dos finados.
Para nós, todos os santos não são os santos da Igreja católica romana, mas todas as pessoas batizadas, ou seja, santificadas (tornadas santas) por Deus no Batismo.
Por coincidência temos hoje, no 21º Domingo após Pentecostes, o dia dos finados, ou seja, de lembrar as pessoas falecidas. Como nem sempre esse dia cai em domingo, em nossa Comunidade nós lembramos dos finados no último domingo do ano da Igreja, conhecido pelo nome de Domingo da Eternidade. Quem viveu na fé em Cristo, viveu e morreu com a promessa da ressurreição para a eternidade.
Nada mais apropriado neste domingo de hoje, que combina Pentecostes com vida eterna, que falar da esperança. A partir do derramamento do Espírito Santo de Deus no dia de Pentecostes, a mensagem da salvação para a vida eterna espalhou-se no mundo, trazendo esperança, trazendo paz, trazendo alegria, trazendo liberdade para toda pessoa que crê. Por causa de Pentecostes eu sei que Jesus Cristo, Deus Filho, viveu, morreu e foi ressuscitado para que eu tivesse fé, e, pela fé, fosse salvo, ou seja, incluído no número de pessoas vivem diante de Deus e que herdarão a ressurreição e a vida eterna. Isso para mim é um ponto pacífico, certo, não tenho a menor dúvida com relação a isso.
Tenho, sim, dúvidas, de como viver esta fé. Às vezes me sinto como aquele homem que diz: não tenho mais forças para nada! Não aguento mais; perdi a esperança. Às vezes percebo as minhas limitações tão fortes, que me sinto incapaz, me sinto fraco, dá vontade de jogar tudo para o ar e dormir um ano sem parar;
- acho que a figura que descreve esta sensação é de estar num lugar estranho. Num lugar onde não estou em casa; que não conheço, que me ameaça, onde não sei o que fazer, como agir;
- assim se sentia o povo de Israel na época em que nosso texto foi escrito: no cativeiro babilônico;
- em minha vida como ser humano e como pastor procuro fazer tudo direitinho, ser honesto, compreensivo, atencioso, democrático, mas em certos momentos as complicações são tão grandes, e minha capacidade é tão pequena, que acho que não vou aguentar mais. Estrilo, dou patadas, reclamo, resmungo, xingo, sou impaciente. Estou num lugar estranho. Não enxergo minha casa, minha segurança, meu ninho, meu consolo. Elevo os olhos para os montes: de onde vem alguma ajuda? De onde vem alívio para minha confusão mental e novas forças para continuar agindo? De onde vem o socorro?
- a palavra socorro, aqui ganha um significado bem especial: algo que me seja familiar, em que eu possa me agarrar.
Nos tempos de fraqueza, no desespero, na sensação de abandono e finitude, só existem duas atitudes: resignar ou lutar.
- conheço muitas pessoas que resignaram. Desistiram de reagir, de buscar uma alternativa, uma solução. São levadas de roldão pelos acontecimentos e acabam entregando-se a vícios, frustrações e não raro ficam doentes;
- mas, também é possível reagir. Quem reage, procura agarrar-se em algo para não continuar caindo, para não continuar na pior!
- quem reage é porque já não está só; algo já está acontecendo em sua vida;
- já está sendo fortalecido por algo, por alguém; muitas vezes a pessoa que reage nem percebe que já está caminhando na direção oposta à direção para baixo que vinha andando; já está andando para cima, já está se recuperando, pois reagiu;
- mas, isso não basta. É preciso tomar consciência dessa presença alheia na sua vida; é preciso dar-se conta que não está e nunca esteve só; há uma promessa feita por alguém que não quebra suas promessas.
Como se recebe esta ajuda? Para muitas pessoas a ajuda vem da família, ou vem de amizades, vem de colegas de trabalho, da Igreja. Pessoas que conseguem te servir como tábua de socorro são instrumentos de Deus para tua salvação. Essas pessoas são instrumentos de Deus para uma transformação na vida de quem está mal.
- às vezes eu sou instrumento; às vezes eu sou alvo da ajuda, mas nunca estou sozinho na jornada da vida, ainda que muitas vezes pareça assim.
Para o povo de Israel, escravizado na Babilônia, a fé vinha lá de casa, lá de onde tinham tido segurança e de onde tinham sido arrancados; mesmo assim, uma força presente;
- e os alcançou em sua fraqueza, em sua fragilidade.
“Nosso socorro vem...” Vem de Deus; Deus vem. Vem de lá da frente, da terra destruída, do monte de Sião abandonado, da areia quente, do Caminho de Santidade. Vem transformando tudo e a todos.
- em sua vinda, também mostra para mim e para ti que esta é a direção, este é o caminho.
Portanto, nosso texto é, neste momento, uma tábua de salvação, é Deus que vem ao meu, ao teu encontro; o texto é um poder bem presente na minha e na tua vida.
- que me encontra ali onde estou, como estou: em minha fraqueza, em minha fragilidade; e me enche de esperança, de paz e de coragem. Me leva a um encontro com minha casa, meu deserto que virou lago, lá de onde os aleijado pulam, lá de onde os mudos cantam de alegria. De lá do futuro Deus me alimenta e fortalece no presente.
Deus fez isso no passado e ainda faz no presente: contigo, comigo, com que precisa. Antecipa o seu Reino e concede confiança e alegria. Amém.
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26 de outubro de 2014
Texto bíblico: Salmo 46
Inicio com pensamentos do ex-presidente da nossa Igreja, pastor dr. Walter Altmann:
“... deve-se ter em conta que não convém adotar um tom triunfalista ao expor a Reforma ou ao descrever a vida do Reformador. Isso seria o contrário do que Luther propôs. Somente seremos fiéis ao legado teológico do Reformador se toda a ênfase estiver voltada a exaltar a ação e a misericórdia de Deus em qualquer situação. O Salmo 46 e o hino Castelo Forte não são um cântico a incitar-nos para uma batalha, quiçá rotulada de santa, mas um cântico de consolação em toda e qualquer adversidade que nos acometa.
Cantemos a primeira estrofe do hino 97:
- quem aqui já viu um castelo? Não um palácio, mas um castelo, com seus muros, torres, pontes de entrada e fosso ao redor.
- todo castelo é também uma fortaleza, um forte, que protegia os reis e seus amigos que ficavam lá dentro dos inimigos. Mesmo assim, cada um dos milhares de castelos fortes construídos por mãos humanas e dirigidos por mentes humanas sofreu derrotas; nenhum conseguiu dar uma segurança última. Em algum momento mostrou-se inseguro e derrotável.
Hoje não temos mais tantos castelos de pedra com moradores lá dentro. Mas, precisamos de castelos fortes para nos defender de quem nos quer derrotar. Quem quer nos derrotar?
Na maioria dos casos, que nos querem ver mal, tristes, derrotadas/os. Não são pessoas que usam a violência, que vão nos assaltar na esquina. Não. São pessoas que têm um poder estranho, uma vontade doentia de nos colocar para baixo, de nos ver na depressão; e são pessoas que têm muita astúcia, esperteza, mentem como se estivessem dizendo a verdade; derrubam quando dizem estar ajudando; criam desavenças, brigas entre nós, tiram a tranquilidade e a paz.
E, o pior é que no fim, a gente acaba entrando no jogo, se torna uma pessoa nervosa, doente, violenta, sozinha, ou, pior, passa a fazer o mesmo. Não tem como viver o amor de Deus desse jeito. É um poder muito forte esse do contra. Ninguém consegue resistir sozinho/a a este poder.
Cantemos a segunda estrofe do hino 97:
- quem nunca se sentiu nesta situação? Estou diante de uma força que me paralisa, que me faz sentir totalmente impotente, que não me dá chance de reação.
Por nossos critérios e medidas, é uma causa perdida.
Aqui se reflete a experiência que o próprio Luther fez: por mais que se esforçasse em alcançar a salvação, nem sua consciência, tampouco seu coração obtinham descanso. Ele tentou de todas as formas reagir; fazendo promessa, fazendo obras, se humilhando diante dos outros, tentando com ações de autodisciplina; nem mesmo conseguiu com muita leitura e com muita oração. O inimigo é por demais poderoso. Será essa de fato uma causa perdida?
Um homem a vitória traz,
por Deus foi escolhido.
Para que não paire dúvida alguma:
Quem trouxe essa luz?
Foi Cristo Jesus,
o eterno Senhor,
outro não tem vigor;
triunfará na luta.
A salvação nos vem tão somente de Deus. Com essa certeza, podemos encarar a realidade em toda a sua aterradora dimensão, o que ocorre na terceira estrofe.
Cantemos a terceira estrofe do hino 97:
Aqui Luther volta ao tema da primeira estrofe. Se percebermos o mundo como tomado por inúmeros demônios que, juntos, formam um poder que pode devorar-nos; se percebermos o mundo da maldade mais forte do que nossas capacidades, vem uma voz que diz: já nada pode nos atemorizar.
Uma voz que mostra que demônios são aquelas pessoas e situações que nos sugam a paciência, a saúde, o equilíbrio,
Ainda que seja um poder sem igual na terra, ele não precisa nos derrotar; aconteceu uma coisa que mudou tudo isso:
- temos à disposição uma arma muito poderosa para enfrentar este poder: a palavra. Uma única palavra de Deus há de destruí-lo. Conforme o original alemão “Wörtlein”, basta para Jesus Cristo uma “palavrinha” só, e este poder perde a capacidade de me influenciar, de me oprimir e me derrotar.
Por que, então, assim mesmo existe o mal, existe a derrota, a dor, o sofrimento em minha vida? Será que em mim a palavrinha não age? O que me falta? Será que Deus não me aceita como sou? A resposta que o Salmo 46 e o Hino 97 dão é bem clara: não se trata de Deus não me aceitar como seu sou (isso Deus já faz), mas de eu aceitar Deus como Deus é: crucificado, humilhado, morto, sepultado e ressurreto. O que Deus faz, não o faz de forma espetacular, mas derrama sua presença na história. Se alguém sofre problemas, não é por falta de fé, mas talvez por esperar o que não se pode e não se deve esperar de Deus.
Temos, pois, que ver os sinais da história e perceber a presença de Deus nela, e assim perceber a presença de Deus na nossa própria história. E constatar que Deus age de seu jeito poderosamente, também na minha história, mesmo que eu no momento não esteja vendo e percebendo. Assim age o Espírito Santo de Deus.
Cantemos a quarta estrofe do hino 97:
Deus abre-nos novas perspectivas e nos permite prosseguir nossa via, agora com seu espírito e com suas dádivas a nós.
No horizonte final, não importa o que nos acontecer; mesmo se perdermos tudo quanto, depois de Deus, nos é mais importante, estaremos em seu reino de esperança, justiça e paz.
Se a morte eu sofrer,
se os bens eu perder:
que tudo se vá!
Jesus conosco está,
seu Reino é nossa herança.
“Que tudo se vá!”. No texto original o que aqui é descrito por “tudo”, que se vai, aparecem as palavras: “Corpo, bens, honra, filhos e mulher”...
Tem pessoas que vivem rodeadas por bens, por pessoas e por luxo, mas sente como se estivesse só no mundo. Têm tudo, mas perderam a razão de viver, perderam a graça, a esperança, a alegria de viver. Tudo se foi. Foram derrotadas pelas forças do mal. Vocês conhecem pessoas assim? Eu mesmo já me senti assim algumas vezes na vida.
Parecia que só restava morrer, outra coisa não importava mais. Tinha perdido o dom mais precioso, a herança mais valiosa, que a segurança de um castelo não pode garantir. Um castelo não pode dar segurança para a vida.
No início do hino, “Deus é castelo forte e bom”; no final: “Seu Reino é nossa herança”. Fica claro: nada de humano pode, em última instância, nos assegurar diante das ameaças que nos rodeiam. Podemos admirar portentosos castelos, mas os fabricados por mãos humanas não nos darão a segurança última que procuramos.
Só Deus, por intermédio de Jesus Cristo, pode dar-nos essa segurança. “Deus é castelo forte e bom”, e não há sobre a face da Terra nenhum outro castelo que seja, em última instância, firme e bom. Apenas nosso Deus é. “Isso é certissimamente verdade”, diz Lutero repetidamente no Catecismo. Por isso “Deus [e somente Deus] é castelo forte”.
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19 de outubro de 2014
Mateus 22, 15-22
Nestes tempos de campanhas políticas, ocorrem os famosos debates, que não explicam muita coisa, pois são marcados por agressões e tentativas de fazer “pegadinhas”. Um procura colocar o outro em situação constrangedora, que fará o adversário perder a confiança da população, ou seja, perder votos.
Coisa parecida aconteceu na origem do nosso texto bíblico. Os adversários de Jesus enviam seus comparsas para um debate e armam uma cilada. A armação, como se sabe, não dá certo para os adversários. Conforme o v. 22, “Eles ficaram admirados quando ouviram isso. Então deixaram Jesus e foram embora”.
Por que não deu certo? Eu vejo 2 razões:
Primeiro, porque Jesus logo percebeu o ardil e não se deixou ludibriar (v. 18). Aí já temos assunto para uma prédica inteira: será que nós percebemos os ardis daqueles que querem nos enganar e manipular? Acho que não. A maioria prefere acreditar no que vê e ouve na TV e não percebe o amontoado de mentiras e ciladas que montam para definir a sua consciência, para fazer com que pensem o que eles querem.
A segunda razão, e esta me parece a mais importante, é a seguinte: os adversários de Jesus esqueceram que ele não era um economista ou um político e sim um teólogo, um pastor.
O teólogo, o pastor, tem posições, mas não se deixa amarrar a um partido ou grupo. Jesus nunca deixou de dizer as coisas, nunca deixou de tomar partido, nunca deixou de falar sobre as coisas mais profanas, como comer, beber, amar; mas não se deixa dominar por nenhum dos partidos que existiam na época. Isto deixa os adversários não só perplexos, como também admirados.
Como teólogo e pastor, Jesus usa mais uma vez um recurso bem simples, uma moeda, para dar uma lição nos seus adversários. Com isso: 1º Jesus muda o foco do debate; 2º Ele introduz Deus na história.
O que significa que Jesus muda o foco? Os adversários de Jesus focam numa possível contradição de Jesus: ou segue a lei do Imperador e manda pagar os impostos (e se indispõe com os judeus), ou segue a Lei dos judeus (e se indispõe com os romanos e vai preso). Parece que não tem saída. Quando, no entanto, Jesus introduz a moeda na conversa, muda o foco. Tira dos impostos e das leis e passa para a propriedade disso tudo. Coloca a discussão num plano bem mais importante e elevado.
- Pergunta: a quem pertence esta moeda que vocês carregam no bolso? Ao Imperador. O que está escrito? “Tiberius Ceasar divini filius augustus” – Tibério, Imperador, filho do adorável deus. Todos tinham moedas no bolso. A vida das pessoas girava em torno deste deus com minúscula. O problema do povo era que não ficava o suficiente no bolso, por causa dos impostos. Não percebiam que o problema de fato era outro. Estava naquela inscrição. Ela representava a adoração a um deus que exerce o poder pela força, pela violência, pela ameaça.
- E Jesus lembra: o Imperador não é o poder máximo ao qual devemos obediência e louvor; há alguém acima dele.
Aqui chegamos ao segundo ponto que Jesus usou para não cair na armadilha dos seus adversários: introduz Deus na história.
- Até agora o pessoal só pensava nos impostos pagos com moedas que diziam ser o Imperador uma divindade. Dar a Cesar o que é de Cesar significa dizer ao Imperador: o teu poder tem um limite. E este limite é o do dinheiro, das moedas, do luxo, do exercito assassino.
- “Deem a Deus o que é de Deus”, acrescenta Jesus. Agora sim, estamos falando de uma divindade a quem não se dá moedas; de um Deus de quem não se precisa ter medo; de um Deus que não é temperamental: que sempre e só quer o bem das pessoas, inclusive das pessoas que escolhem o mal;
- o que, então, se dá a Deus? Ao Deus de Jesus Cristo se dá louvor em gratidão (como já fizemos no nosso culto); a Deus se dá nossas mágoas, nossas preocupações, pois ele as aniquila com o poder que aniquilou o poder da morte na cruz; a Deus se dá o coração, os sentimentos mais nobres: a paz, a solidariedade, o serviço de amor (como fazemos no Centro Social e na Casa Mateus); a Deus se dedica a consciência (pode ser uma consciência pesada, pode ser uma livre); a Deus se pode dar aquilo que o Imperador não quer de jeito nenhum e nem dá bola para isso: nossas doenças, nossos sofrimentos, nossa miséria.
Deus aceita tudo isso.
O Imperador só aceita moedas.
Deus aceita meus fracassos, minha pobreza, minhas cargas e minhas culpas.
Nesse mês da Reforma, lembremos que, há quase 500 anos, na presença do imperador, dos príncipes e das autoridades da igreja romana um teólogo e pastor resolveu arriscar a própria vida para preservar a consciência cativa em Deus. Reconheceu a autoridade e o poder do Imperador e do papa, mas optou por ser obediente a Deus somente. Por isso, correu um grande risco.
Somos nós obedientes a Deus somente? Diariamente somos confrontados com debates internos. Em quem acreditar? Mais uma vez temos que fazer como Jesus. Se ele tivesse ficado na pergunta pelo imposto, teria sido pego na armadilha. Mas, ele mudou o foco e conseguiu jogar luz sobre o que realmente importa.
- Esta postura tem que ser recuperada. Jesus percebeu o ardil e passou a olhar para o que mais está em jogo; a pensar no que não está sendo dito; a tentar entender que poderes estavam escondidos nas formulações que lhe foram feitas; uma atitude de liberdade e ao mesmo tempo de muito risco!
- como Jesus, nunca esquecer de dar a Deus o que é de Deus.
Por ter feito isso, Jesus saiu vitorioso do debate; Martin Luther também saiu vitorioso; e nós também sairemos vitoriosos sabendo em quem acreditar, sabendo quem formula as armadilhas com formulações ardilosas. Que Deus nos abençoe e nos fortaleça na fé. Amém.
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12 de outubro de 2014.
Mateus 18, 1-5
Os discípulos fazem uma pergunta para Jesus. Pergunta típica de gente grande, de pessoa adulta, com seu/com o nosso jeito de pensar, de se preocupar com as coisas.
- Jesus deve ter se irritado, decepcionado que dos discípulos ainda vinha uma pergunta como essa, cheia de preconceitos e de busca por privilégios, vantagens. Então, deve ter pensado: como vou responder de forma simples e convincente?
- ao lado estão algumas crianças brincando e Jesus chama uma delas, coloca no meio da roda e fala: no Reino dos céus não tem maior ou menor; não tem mais próximo, mais distante; não tem melhores nem piores.
- o Reino dos céus tem gente como as crianças: impotentes, humildes, abertas para as decisões de Deus, reino de iguais.
- ninguém entra no Reino dos céus achando que é melhor, que tem mais direitos.
- E mais, este pequeno relato nos mostra que o Reino dos céus não é lá distante, para depois da morte: o Reino dos céus se vive, quando a gente abandona estes pensamentos de discriminação, de hierarquia, de avaliação: maior/menor, melhor/pior.
- a chave de entrada para este Reino, então, não é a capacidade individual, a inteligência, a habilidade, a força.
- a chave de entrada neste Reino de pessoas iguais se chama conversão. Conversão para uma atitude de humildade, ... Deixar de acreditar nos bacanas e passar a acreditar em sinais de Deus, que Deus nos manda através das crianças: elas sabem ser solidárias, sabem brincar por brincar, sabem ser espontâneas...
- quando acontece isso, todos são grandes, pois todos são do mesmo tamanho.
Nos últimos dias muitas pessoas colocaram fotos suas do tempo de criança. Pensei em colocar também, mas não tenho nenhum álbum de fotografias aqui comigo.
- daí me ficou claro que, para encontrar a tal foto para postar no Face, a gente tem que revisitar a infância, redescobrir a própria história. Folhear álbuns significa identificar lugares, situações, fazer perguntas, comentários, identificar ou não pessoas conhecidas,...
- essa ideia da foto no Face até que foi boa!
- Vou apontar mais uma razão: hoje temos o dia das crianças e a mídia só visa uma criança consumista. A busca pela foto faz lembrar que ser criança envolve emoção, carinho, festa, família,...coisas que não podem ser compradas no Shopping.
- E aí, em meio a fotos e compras, aparece a pergunta do nosso texto bíblico: quem é o mais importante no Reino do Céu? E eu respondo com outra pergunta: Quem é o mais importante: a criança dos álbuns de fotos ou a criança das propagandas da TV?
- Aquela que resgata sua história ou a que quer viver a história de outros só porque está vestindo ou calçando determinada marca?
Então faz sentido porque Jesus, ao ser confrontado com a pergunta, “quem é o mais importante no Reino do Céu?” chama uma criança e a coloca como modelo.
- mais do que isso, ainda diz: mudem de vida, fiquem iguais às crianças ou vocês nunca entrarão no Reino do Céu. Quem receber uma criança como esta estará recebendo a mim.
Para nos tornarmos como criança precisamos lembrar, reviver, resgatar o que foi ser criança.
- Hoje, quando batizamos duas crianças no culto, disponham-se a viver essa emoção. Compartilhem a sua infância, os seus álbuns, e ponham-se nas mãos de Deus como todas pessoas fazem quando são crianças: não há escolha: a única opção é ser dependente e humilde.
- Vamos redescobrir nos álbuns de nossa própria história os exemplos de humildade e dependência, nos deixando renovar e dirigir por Deus. Amém.
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05 de outubro de 2014
Querida comunidade hoje aqui reunida,
os 3 textos previstos para hoje tem a mesma base, e vão sendo adaptados às diferentes realidades.
O Salmo que lemos no início do culto diz que a parreira é o povo de Israel. Deus colocou essa parreira numa terra, expulsando seus donos, e a fez crescer, espalhar-se. Mas, o povo pergunta: Por que Deus derrubou as cercas em volta dela? Agora, quem passa rouba as uvas, os animais pisam e destroem a parreira. E o Salmo termina com um apelo: Deus Todo-Poderoso, vem e salva a tua parreira!
No texto de Isaías, temos uma canção a respeito de uma plantação de uvas. A parreira é plantada, cercada, com um tanque para esmagar as uvas e com uma torre para o vigia. Tudo certo, mas na hora da colheita, a decepção: as uvas são azedas! De quem é a culpa? De quem plantou ou da própria plantação? Como não deu certo, Deus tira a cerca e derruba os muros que a protegem, deixando que os animais, os espinhos, o mato, a seca,... acabem com a parreira. E o texto termina dizendo: as parreiras são o povo de Israel e o povo de Judá. Deus esperava que eles obedecessem a sua lei, mas Ele os viu cometendo crime de morte; esperava que fizessem o que é direito, mas só viu as suas vítimas gritando por socorro.
Leitura do Evangelho: Mt 21.33-46.
Esta parábola de Jesus começa da mesma forma que os outros textos, mas, logo toma outro rumo: o dono/proprietário da parreira não pode tomar conta dela porque vai viajar. Faz um contrato de arrendamento com alguns lavradores. Porém, quando é chegada a hora de receber a sua parte, os lavradores/arrendatários não cumprem o combinado. Batem e matam as pessoas encarregadas de buscar o dinheiro. A cada nova tentativa do dono da vinha, a intensidade da violência aumenta, até que o filho do dono é morto. Parece que os arrendatários entenderam que, matando o herdeiro, o filho, a vinha seria deles. Será que não se deram conta que, mesmo matando todos, enquanto o dono da vinha estiver vivo, ela lhe pertence?
Parece que não. O dono estava longe e os arrendatários tornaram-se os donos do campinho. Usurparam o lugar do dono. O proprietário foi posto de lado.
Deus criou o mundo e colocou nele pessoas para administrá-lo. Mas, elas se emanciparam de Deus e viveram do jeito delas. Depois, Deus escolheu o povo de Israel e fez um pacto com ele para viverem com amor, responsabilidade e justiça. Vocacionou profetas, dentre eles Isaías, para ajudarem esse povo a não esquecer o pacto. Mas o povo rejeitou e maltratou os profetas. Então Deus manda seu filho para criar um novo povo e fazer com ele uma nova aliança. Mas, de novo, os líderes religiosos e políticos rejeitam o Filho, querem prendê-lo e matá-lo.
Nós, hoje, sabemos que conseguiram matar o Filho, levando-o à cruz, onde Jesus morreu. A Sexta-feira Santa marca esse momento trágico. Revela a arrogância humana de achar que pode apoderar-se da vinha de Deus, de usurpar o lugar do proprietário, tornando-se dono do campinho. O erro dos lavradores/arrendatários foi o de ignorar que não dá para matar Deus! Ele é Senhor da história! E hoje nós sabemos que Cristo foi ressuscitado na manhã da Páscoa. Jesus Cristo crucificado e ressuscitado vive!
Nós também somos arrendatários usurpadores/as. Muitas vezes nos adonamos do campinho e vivemos colocando Deus de lado. Muitos de vocês me perguntam por que é tão difícil trazer os filhos/as adultos para a igreja, e eu arrisco perguntar se, para muitos dessa geração de 20 a 50 anos, Deus não está em segundo plano... o mundo está aí (a parreira), à disposição, eu estudo, trabalho e mereço usufruir de tudo isso, sem me dar conta de que não sou o dono. Nem da vida nem dos bens. Falta nos darmos conta que somos arrendatários. E, se não viermos à igreja, dificilmente ouviremos essa mensagem, afinal, o mundo só fala do quanto podemos possuir, sem nos dizer que isso é uma usurpação. Pelo contrário! Temos direito a tudo!
Mas nós não queremos ser arrendatários usurpadores. Nós somos enviados, servos, emissários do proprietário. Em cada culto, nós buscamos instruções para viver dessa forma, em cada santa-ceia nós nos alimentamos para termos mais forças para trabalhar nesse parreiral, produzindo bons frutos.
Nós, que somos a partir do Batismo, o novo povo de Deus, no novo pacto, também recebemos empregados mandados para cobrar a parte do proprietário. Vamos recebê-los em paz, com gratidão de quem está disposto a ofertar frutos de amor, perdão e justiça.
Em todos os tempos, na história da humanidade, há exemplos de que o ser humano gosta de colher as uvas do parreiral de Deus e gosta do vinho que elas produzem. Mas gosta disso só prá ele mesmo. Não gosta que o dono do parreiral se meta, não gosta de prestar contas. Nós não somos melhores que os israelitas nem que os arrendatários da parábola. Ah, mas nós não surramos ou matamos! É verdade. Mas, ignoramos as necessidades de outras pessoas, não ouvimos os gritos de quem sofre, não agradecemos pelo que somos e temos; também nos fazemos de donos/as do campinho.
Mas Deus não desiste. Plantou um novo parreiral, nos colocou dentro dele, através da morte e ressurreição de Jesus Cristo, e retirou as cercas. Cabe a nós participarmos, como arrendatários do proprietário, do destino do Filho. Que Deus nos ajude e anime nessa tarefa, especialmente hoje quando escolhemos nossos representantes políticos. Amém.
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28 de setembro de 2014.
Textos: Isaías 35, 1-10 e Mateus 5, 21-26
1. Nós, seres humanos, fomos criados em sintonia e como parte de toda a natureza. Nós somos influenciados pelas variações do clima, da lua, do sol, do ambiente em que vivemos. També as estações do ano influenciam na nossa vida. Neste culto queremos refletir, com ajuda dos textos de Isaías e de Mateus, sobre as estações da nossa vida.
2. INVERNO. É um período em que a natureza está adormecida. Período de se voltar para dentro, de reduzir a atividade, de recuperar as forças. Por ser um período de menor atividade,acompanhado do frio e a paisagem sem cor, é mais melancólico. Muitas vezes em nossa vida vivemos intensamente o inverno: doença, morte, fatalidades, falta de perspectivas, sonhos destruídos, conflitos familiares... mas o mais frio inverno que enfrentamos é quando se quebra o relacionamento com as pessoas. Por isso, Isaías anuncia: "E ali haverá uma grande estrada, um caminho que será chamado Caminho de Santidade. Os impuros não passarão por ele; servirá apenas aos que são do Caminho; os insensatos não o tomarão.
3. Impura e insensatas são todas as pessoas que se deixam levar pelo orgulho, egoísmo, desejo de poder, arrogância e, por esses motivos, rompem com seus semelhantes. A indisposição com a outra pessoa é uma coisa que nos machuca tanto que Jesus compara com o pecado de matar: "Não mate. Quem matar será julgado. Mas eu lhes digo que qualquer um que ficar com raiva do seu irmão será julgado. Quem disser ao seu irmão: 'Você não vale nada', será julgado pelo tribunal. E quem chamar o seu irmão de idiota estará em perigo de ir para o fogo do inferno". As palavras são armas violentas que ferem.
4. Quantas vezes nós perdemos o sono por termos nos magoado com alguém? Quantas vezes acompanhamos e vemos pessoas queridas e próximas a nós que se consomem com mágoa, alimentando raiva por causa de palavras amargas proferidas e causadoras de mal entendido
5. Como é difícil restaurar e fazer as pazes! Por isso Jesus recomenda: "Quando fores ao templo levar tua oferta e ali te lembrares que tem um irmão que tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta e vai buscar teu irmão". A reconciliação é o fim do inverno frio e cinzento.
6. Com quem você precisa se reconciliar para terminar o inverno?
7. Mas, a reconciliação trás junto a poda. Como as plantas, nós, seres humanos, também precisamos ser podados para produzir melhor. O excesso de galhos e de folhas consome muitos nutrientes que prejudicam a produção de flores e frutos. Por isso, na nossa vida também precisamos de podas; nos libertar dos ecxessos que prejudicam. Às vezes alimentamos rancores, infelicidade, raiva, mágoas que consomem nossas energias e nos deixam secas, nos deixam com as folhas novas fracas, com poucas folhas. A primavera é propícia para a poda.
8. O que preciso podar da minha vida? Quais são os galhos secos que estão consumindo as minhas forças e que não vão favorecer o broto e as flores?
9. Depois da poda, as folhas novas vêm com toda força. Em questão de pouco tempo as flores começam a aparecer. Toda a natureza desperta. Os dias ficam mais claros, o sol aquece com maior intensidade, os animais têm nova energia, nossos sentidos são atiçados pela variedade dos cheiros das flores. Há renovação, transformação e nova esperança. As flores são a maior expressão deste período. Nós as utilizamos para presentear, para demonstrar carinho, amor, gratidão. Temos a oportunidade de experimentar a primavera em nossa vida. E como é bom! Mas, para isso é imprescindível que deixemos acontecer a poda necessária para que possa vir o novo.
10. VERÃO. Verão é o período de alimento para a natureza. A natureza, para produzir, precisa do calor do sol, da chuva, da claridade que permanece por um período maior do dia. Sem a gestação do verão, a primavera sería inútil. Também na nossa vida!!! Se a primavera nos desperta para a esperança, o verão torna possível este desenvolvimento.
11. E de onde tiramos o nosso alimento para produzir os frutos da nossa vida?
12. A Palavra de Deus é o nosso principal alimento. Sem a fé não conseguimos passar pelo inverno frio e não conseguimos ter a esperança renovada diante da primavera, pois sabemos que ela também passa.
13. Se cremos na Palavra e na promessa de Deus, então temos o alimento para nosso crescimento. A fé não depende de nós, não somos nós que a criamos e determinamos. Como todo o processo das estações do ano, nós apreciamos, acompanhamos. Mas, não temos grande ingerência. É Deus que fará com que a primavera venha. Deus permitirá que o inverno aconteça. Deus fará com que o verão chegue. Da mesma, forma, Deus fará com que a fé em nós cresça através da sua Palavra e dos Sacramentos. A nós cabe buscar sua palavra, como as raízes das árvores vão em busca de água e nutrientes, nós também somos convidadas/os a buscar os nutrientes necessários para fortalecer e enriquecer nossa fé através de sua Palavra e seus Sacramentos.
14. Quando é que exageramos e, com isso prejudicamos as outras pessoas e a nós mesmas?
15. OUTONO. Chegamos ao outono. Que período rico em sabores e cheiros. Período de fartura. É o ponto alto das plantas: a produção dos frutos e das sementes. O outono se inicia no processo da poda dos galhos secos desnecessários. Uma poda bem feita proporcionará uma colheita generosa com frutos fortes e bons e sementes fortes e boas. A razão de existirem muitas hortaliças e frutas está no ato final de doação que é a produção do alimento.
16. O outono nos anima a perguntar pelos nossos frutos. Os nutrientes, o clima, a água e o cuidado determinarão a qualidade dos frutos. Assim também nós. se conseguimos fazer a poda, deixando para trás os sentimentos que nos fazem mal, restaurando a qualidade da relação com as pessoas, nos alimentando da Palavra de Deus, cultivando bons relacionamentos, praticando a reconciliação, estaremos em condições de produzir bons frutos. Jesus, no sermão do monte fala dos frutos e sementes que podemos produzir: justiça, misericórdia, perdão, cuidado, bondade.
17. Quais são os frutos que nós produzimos? Qual a qualidade desses frutos?
18. Após a dedicação e o serviço e o cuidado com o outro, precisamos nos recolher para cuidar também de nós mesmas. Os períodos de silêncio também são necessários. Neles encontramos o reconhecimento das falhas e a coragem para poder ir em busca da reconciliação lá onde a comunhão foi quebrada. Se não é possível encontrar a força em si, então precisamos ter a humildade de ir a uma pessoa que possa nos ajudar e fortalecer, ou que possa nos acompanhar na busca pelo restabelecimento da comunhão.
19. PRIMAVERA. Da mesma forma que as estações do ano vão se sucedendo em um ciclo constante, no nosso dia-a-dia, desde quando despertamos até o deitar, passamos pelas estações. Agora voltamos à Primavera. A Primavera que tem tudo a ver com a OASE. É nos grupos de OASE que a autoestima é resgatada através da comunhão, do encorajamento e do consolo mútuo. A OASE tem seu lema COMUNÃO - TESTEMUNHO - SERVIÇO e as mulheres da OASE trabalham para a reconciliação entre as pessoas. Quantas flores desabrocharam através de visitas, de encontros, de estudos bíblicos, de dedicação à comunidade de fé.
20. As flores fazem parte da natureza criada por Deus. De sementes, bulbos, galhos, formam-se novas plantas que produzem flores. Por exemplo, da semente miúda, quase invisível da boca-de-leão surgem plantas com flores das mais diversas cores. É um milagre aos nossos olhos. Olhamos para uma flor e vemos a vida que se recria sem que possamos explicar o processo com clareza. Admiramos as flores; a cor, a forma, o perfume. Sentimos alegria e admiração. Uma forma clássica de fazer outras pessoas participarem da nossa alegria é dar-lhe flores.
21. O amor de Deus nos põe em movimento na direção de outras pessoas, enchendo nosso caminho com flores. Da primeira homenagem no nascimento até a última despedida no túmulo nos comunicamos com flores.
22. Comuniquemo-nos através delas, expressando nosso carinho, nossa gratidão e nosso pedido de desculpas. Que possamos observar as flores também com sua característica em cada nova florada, e perceber que do ano passado para este ano ela está diferente. Da mesma forma nós, a cada nova primavera estamos diferentes e vemos o mundo diferente. Que Deus nos acompanhe e oriente. AMÉM.
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21 de setembro de 2014.
Texto: Mateus 20, 1-16
Nestes dias de campanhas para as eleições presidenciais e outros cargos, muito se fala de economia.
- as candidaturas apresentam o seu programa econômico como sendo o melhor, o que mais trará benefícios para o povo;
- parece que todos sabem o que tem que ser feito; mas ninguém diz como deve ser feito;
- não me cabe esclarecer aqui as diferenças; mas devo motivar vocês a procurarem as diferenças para decidirem qual é a melhor proposta.
O que me interessa, como pastor e pregador, é expor o que Jesus Cristo disse a respeito de como. Como organizar uma sociedade, um estado, um país com relação à economia.
Tenho certeza de que ninguém aqui vai concordar com o que Jesus disse!!! Nossa educação, nossa formação é baseada no mérito: quem faz algo, merece receber pelo que fez; quem faz mais merece mais, quem faz melhor, merece o melhor; quem faz menos merece menos e quem não faz nada, não merece nada.
A lógica da economia de Jesus é bem outra. Não depende do que se faz, mas do que se necessita. Então, a recompensa não é pelo a pessoa individualmente fez, mas pelo que coletivamente se produziu. Alguém concorda com isso? Duvido!
E, mesmo assim, esta é a lógica de Jesus.
- A parábola deixa claro que o acesso ao trabalho não deveria ser restrito a algumas pessoas; que todas as pessoas têm direito a trabalhar; no nosso mundo, uma pequeno número de pessoas determina quantos irão trabalhar; para essas pessoas é bom que haja desemprego, pois daí podem pagar o que querem para os empregados (quem não quiser, pode ir embora, pois há outros esperando a vaga);
- também, que a recompensa não deveria ser pelo que se trabalhou, mas pelo que se necessita para uma vida digna.
Com estas afirmações, Jesus derruba tudo o que nós aprendemos como sendo justo e certo:
- primeiro, que não deve haver competição, concorrência entre os agentes econômicos, mas colaboração para o bem comum;
- segundo, que a qualidade dos produtos não precisa baixar se não há concorrência, mas pode ser alcançada pela dedicação livre das pessoas que têm garantida sua sobrevivência digna.
Por uma feliz coincidência, hoje festejamos os 34 anos de fundação da Casa Mateus. Também ela foi criada e colocada a serviço da lógica econômica de Jesus Cristo e não do mercado.
- leiamos o texto escrito em 1991, quando a Casa Mateus tinha 11 anos e já tinha uma longa história de lutas e conquistas no Parque das Américas, conforme o texto abaixo:
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Área missionária de Mauá e Centro Comunitário Casa Mateus.
As experiências de renovação da vida comunitária ocorridas na Igreja Católica com as Comunidades Eclesiais de Base e a busca de novas formas de vivência da fé cristã nas grandes cidades por parte da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil levaram a Paróquia do ABCD no final dos anos ’70 ao desenvolvimento de uma ação diaconal e missionária na cidade de Mauá - SP. Claro estava que a fé não pode estar dissociada da vivencia do amor e que a missão implica o anúncio do amor de Deus a
todas as criaturas em palavras e ações.
EDUCAR PARA A LBERDADE.
Quando da vocação de Mateus, Jesus jantou em sua casa. Este gesto despertou a irritação dos religiosos e piedosos de seu tempo. Como poderia ele sentar-se com pessoas de fama duvidosa? Diante isso, Jesus diz que “os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes”. E a seguir desafia os piedosos a uma ação concreta de misericórdia e solidariedade em contraposição a uma prática cúltica vazia.
Esta palavra de Jesus ecoa até nossos dias. O mandato missionário direcionado aos que são marginalizados na sociedade e a exigência do serviço concreto de amor ao próximo estão na raiz do trabalho desenvolvido pela Igreja na Área missionária de Mauá.
Com um começo bastante modesto, procurou-se vir de encontro às crianças e mulheres do Parque das Américas/Mauá em situação social econômica e cultural precária. Surgiu, assim, o Centro Comunitário Casa Mateus.
Os anos passaram e o trabalho cresceu. Chamou-se uma pastora para coordenar as atividades. Gradativamente tornou-se necessário uma estrutura melhor e inclusive a ampliação da infraestrutura. Passou--se à profissionalização dos colaboradores. Tem hoje: 3 turmas de alfabetização de adultos e 6 curso ocupacionais (Corte e Costura; Pintura em Tecidos; Cabelereira; Tricô e Croché; e Manicure e Pedicure).
O Centro Comunitário desenvolve um trabalho educacional no sentido amplo do termo. Supera o mero aprendizado técnico com o despertamento de uma consciência participativa. Em meio ao sofrimento quer-se abrir espaços de solidariedade, convivência e partilha, estabelecendo novas e melhores relações entre a pessoas, onde os valores do Reino vencem o individualismo, a competição e os preconceitos.
Junto ao Centro Comunitário reúne-se a Comunidade Evangélica Jesus Ressuscitado que celebra em cultos e adoração os fracassos e as vítimas, anuncia a Palavra a crianças e adultos e testemunha que vida nova que que Jesus nos traz, vence as forças do egoísmo, do medo e da morte.
(texto de 1991)
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07 de setembro de 2014
Texto: Mateus 18, 15-20
Estimada Comunidade,
nós iniciamos todos os domingos o culto com uma confissão de pecados. Neste momento, podemos publicamente reconhecer que pensamos, fizemos e deixamos de fazer coisas que acabaram por ofender, machucar, excluir outras pessoas. A consciência de que fizemos isso chateia, pesa no coração, traz intranquilidade para a alma. Só um poder muito grande, mais forte que a morte, pode trazer alívio, paz, tranquilidade para a mente acusada. Só o poder da Palavra de Deus pode retirar fazer isso.
Mas, acontecem outros fatos que causam mágoas e feridas. E muitas pessoas se afastam da Igreja, da vida da Comunidade por causa delas. Por alguma razão sentiram-se ofendidas, feridas e já não veem mais na Comunidade um lugar legal, aberto, que traz alegria e paz. Isso acontece tanto na relação com o pastor, como com membros entre si. “Não vou com a cara de fulano”; “o pastor me decepcionou”; “aquela pessoa é muito agressiva, nem deveria estar na Igreja“. São expressões que ouço muitas vezes.
- como agir nestes casos? Normalmente a pessoa ofendida ou ferida acaba se afastando. Será que a pessoa que ofendeu ou feriu nem sabe disso? Será que percebeu o que fez, que acabou excluindo outra? Estou convicto que em 99,9% dos casos, quem fez não sabe que fez.
- então, volto à pergunta: como agir nestes casos? Nosso texto faz um apelo bem claro: a pessoa ofendida, não deve se afastar, mas deve ir falar com o agressor! Expor sua mágoa, sua ferida.
- A hora do cafezinho, depois do culto pode ser uma oportunidade. Ou, talvez, uma ligação telefônica, ou até um email. O pastor pode ajudar nesta intermediação, neste primeiro passo; tem informações sobre a pessoa e tem os endereços para contato.
- o mais provável é que tudo se resolva neste primeiro passo. Os outros dois passos são citados no texto bíblico, porque estavam presentes na tradição do judaísmo, mas o próprio evangelista Mateus não acredita que os outros sejam necessários. Se lermos o texto que antecede e o que sucede nosso texto da prédica, vamos perceber que a ênfase está no perdão e na reconciliação já no primeiro passo.
- o texto anterior fala do pastor que cuida de 100 ovelhas e que deixa 99 de lado para procurar aquela 1 que se afastou; o texto que sucede inicia com a pergunta de Pedro: quantas vezes devo perdoar o meu irmão. A resposta de Jesus é convincente: setenta vezes sete, não significa 490 vezes, mas “sempre deixar uma porta aberta para um novo diálogo, para um novo começo”.
Mesmo se necessários, o segundo e o terceiro passos também vão nesta direção, de sempre deixar uma porta aberta. Mesmo que haja um conflito tão forte que envolva mais pessoas e até mesmo a Comunidade toda, o ser da pessoa deve ser preservado. Mesmo que se chegue à conclusão que esta pessoa não pode mais pertencer à Comunidade, ela não deve ser ferida de volta, não se deve querer vingança ou castigo.
- tratar como pagão ou como cobrador de impostos ainda deixa a possibilidade de arrependimento, de conversão, de uma volta ao convívio da Comunidade.
Voltando ao tema inicial, o texto bíblico nos convida para abordar as origens dos conflitos. Não se afastar, não querer o afastamento da pessoa agressora. Mas, abrir um canal de dialogo, de reconciliação.
- isto inclui mostrar o erro; para isso se precisa falar com a pessoa. Talvez a pessoa tenha te agredido de tal forma que uma amizade não seja mais possível, que um relacionamento normal não seja mais possível. Talvez a pessoa precise de tempo para lidar com seus traumas e suas expressões agressivas. Talvez a gente precise de ajuda para isso. Mas, vale o que o texto nos ensina: deixar sempre uma porta aberta.
Por fim, quero alertar para o fato de que o texto também aponta para a Comunidade toda estar alerta. Se alguém deixa a nossa convivência, é função e responsabilidade de toda a Comunidade ver o que aconteceu. Não é só do pastor, que muitas vezes nem percebe que aconteceu algo desagradável que levou ao afastamento de alguém. A Comunidade não pode ficar passiva quando alguém se exclui porque se sentiu mal, porque se sentiu ofendida ou ferida; nem mesmo quando ela é oficialmente excluída.
- como Igreja cristã sempre estamos diante de duas tarefas: 1. a Comunidade dos “santificados e eleitos” é chamada a combater o mal e o pecado que sempre ameaça destruir a comunhão; 2. ao mesmo tempo ela tem a tarefa de cuidar do irmão, da irmã e, se ele/ela caiu em culpa, ajudar a levantar e reconduzir à vida da Comunidade.
Não esquecer que Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Portanto, não só se preocupar com o a pessoa que errou, mas com as circunstancias, com as condições de vida que levaram a pessoa a tomar tal ou qual atitude errada.
Assim a Comunidade será realmente um espaço alternativo de solidariedade e fraternidade, que o mundo com suas leis e regras não pode oferecer.
Encerro com palavras do Papa Francisco, que são profundamente evangélicas:
“ Pensai numa mãe solteira que vai à Igreja, à paróquia e diz ao secretário: Quero batizar o meu menino.
E quem a acolhe diz-lhe: Não tu não podes porque não estás casada.
Atentemos que esta mãe que teve a coragem de continuar com uma gravidez o que é que encontra? Uma porta fechada. Isto não é zelo! Afasta as pessoas do Senhor! Não abre as portas!
E assim, quando nós seguimos este caminho e esta atitude, não estamos fazendo o bem às pessoas, ao Povo de Deus.
Jesus instituiu 7 sacramentos (na Igreja romana são 7) e nós, com esta atitude, instituímos o oitavo: o sacramento da alfândega pastoral. (...)
Quem se aproxima da Igreja deve encontrar portas abertas e não fiscais da fé!" (Papa Francisco).
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31 de agosto de 2014.
Texto: Romanos 12, 9-21
Estimada Comunidade,
Nesta época de preparação para as eleições, aumenta a pergunta pelo voto consciente e responsável. Como nós, pessoas cristãs, devemos votar? Já falei na semana passada, que nossa Igreja não apoia nem sugere candidatos, nem partidos. Nós achamos que a Igreja não deve ser dependente de nenhuma ideologia ou posição política. Ninguém pode mandar na Igreja, a não ser Jesus Cristo.
Da mesma forma, defendemos que a Igreja não deve querer mandar na sociedade. Não queremos um estado cristão, em que a Igreja determina os projetos políticos, em que dita as leis e regras de convivência.
No entanto, também é verdade que alguns assuntos que são da Igreja também são da sociedade, ou, se quiserem, da política. Daí temos que ter sabedoria e discernimento e, sobretudo, liberdade, para dizer uma palavra forte e crítica para dentro da sociedade, mas sempre preservando a independência da Igreja. Se não tenho o “rabo preso”, posso criticar qualquer político, de qualquer partido, chamar a atenção e denunciar os desvios de ética e de conduta.
Vejam os assuntos que o apóstolo Paulo levanta. A lista que ele fez na carta aos romanos tem a ver com a fé pessoal, individual, mas também com a convivência em sociedade: sinceridade (não ser fingido), respeito, entusiasmo, serviço (diaconal), esperança, alegria, paciência, (oração de) intercessão, acolhida (dos estrangeiros)... e a lista segue. Ao crer, deve seguir o agir.
Um colega pastor afirmou: “A comunidade de Jesus Cristo deve chamar a atenção pela diferença que faz (na sociedade)”. É como Jesus disse certa vez, que a Igreja deve ser como uma cidade construída sobre um monte; não pode esconder-se; sempre será visível para todo o mundo. Ou seja, a comunidade cristã, a Igreja, tem um compromisso a cumprir ali onde está localizada.
Talvez um dos sinais mais fortes e convincentes do que é ser cristão, seja uma das dicas que o apóstolo Paulo falou: não querer vingança, mas lutar pela justiça.
Depois de dizer isso tudo, Paulo usa parte do texto para convencer as pessoas a pararem de querer se vingar. Que assunto atual! Quanta gente ao nosso redor que se alegra ao sentir-se vingado!
E Paulo diz: A vingança não nos pertence; pertence a Deus.
Tratar alguém com bondade e não vingativamente é a forma de tocar seu coração.
Ceder diante da vingança é ser conquistado pelo mal. O mal não pode ser vencido pelo mal.
Dietrich Bonhoeffer tem uma frase interessante sobre isso: “Quem deseja vingar-se toma a vida de seus inimigos nas próprias mãos e esquece que Deus já colocou a mão sobre essa pessoa, morrendo por ela na cruz.”
Assim, quem se vinga no ser humano torna a morte de Cristo sem efeito; torna-se culpado diante do sangue da reconciliação.
Quantos problemas existem nas relações entre as pessoas, entre povos, países em função do desejo de vingança... Muitas vezes, nós, cristãos, ajudamos a justificar esse desejo. Ah, mas ele mereceu! Ela provocou! E o que diz o apóstolo Paulo, no texto de hoje? “Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água.” E o que nós muitas vezes nos pegamos pensando?? Que morra à mingua. O que nos torna tão insensíveis, tão desumanos?
Nesta última semana, o caso do menino Bernardo, de 3 Passos, no Rio Grande do Sul, voltou à mídia. Quanta gente, cristã, está expondo publicamente seu desejo de vingança!! Vamos lembrar que vingança é diferente de justiça. O pai e a madrasta precisam responder sim pelo que fizeram, mas não para que o menino seja vingado. Precisam responder para que a justiça seja feita, os culpados sejam presos e para que crimes assim não sejam acobertados. Dar de comer e beber para essa casal, neste momento, é possibilitar que eles tenham um julgamento justo.
Que Deus nos inspire e anime a seguir o que é bom, trabalhar com alegria, repartir com o necessitado, não pagar mal com mal, mas procurar viver em paz. Sem desejos de vingança, pois esta é reservada só para Deus. Viver em paz significa procurar resolver os conflitos normais e naturais entre as pessoas restaurando o que a injustiça quebrou. Procurando pontos comuns entre as pessoas em tensão e investindo neles para um novo começo. Como disse o apóstolo Paulo: “Não deixem que o mal vença vocês, mas vençam o mal com o bem.” Amém.
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24 de agosto de 2014.
Texto: Mateus 16, 13-20
Tem uma coisa que me irrita profundamente é quando fazem um juízo de mim como algo que nem de longe eu sou. Por exemplo, quando alguém liga às 9 horas da manhã e pergunta: te tirei da cama, pastor? Mas, como que depois de quase 8 anos essa pessoa ainda não sabe que eu acordo antes das 6 horas todos os dias, inclusive nos feriados e nas férias?
Acho que Jesus tinha uma preocupação parecida com a minha. Será que as pessoas do povo já sabem quem eu sou? Será que já sabem que não sou só filho de José e Maria, mas filho da humanidade inteira, portanto, irmão de todas as pessoas?
- a resposta dos discípulos confirma a suspeita de que o povo ainda não tinha entendido bem quem ele era. Pensavam em alguém que já tinha morrido e que, de alguma forma, tinha voltado: João Batista, Elias, Jeremias ou outro profeta qualquer. Nada a ser menosprezado. Acreditava-se, na época, que se algum desses voltasse, haveria uma mudança muito grande na realidade vivida por Israel. Uma realidade marcada pela dominação romana, por altos impostos e quase nenhuma liberdade, nenhum direito. O povo esperava por algo mágico, sobrenatural, de um poder incontrolável, que faria o que eles não tinham coragem de fazer. E a toda hora apareciam pessoas dizendo que eram este ou aquele, alguém que iria resolver os problemas do povo para ele. E o povo corria atrás de um pregador messiânico desses, depositava nele confiança e esperança. Claro que logo vinha a frustração,
Jesus queria evitar esta confusão das visões. Não queria que vissem nele um pregador aventureiro, mas o “filho do homem”, ou seja, alguém que é irmão de todos/as;
- por isso, pergunta aos seus colaboradores mais próximos, aqueles que não conheciam Jesus só de “ouvir falar”, mas de comunhão diária com ele, que logo, logo iram assumir a tarefa de dar continuidade a sua pregação e a suas realizações: e quem vocês dizem que eu sou? Ou seja, o que vocês irão dizer de mim para as outras pessoas? Como irão pregar a meu respeito? Vão dizer que fui um aventureiro, um enganador, uma pessoa que faz falsas promessas?
Pedro se adianta e fala: você é o Messias; o Filho do Deus vivo. Existiam muitos que queriam ver em Jesus um líder religioso com efeito político para derrotar os romanos; existiam muitos que diziam de si mesmos ser o Messias. Mas, eram filhos de um deus morto, um deus de morte, um deus que busca o poder das armas, o poder do palácio, a força da espada.
Quem se diz Messias não pode ambicionar o poder político. Quem quer seguir o Messias não pode querer o poder político para trazer o Reino de Deus. Isso é enganação de quem segue deuses mortos.
O que faz o Messias que é filho do Deus vivo? Ele abençoa e introduz o ofício das chaves. A benção e o ofício das chaves são recebidas por Pedro. Mas, não é Pedro a base e sim a benção e o ofício das chaves. Jesus faz um jogo de palavras com o nome Pedro, como poderia ter feito com o nome Irene, se o tema fosse a paz. Mas, não queria referir-se à pessoa de Pedro, e sim ao seu nome e a proximidade com pedra. Vejam (em casa), que no v. 23 Jesus volta a falar de Pedro como pedra, mas agora como sendo Satanás ou pedra de tropeço.
A pedra angular da Igreja Cristã, portanto, não é uma pessoa, que por acaso se chamava Pedro; mas, também não é a tomada do poder, não é a instalação de um governo cristão (como ainda hoje ouvimos na propaganda política), não é uma lei que deva ser seguida e obedecida.
Jesus quer de todas as formas evitar a confusão entre fé e política. Não admite que a fé seja usada pela política ou para a política. (Não é outra a razão porque a nossa Igreja jamais irá apoiará um candidato, na nossa Igreja jamais se diz que se deve votar neste ou naquele).
O Messias, filho do Deus vivo traz a benção e o ofício das chaves. Sobre estas duas bases está construído o edifício da Igreja Cristã. A benção aproxima as pessoas, cria comunhão, comunidade. O ofício das chaves é a capacidade de receber perdão e de perdoar. Para conhecer melhor este fundamento da nossa Igreja, abramos o Catecismo Menor que está anexado à nossa Bíblia. Na quinta parte lemos: (pag. 168)...
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17 de agosto de 2014
Texto: Isaías 56, 1. 6-8
Vocês já tiveram a experiência de voltar para um lugar familiar e se sentir estranho...
- nada se encaixa como antigamente...; as pessoas lá não são mais as mesmas; os móveis mudaram; as comidas, os cheiros; os costumes, o jeito de falar e de vestir;
- aquela sensação estranha de se sentir por fora lá onde a gente estava “em casa”.
Pois é desta sensação que nos fala o texto de Isaías.
Depois de 50 anos longe de sua terra, de suas casas, vilas, cidades e do templo, o povo de Israel volta para casa e as pessoas se sentem deslocadas, estrangeiras lá onde sonharam tanto estar de volta.
O que antes tinha sido a casa tinha se transformado em pensão... outras pessoas, outras construções, outros sotaques, outros temperos.
O povo veio com seus sonhos, suas lembranças, suas esperanças, mas o pessoal que morava ali também tinha as suas vontades, queriam viver do jeito que achavam legal.
Não é difícil imaginar que a confusão era grande. Havia muito por fazer, havia muito por decidir, construir, organizar.
Neste contexto surge a necessidade de definir: que tipo de sociedade, de país, de religião (de fé) eles iriam viver. E mais: com quem iriam fazer isso? Só com as pessoas que estavam voltando da Babilônia? Incluir os judeus que tinham ficado e que tinham desenvolvido outros jeitos de viver e de adorar a Deus? Incluir os estrangeiros que passaram a viver naquelas terras e ruínas?
O templo destruído, estavam sem alimentos, sem água, e, sobretudo, sem identidade.
- perguntavam-se; quem pertence a nós? a quem nós pertencemos? quem somos nós, afinal?
- mais perguntas que tinham: o que estamos construindo? Um país, um povo, uma religião? Com quem vamos construir? Que cara vai ter?
- todas essas perguntas funcionavam como muros, como barreiras para o novo que tinha que ser formado.
Pois justamente dentro deste quadro de indefinições surge a voz do Isaías para trazer uma proposta de Deus: “Definam-se por uma sociedade plural, uma fé inclusiva, uma terra de tolerância e paz”. v. 7: vocês ficarão felizes na minha casa de oração. Esta é uma direção, um caminho. Dado por Deus através do profeta.
Os muros da exclusão são derrubados por Deus; nosso texto deixa isso muito claro:
- quem vai participar é quem segue a justiça e faz o que é direito (v. 1). Não tem direito adquirido. Vão construir uma nova casa, com outros móveis, comidas, salas e cheiros.
Deus fala através do profeta Isaías, que as pessoas não precisam ter medo de compartilhar, de derrubar os muros, de construir algo novo.
Este assunto volta na época de Jesus. A mulher estrangeira é atendida, é incluída, é acolhida por um sinal que ela expressa: a fé. Com Jesus, uma nova casa, um novo jeito de viver nesta casa é determinado pela fé. A mulher não tinha direito nenhum de merecer a atenção de Jesus. Mas Jesus a atende porque ela mostra uma fé exemplar.
Para a casa de Jesus, é a fé que torna possível um novo relacionamento. E, vejam, não só com quem tem a mesma fé, mas também os diferentes, como esta mulher.
Surge a pergunta: e, para nós, quem são os excluídos, que poderíamos incluir? Ou mais: quem somos nós, como país, como Igreja, como seres humanos que procuram viver?
- a quem devem se integrar os excluídos?
Estamos dispostos a ouvir a voz de Deus proclamada pelo profeta Isaías? Estamos dispostos a ouvir a voz de Deus realizada por Jesus Cristo em sua vida, em seus atos?
Não nos sintamos estranhos nos lugares para onde voltamos. Vamos nos deixar inspirar e orientar pela Palavra de Deus, que derruba muros e constrói novos relacionamentos.
- temos a clara definição de Deus da identidade que compartilhamos: seguir a justiça, fazer o que é direito; viver a fé dentro da diversidade de expressões e de formas religiosas. Vamos construir uma casa de fé, onde todas as pessoas possam sentir-se curadas, salvas, acolhidas e alegradas. Tanto aqui na igreja, quanto na vida diária. Amém.
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10 de agosto de 2014
Texto da prédica: Mateus 14, 22-33
Isaac Newton ao observar um evento comum da natureza, a queda de uma maçã de uma arvore, formulou a teoria da gravidade que alterou a forma de viver e permitiu que o ser humano atingisse o que antes era inimaginável, voar. Através da simples observação de algo inevitável, costumeiro e comum, Newton mudou o significado da palavra futuro.
O texto previsto para esta prédica – Mateus 14.22-33 – é antecedido pelo milagre da multiplicação dos pães e peixes e sucedido pela narração da cura de muitos doentes. Jesus também define o objetivo da viagem: alcançar a outra margem. Jesus ordena, que seus discípulos subam no barco. Cristo ordena e os discípulos seguem a ordem. Não agem por conta própria. Cumprem, portanto a missão que Jesus lhes havia entregado.
O barco tem sido um dos símbolos mais usados para descrever o ser Igreja. O símbolo da Oikumene é um barco com a cruz de Cristo como mastro central. “Os que estavam no barco” (v. 33) representam a comunidade cristã em todos os tempos e lugares, ao longo destes quase dois mil anos de existência da Igreja.
Quem embarca obedece à voz de quem comanda o barco. Quem embarca deve conhecer o destino da viagem. O mastro do barco embalado pelo vento (pneuma em grego - o mesmo que espirito) direciona o destino da embarcação. Quem embarca deve ter noção inclusive dos perigos que rondam uma viagem. O convite para seguir a Jesus não é garantia para a fé, mas é um convite que garante profundas experiências com ele. Não garante àquele que segue o chamado uma vida isenta de sofrimentos e duvidas, mas sim uma melhor compreensão destes sentimentos.
Segundo Mateus, essa é a primeira vez que Jesus se separa de seus discípulos. Esse é o primeiro momento em que os discípulos, como grupo, ficam entre si, sem seu mestre. Cristo está fora do barco! Antecipa-se, assim, de certa forma, a realidade que os discípulos viverão a partir do momento em que Jesus, após sua morte, não mais estará presente em sua vida diária. A comunidade, à qual Mateus se dirige, saberá apropriar-se muito bem desse relato e conseguirá traduzir sua mensagem para seu dia-a-dia. Se o barco simbolicamente representa a igreja, esta deve se preparar para uma existência sem a presença do Cristo encarnado, mas sim do Cristo ressuscitado sempre conosco.
Para a comunidade à qual Mateus escreve, o mar é sinônimo de perigo. Simboliza o caos, as forças contrárias à criação. Traz destruição. É ameaça de morte.
(Aqui poderias fazer uma ponte entre a comunidade à qual Mt. escreve e a narrativa com os discípulos como segue abaixo...)
Nesse momento, essa visão do mar é extremamente exata para os discípulos de Jesus. É o que estão sentindo na carne. O barco já se encontra longe da margem da qual partiu. Não consegue, porém, alcançar o outro lado do lago, porque o vento sopra em direção contrária e com muita força. O vento, além disso, produz ondas que açoitam o barco. Outras versões trazem no lugar da palavra bater as palavras: torturam, castigam o barco.
Já é madrugada, quando Jesus vai ao encontro dos discípulos, andando sobre o mar. Entre três e seis horas da manhã, em plena madrugada, portanto, Jesus vai ao encontro de seus discípulos, que há horas lutam desesperadamente contra as forças da natureza que ameaçam destroçar o barco.
Muitos dos discípulos são pescadores. Conhecem o ambiente em que se encontram. Mas este, no momento, parece muito hostil. Tudo parece contrário e assustador. A ausência do Mestre, a profundidade a agua, a escuridão da noite, o vento atroz e as ondas revoltas. A morte ronda. Mesmo para pescadores, acostumados com o mar, o cenário não é dos melhores. Não bastasse tudo isso, ainda veem alguém perambulando sobre as águas. “Um fantasma!” Se a situação já estava péssima, piorou! Estão (Sentem-se) totalmente à mercê de forças inimigas.
A ajuda de Jesus começa com a palavra que acalma, tranquiliza e consola, e não diretamente com o afastamento da dificuldade. Ele quer ajudar, encorajar e fortalecer, dessa forma, seus discípulos, para que reúnam as forças necessárias para superar dificuldades e medos que os sobressaltam.
Pedro responde-lhe: ‘Se é o senhor mesmo, mande que eu vá andando em cima da água até onde o senhor está’.
Esse episódio de Pedro, porém, que chega a caminhar sobre as águas, é exclusivo de Mateus. No verso 29 Jesus responde: Venha! Pedro sai do barco e caminha por sobre as aguas em direção a Jesus.
Jesus fala. E Pedro obedece, realizando algo “impossível”. Mateus descreve com a naturalidade de quem relata algo do cotidiano: ele desce do barco e anda sobre as águas.
No versículo 30 Pedro repara na força do vento e tem medo. Começando a afundar, ele grita: ‘Socorro Senhor, em outra versão, Salva-me!! ’.
No exato momento em que Pedro sucumbe, está o ponto alto da fé. Pedro não pode salvar-se por força próprio. Somente Jesus pode salvá-lo. Seu grito por socorro é o grito da fé, dado por um discípulo no ponto mais agudo de seu desespero. Ele percebe que se tornou cem por cento dependente de seu Senhor. Pedro se entrega de maneira absoluta, inclusive tendo suas duvidas. Na dúvida reside também a fé de Pedro.
Jesus carrega nossa fé, que, se dependesse apenas de nossa ação, afundaria. Onde tudo depende de Cristo, até mesmo a pessoa fracassada pode ser seu discípulo. Como Pedro, assim nós.
Convém aqui perguntar: Se Pedro, pescador acostumado a cotidiano do mar, que muito provavelmente enfrentou anteriormente outros temporais, condições climáticas diversas, e mar revolto, porque afundou? Qual o motivo, para quem já estava acostumado com esta realidade, e muito provavelmente por sua profissão era um exímio nadador, ainda assim, sentiu medo? Por que, mesmo com sua fé e conhecimento de que aquele que caminhava sobre as agua, era o mestre Jesus que ele seguia, ainda assim, sentiu medo e afundou?
Aqui volto ao conceito descoberto por Newton. O normal é afundar. O natural é cair. O normal é sucumbir ao medo, que garante nossa vida, ao afastar-nos do perigo. Não cabe o julgamento, armadilha comum que em certos momentos caímos, de julgar Pedro. Nem de nos colocarmos como superior, como sendo nossa fé superior e ousar dizer, ”Que EU não afundaria” ou pior “tá vendo, até Pedro afundou”.
Jesus não parte de um julgamento prévio para salvar Pedro. Ao ouvir o clamor de Pedro para que Jesus o socorra, Cristo, rapidamente o socorre. Não pergunta sobre sua fé, não questiona sobre sua falta de fé. Assim, como seguidores de Cristo devemos agir. Não condenar aquele que naturalmente afunda, que como a maçã, naturalmente cai. Não cabe ao seguidor do evangelho condenar antes de dar a mão. Não cabe julgar o erro antes de salvar a vida humana. Nem depois. Jesus os socorre ao barco, sem dar “um sermão” em troca de salvação. O exemplo de Cristo deve ser seguido.
Devemos lembrar que se o barco é uma alegoria da igreja, nesta passagem, Cristo está fora do barco, Cristo está do lado de fora da Igreja. Pede que atuemos junto ao povo que sofre nas ruas. Que acolhamos, sem distinção e sem julgamento, aqueles que sofrem independente de etnia, gênero, orientação sexual ou classe social. Devemos buscar a força e a coragem no barco, para agir de maneira missionária no mar revolto do mundo. Somos chamados para uma ação diaconal, aquela mesma que impele nossa igreja a manter a Casa Mateus e o Centro Social Heliodor Hesse. O chamado de Jesus está na ação fora dos limites da igreja. O chamado se executa no mar revolto, fora da segurança do barco, onde homens e mulheres, e nós mesmos podemos afundar, o que é absolutamente natural. Em suma: uma ação que extrapole os limites do templo e daqueles que são acolhidos por este. Somos agraciados pela misericórdia de Deus. Somos motivados pela sua graça. É a graça imerecida de que Martin Luther tanto falava.
Mas o que nos difere das correntes marítimas que levam ao caos, é a certeza de que seremos resgatados em Cristo Jesus. Cristo não nos abandona. Quer que creiamos nele, mas ele também acredita em nós. Acredita em nossa capacidade de estender a mão ao próximo sem fazer um julgamento prévio, estender a mão ao próximo para aquele que está à deriva, para aquele que está “fora do barco”.
Mas nada disso que discorri por aqui pode ser considerado importante se três aspectos principais do texto bíblico em questão não forem enfatizados. TEMOS MEDO, medo que ás vezes é necessário à nossa sobrevivência, como já disse antes, mas que também nos impede de buscar novas soluções e mudanças necessárias. AFUNDAMOS: Somos pessoas falíveis, imperfeitas também, temos que ter a consciência que afundamos e não condenar os outros que afundam também, e a fé em Cristo Jesus, nos restaura e resgata pela sua graça infinita, e pelo seu amor, como de um pai e como de uma mãe.
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03 de agosto de 2014
Prédica: Romanos 9, 1-5
Prezada comunidade,
a cidade de São Paulo é conhecida no Brasil por seus shoppings centers. Desde o mais simples, até o mais luxuoso e sofisticado. Li que são 51 espalhados pela cidade. Agora são 52. Na quinta-feira passada foi inaugurado mais um shopping center, uma enorme e luxuosa loja para vender ilusões, promessas de prosperidade, sensação de poder e vitória: o tão falado templo de Salomão.
Muito se poderia dizer sobre tudo isso, mas parece bem anacrônico uma organização que se diz cristã inaugurar um templo que diz ser de Salomão.
- nos dias atuais, o mundo todo critica o uso desmedido de força por parte dos herdeiros da religião de Salomão no combate com os palestinos. É verdade que existe uma guerra, existe uma ameaça, mas até mesmo a guerra tem leis e regras que protegem pessoas que não participam dela, como crianças, pessoas idosas e pessoas doentes.
- os herdeiros da religião de Salomão estão cometendo todo o tipo de crimes de guerra nestes dias, onde o objetivo nem é tanto se defender de uma ameaça, mas conquistar terras onde tem petróleo. Neste contexto mundial inaugurar um templo que representa tudo isso, me parece totalmente anacrônico e inapropriado. Não é nesta direção que o mundo deve seguir; não é nesta direção que as religiões devem seguir.
O apóstolo Paulo já tinha percebido isso há 2 mil anos. Algumas pessoas no Brasil e no mundo ainda não!
Por outro lado, o tipo de religião representada por este templo tem símbolos bem diferentes dos nossos (cristão) e tem uma teologia bem diferente da nossa.
- para a religião judaica, representada pelo templo de Jerusalém, o chamado templo de Salomão, Deus tem uma personalidade irada, é um Deus muito bravo, que castiga, que se vinga, que abandona quem não obedece, quem não faz sua vontade;
- este Deus precisa ser acalmado com sacrifícios, precisa ser convencido de que a pessoa não merece o castigo, através de ofertas em dinheiro e de rituais, orações, cantos realizados no templo.
O que isso tem a ver com a fé cristã? Muito pouco. É claro que nós respeitamos a fé judaica. Respeitamos o direito de os judeus professarem esta fé, do seu jeito, como aprenderam e como se sentem bem. Mas, nós, cristãos, pensamos diferente. Cremos diferente. Nos relacionamos com Deus de forma bem diferente.
É disso que o apóstolo Paulo está falando quando escreveu sua carta aos romanos. Os chamados “romanos” não eram romanos, mas judeus que moravam em Roma.
- portanto, pessoas que tinha se criado dentro da fé judaica, que acreditaram a vida toda naquilo que esta fé diz. Mas, pessoas que tinham ouvido sobre a salvação em Jesus Cristo e tinham se convertido, tinham deixado a antiga fé para viver uma nova fé.
- uma coisa que não é tão fácil. Sair de uma religião cristã e adotar outra já é difícil. Imaginem dar um salto dessa magnitude, um salto desse tamanho: deixar uma religião de sacrifícios para adotar uma fé na graça de Deus.
- o próprio apóstolo Paulo tinha passado por isso. Sabia muito bem o que significa dar este passo. E sabia muito bem o que se passava na cabeça de seus irmãos na fé, que também tinham sido da religião judaica.
Eles estavam acostumados a fazer sacrifícios para aplacar a ira de Deus, e a serem zelosos no cumprimento das leis e tradições de seu povo,
- para eles parecia uma grande heresia pensar que um homem tivesse assumido a culpa de todo o povo e resolvido para sempre o problema da salvação.
- era como se Jesus tivesse jogado fora toda a lei e a tradição do povo judeu.
- era inconcebível para eles a ideia de que Jesus fosse o próprio Deus feito homem, e tantas vezes pareceu a eles uma blasfêmia ouvir que Jesus perdoava pecados. Como chamar de Senhor um herege como Jesus?
Por outro lado, o povo de Paulo, por quem ele tanto sofre, tinha aprendido que as coisas não caem do céu, de graça.
- a vida toda tinham aprendido que era preciso trabalhar, empenhar-se para conquistar algo, inclusive o perdão de Deus e a salvação.
- com surpresa eu percebo que esse pensamento está presente nos dias de hoje, inclusive na nossa igreja: a ideia de que é necessário "fazer por merecer".
Não prego que se deva julgar ou condenar as pessoas que pensam assim. Afinal, esta é a lógica que impera em nosso mundo; nas relações sociais e comerciais ela faz sentido. Mas, não podemos aplicar esta lógica para a relação com Deus. Deus fez tudo pela nossa salvação por amor e a oferece para nós gratuitamente. Difícil para nós entender!
- imaginem para os amigos do apóstolo Paulo, que vinham de outra tradição. Muito mais difícil. Por isso ele sofre, por isso ele está triste, pois se sente frustrado. Não conseguiu ainda achar palavras, e exemplos que ajudem essas pessoas a viverem a liberdade da fé cristã.
Muitas vezes eu percebo que não só os amigos do apóstolo Paulo, mas também nós não gostamos muito dessa liberdade. Ela tira de nossas mãos o controle das coisas.
Vejam: nossas obras, por melhores que sejam, não podem determinar a ação de Deus, que é soberano e não se deixa comprar.
- nós, a bem da verdade, preferiríamos um Deus que pudesse ser manipulado, de quem pudéssemos exigir bênçãos em troca de nossas boas ações e da nossa fidelidade aos seus preceitos.
Portanto, é para invalidar essas tentativas de manipulação humana, que Deus, em Cristo, nos dá seu perdão e salvação de graça.
Paulo mostrou na carta aos romanos e em especial no texto de hoje, que a salvação do ser humano não pode e nem precisa ser conquistada através de obras, sacrifícios, ritos, entregas.
- Paulo diz claramente: tudo o que era necessário para a salvação já foi feito por Jesus, através de sua morte e ressurreição. A partir de Jesus Cristo temos que tão somente crer naquilo que Jesus já fez.
- As boas obras são necessárias e bem-vindas como resposta de gratidão por aquilo que Deus nos oferece gratuitamente.
Se o apóstolo Paulo voltasse hoje e conversasse conosco; se olhasse para nossa vida, para nossas convicções. Qual seria a sua reação? Será que ele estaria triste por nós, o diria que está contente, porque compreendemos a mensagem libertadora de Jesus Cristo? Amém.
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27 de julho de 2014
Texto bíblico da prédica: Mateus 13, 31-33
Prezada comunidade,
o pequeno texto de hoje contém duas parábolas de Jesus que se complementam. Destaco três aspectos que me pareceram os mais relevantes neste momento:
1- o crescimento do Reino
2- o acolhimento no Reino
3- o fermento que desaparece no Reino.
O que sempre me intrigou neste texto é a expressão de Jesus “o Reino de Deus é como”. Não está dizendo que é como a árvore mostardeiro, mas como a semente de mostarda; não está dizendo que é como um pão que se faz com a massa, mas como o fermento que se perde dentro da massa.
Já preguei sobre este texto ressaltando o aspecto do pé de mostarda, seu tamanho, suas características, o que se faz com seu fruto; mas não dei destaque para a semente, que desaparece para dar lugar esse pé de árvore tão grande. Uma semente minúscula, que traz dentro de si algo diferente de si;
- esse algo cresce, ganha raízes, um tronco, galhos e ramos que alcançam dois a três metros e meio. O Reino do Céu é assim. Começa bem pequeno e cresce, fica muito grande.
1 - Ontem fiz uma pergunta para a Tamara: onde ela já tinha feito algo crescer! Transfiro esta pergunta para vocês: onde cada um/a já fez algo crescer? Tem pessoas idosas aqui, tem pessoas de meia idade e também jovens; cada qual já teve oportunidades na vida de fazer algo crescer. Aproveitou? Qual foi o resultado? Já deu uma palavra, um conselho, uma ajuda financeira, para que algo pequeno se tornasse grande, para que um grupo pequeno crescesse, para que uma fé pequena fosse aumentada, para que uma semente de esperança do tamanho de um grão de mostarda se transformasse numa realização que beneficiou a muitas pessoas?
A Igreja é um lugar por excelência isso deve e pode acontecer. Foi assim no início da Igreja cristã. Um pequeno grupo, uma pequena fé, uma palavra tímida e insignificante. Mas desta pequena semente formou-se uma árvore frondosa, que cresceu e tornou-se a maior dentre todas as árvores religiosas.
2 - Tem lugar para as aves. Esse detalhe na parábola de Jesus normalmente passa desapercebido. Parece que está lá só para mostrar o tamanho da árvore que cresceu. No entanto, um pastor chamou a atenção para o fato que o ninho é um lugar aconchegante. No termo aconchegante está a palavra chegante, de chegar. Quem chega encontra um lugar seguro, aberto, alegre, acolhedor. Tudo começou com uma pequena semente.
- nós temos a tarefa de entender nosso lugar neste ninho e dar continuidade à história de acolhimento e boas-vindas a todas as pessoas.
3 - Para que não nos tornemos ufanistas, Jesus contou a segunda parábola. O fermento na massa não produz um fermentão, mas se coloca na massa e faz a massa crescer. Não se reproduz a si mesmo; mas dá uma qualidade maior aquilo onde está dentro. Desaparece para que a outra coisa aumente.
- assim é com a Igreja na sociedade em que está dentro; não queremos tornar a sociedade uma sociedade cristã, mas uma sociedade onde o fermento da verdade, da justiça, da honestidade, ... que, conforme Jesus, é a Igreja cristã, está presente.
- não queremos nos tornar uma igreja de massas, mas uma Igreja que cumpre sua missão de fermento na sociedade. Que influencia esta sociedade, sem querer fazer que ela se torne uma grande igreja.
Acho que estamos cumprindo bem esta missão. Mesmo bem pequenos, mesmo que os políticos saibam que nós não puxamos votos, somos sempre convidados para celebrações, somos convidados para cerimonias oficiais. (Para a inauguração da réplica do templo de Salomão não recebemos convite!).
- mas nem tanto pela nossa presença religiosa somos respeitados. Sobretudo pela nossa presença diaconal. O Centro Social é seguramente a entidade social mais respeitada em nosso Município. Onde participo das rodas assistenciais, sociais, sou apresentado como o pastor do Heliodor. A presença do Heliodor é uma presença ética, de seriedade, competência e comprometimento com as metas estabelecidas.
- nunca trouxemos um membro novo para nossa Comunidade por estarmos nessas rodas, por fazermos o trabalho assistencial/diaconal que fazemos. E, olha, são milhares de pessoas por ano; isso é porque somos como fermento. O resultado da nossa ação não será o nosso crescimento, mas da pessoa atingida. Fazemos crescer a paz nas relações, o valor da autoestima, a dignidade das pessoas. É assim que o fermento age.
Não nos ufanamos apresentando dados de crescimento numérico da nossa Comunidade, mas apresentamos dados de nossa ação fermento na massa. Aí está o Reino.
Falei do Centro Social, mas poderia ter falado da Casa Mateus. E gostaria de poder falar das ações fermento de cada um, cada uma de vocês em sua vida, em suas relações, em sua família, trabalho, grupo, círculo de amizades. Mas, estes relatos não precisam ser feitos aqui na Igreja. Eles são feitos no dia-a-dia, diante de Deus, em suas ações e em suas orações. É lá que somos semente, é lá que somos fermento. Com toda a intensidade de uma semente; com todo o carinho de um ninho e toda humildade do fermento. Amém.
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20/07/2014
Texto da prédica: Isaías 44, 6-8
Prezada comunidade,
a prédica de hoje é praticamente uma continuidade da prédica no domingo passado. O texto no domingo passado era a parábola do semeador, que semeou em 4 tipos de terra diferentes: terra dura, terra boa mas fina, terra coberta de espinhos e terra fértil.
- eu disse que nós devíamos considerar cada tipo de terra um tipo de pessoa diferente, mas que esses 4 tipos de terra estão em cada um de nós. Às vezes eu sou terra dura, às vezes terra fina, outras vezes abafado por espinhos e ainda outras vezes sou terra fértil, que produz 30, 60, 100 grãos por semente plantada. Nossa oração, então, deve ser no sentido de pedir a Deus que aumente a terra fértil dentro de nós.
O texto do evangelho de hoje vai na mesma direção: a parábola do joio e do trigo também não quer que a gente julgue alguns como sendo joio e outros como sendo trigo, mas quer que a gente se entenda como joio e trigo ao mesmo tempo. Tem coisas que eu faço, penso, digo, que são inúteis, não me ajudam e não prestam para ninguém. Esta é a minha natureza. Tenho que conhecer esta natureza (como sou, afinal de contas) e domar esta natureza e dominar esta natureza.
Assim, também tem coisas que eu faço, penso, digo, que alimentam outras pessoas e as fortalecem em sua fé, sua esperança, sua vontade de viver uma vida na presença de Deus. Assim sou trigo, que vai trazer algo de bom para o mundo, para as pessoas que vivem neste mundo.
Então chegamos ao texto de Isaías. O texto me diz que, quando sou terra fértil, quando sou trigo em minha vida, estou realizando o plano de Deus. Não a vontade de um ídolo, não a vontade de uma divindade feita por vontade humana natural, mas um Deus que determina a vontade humana.
- como vimos, a vontade humana é plural – pode ser de um jeito uma hora, de outro jeito na outra hora. Mas, a vontade de Deus é perene; não muda. E está sempre à nossa frente.
Vamos ver estas duas afirmações um pouco melhor: Deus não muda; Deus está sempre à nossa frente.
Como posso afirmar que Deus não muda? Nós conhecemos pessoas teimosas, que não mudam, nem quando se mostra que estão erradas; ou quando percebem elas mesmas que erraram. Mas não mudam! De Deus não se pode afirmar isso, pois Deus não erra e não precisa mudar. Sua vontade, seu desejo, desde a criação do mundo, é que as pessoas vivam em paz, que se respeitem, que cuidem umas das outras, que vivam em amor.
- não pode ser mais simples. Por isso digo que Deus não precisa mudar; porque desde o começo desejou a simplicidade para nós e todos sabemos que uma vida simples é muito mais completa, muito mais valiosa e valorosa. Por isso digo que Deus não erra; porque na simplicidade somos terra fértil, somos trigo. Deixamos de lado as coisas que complicam e focamos naquilo que constrói.
Isaías escreve seu texto aí pelo ano 540 antes de Cristo. O povo ainda estava escravo no cativeiro babilônico. Mas já se ouvia que o poder da Babilônia estava desgastado e que um libertador viria para libertar os cativos e permitir que voltassem à sua terra, Israel. O nome do libertador é: Ciro.
Por que estava escravizado o povo? Porque o povo e suas autoridades deixou-se dominar por ídolos que exigiam sacrifícios e cultos complicados, e se desviaram da vontade simples de Deus. Perderam a confiança em Deus e passaram a confiar em poderes que não têm poder, em forças menores, que não podem simplificar a vida, mas a complicam.
Através do profeta Isaías Deus fala palavras bem simples, para deixar bem claro que somos terra fértil, que somos trigo quando voltamos nossos pensamentos, nosso fazer e falar para Ele. Terra fértil no futuro dará frutos; trigo no futuro será farinha para pão e outros alimentos. A vontade de Deus no futuro trará paz, justiça, liberdade, alegria entre as pessoas. Todo mundo sabe disso. Como diz o texto: vocês são minhas testemunhas de que isso é verdade.
Ora, todo mundo sabe que, quando se afasta desta verdade, daí complica, cria conflitos, tensões, guerras, vitórias e derrotas, mas nunca a simples vontade de Deus.
Não é preciso ser adivinho, não é preciso ser mágico. Basta compreender como as coisas funcionam entre os seres humanos. Quando complicam, se dão mal. E tem muita gente que gosta de complicar! Quando simplificam, criam condições para uma vida saudável e tranquila para si e para as pessoas ao redor. Confiemos pois, em Deus, que simplifica, que nos faz terra fértil, que olha o trigo que há em nós e faz alimentar o bem.
“Será que há outro deus (d), além de mim? Não! Não existe outra rocha, que possa (e que precise) ser conhecida” (v. 8d). Amém.
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Data: 13/07/2014
Texto da prédica: Mateus 13, 1-9- 18-23
Prezada Comunidade,
Começo lembrando o cenário: Jesus à beira do lago, sentado, a multidão vai aumentando, ele entra no barco, afasta-se um pouco e senta. As pessoas estão à beira do lago, de pé, e Jesus lhes fala. Fala para uma multidão! Ali tem gente de todo tipo e para esse povão Jesus falou. Contou uma parábola. Inicia dizendo: “Escutem.” E termina dizendo “Se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam.”
É interessante observar que o semeador semeia nos lugares mais impróprios. Para ele, não existe terreno bom ou terreno ruim. Há um imenso terreno a ser semeado: à beira de caminhos (os passarinhos comem), entre as pedras (não criam raízes), no meio de espinhos (as plantas são sufocadas) e em terra boa que produz na base de 100, 60 e 30 por um.
O semeador não julga a qualidade da semente, nem a qualidade do solo. Ele sabe que o resultado de sua semeadura não depende de sua habilidade, mas da graça de Deus. O semeador faz o que precisa ser feito: semeia. Sua tarefa não é julgar, não é analisar, não é escolher, não é excluir. É tomar a semente nas mãos e lançá-la, como se fizesse uma oração com a fé e a esperança que ela será ouvida.
Luis Carlos Ramos, um teólogo metodista, nos lembra que a semente é um mistério fascinante: um grão duro e minúsculo que carrega dentro de si o código da vida. Morre o grão e ressuscita trigo, milho, feijão,... É a vida que nasce da morte. O maior que cabe dentro do menor. Isso é graça, milagre de Deus. Quantas vezes vemos plantas nascendo nos lugares mais improváveis: nas rachaduras das calçadas, nos telhados das casas,...Podemos arrancá-las ou cultivá-las.”
Os vv.1 a 9 nos permitem reflexões sobre sementes e solos.
Acontece que o texto não termina com a parábola. Nos vv. 18 a 23, há uma explicação sobre ela. (Ler 18 a 23):
Inicia dizendo “escutem e aprendam”, porque quem ouve e não entende é como as sementes semeadas à beira do caminho; é como quem ouve e aceita com alegria, mas uma alegria que dura pouco; é como as sementes jogadas em solo rochoso; é como quem ouve a mensagem, mas deixa que ela seja sufocada pelas preocupações do mundo e a ilusão das riquezas é como a semente lançada no meio dos espinhos.
Mas, existem aquelas pessoas que ouvem e entendem a mensagem. Essas produzem 30, 60 e 100 vezes mais do que foi semeado.
Jesus está falando para aquela multidão às margens do lago da Galileia. Todos de pé, olhando para ele sentado. E ele se dirige ao coração, à mente, à inteligência, aos sentimentos daquele povo. O campo onde a palavra de Deus quer ser semeada são as pessoas. Jesus joga suas sementes em nós. E aí pode vir a pergunta: que solo eu sou? Talvez seja melhor perguntar: que solo estou sendo? Existem períodos em nossa vida em que nos identificamos mais com um ou outro tipo de solo. Todos já passamos por situações de grande entusiasmo, de querer fazer e acontecer e aí, por algum percalço, desanimar.
Alguém nunca passou por isso? Mas, também já sentimos nosso solo receptivo, acolhedor. Já experimentamos a semente transformar o coração e despertar a fé, motivando-nos para o amor e criando esperança.
Também nós, que estamos aqui hoje, já experimentamos, na nossa vida, esses 4 tipos de solo. E é por isso, que quando se semeia, não dá para selecionar os ouvintes por seu tipo de terra. Não dá para julgar, não dá para escolher. Semeamos para todos, com ou sem condições favoráveis.
Semeamos para todos porque a semente precisa ser lançada. Perez Esquivel, prêmio Nobel da Paz diz que “não se pode semear com os punhos fechados. Para semear é preciso abrir a mão.” Assim como recebemos a semente, somos convidados também a semear, para que possamos alcançar uma colheita. Em que proporção?
Podemos notar que o texto nos diz que mesmo em condições favoráveis, com terra boa, a colheita se dá em proporções diferentes: 100, 60 e 30 por 1. Isso apareceu de forma simples e bonita numa oração das Senhas Diárias da última semana: “que Deus nos ajude a não julgar e não querer que todos se adaptem ao meu padrão.” As pessoas são diferentes, agem diferente e vivem a fé de maneira diferente.
Essa palavra de Jesus nos lembra que, justamente pessoas diferentes, podem e devem olhar para dentro de si; podem e devem fazer uma análise particular sobre as possibilidades que a semente em terra boa nos oferece.
E cada qual decide por si, analisa a sua vida, e faz as suas escolhas, sem julgar os outros e sem ser pressionado por outros.
O engajamento na comunidade, o compromisso com as pessoas que precisam de nossa ajuda, a oferta de gratidão, a vontade de ajudar a construir o Reino são resultado de sementes germinadas em terra boa.
Que nossas mãos sejam desafiadas pela semente em solo fértil, em terra boa, para se abrirem com vontade de semear. Amém.
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Data: 06/07/2014
Prédica: Rm 7.15 – 25a.
Prezada Comunidade!
No Blog da Paróquia tem uma foto de um pensamento em espanhol escrito numa folha de papel: Se você não vai na igreja porque são uns puros hipócritas, lembra – a Igreja é um hospital de pecadores, não um museu de santos.
A Ruth conta uma história parecida, de quando estava na Faculdade: “visitei uns parentes, jovens, bem de vida, que me questionaram sobre a importância de participar da igreja. Questionaram inclusive a necessidade de existir igreja, afinal, as pessoas que participam da comunidade são todas cheias de erros, enganam outras pessoas, são arrogantes, mentem,...”
O que vocês acham de uma colocação dessas? É isso mesmo?
No Facebook e em algumas conversas eu escuto gente dizendo que dentro de nós só há bondade. O ser humano é bom por natureza! Que o que nos corrompe é o ambiente externo. Por isso, a gente teria que evoluir internamente, até chegar a uma perfeição. Para algumas pessoas, a igreja deveria colaborar para esse processo de alcançar a perfeição. Já para outras, a Igreja só atrapalha. Afinal, o pastor fica dizendo que somos pecadores, que não podemos nos melhorar e que isso não contribui para chegarmos à tal da perfeição.
Dá prá concordar?
Também existem pessoas que se sentem perfeitos, eleitos, santos. Pertencem ao grupo dos salvos e os outros estão todos condenados. Essas pessoas, geralmente, criam divisões, rachas nas igrejas onde participam e a IECLB passou por um período de divisões em função desse tipo de mentalidade.
Diante desses tipos de posicionamentos diante da fé e da religião, voltemos a uma parte do texto lido há pouco, escrito pelo apóstolo Paulo na sua carta aos Romanos:
7.17-19: eu sei que aquilo que é bom não vive em mim, i.e., na minha natureza humana. Porque, mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero é que eu faço.
7.22-23: Dentro de mim eu sei que gosto da lei de Deus. Mas vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que luta contra aquela que a minha mente aprova.
Esse texto responde às perguntas acima. Ele mostra de forma clara a luta que se trava dentro de nós. Escancara a nossa fragilidade diante do pecado.
Certa vez um estudante de Teologia comentou com o prof. Brakemeier sobre as pessoas que dizem que a igreja está cheia de defeitos, de gente defeituosa; e ele respondeu:
- Que bom, né? Do contrário não haveria espaço para nós. Se só os perfeitos fossem na Igreja, nós não poderíamos participar. Alguém poderia? Existiria Comunidade?
O apóstolo Paulo nos diz: sim, há bondade no coração das pessoas; sabemos fazer o bem aos outros;
- mas também temos um lado assustador. E só esse lado para explicar tanta maldade no mundo. E a maldade não é só dos outros... Dentro de nós também se trava a luta entre o bem e o mal. Maldade e bondade disputam o nosso coração. Luther já disse que somos simultaneamente justos e pecadores e que não podemos salvar a nós mesmos. A ação salvadora vem de fora, vem de Jesus Cristo, que sofreu morte de cruz (como apontei na semana passada); Ele cria e renova a comunhão com Deus.
O pastor sinodal eleito mandou um exemplo bem simples: quando a gente está perto de um radar, então anda na velocidade permitida; passado o radar, quem fica nesta velocidade?
Portanto, Paulo diz: eu sei o que é certo; conheço a lei de Deus, gosto dela, mas, dentro de mim, há outra lei agindo.
Qual é a função da lei? O fato de seguir a lei não pode me salvar, mas sem dúvida, a lei sinaliza para o caminho que promove vida. Os mandamentos têm esse sentido: promover a vida! Imaginem uma partida de futebol sem leis, sem juiz; mesmo com, o pessoal se quebra, fará sem...
- Numa situação de caos, no deserto, eles recolocaram a ordem, estabelecendo limites e possibilidades de vida para todas as pessoas. Nossas leis também têm essa função. Os sinais de trânsito também. Então por que tantas pessoas não obedecem esses sinais, e promovem mortes? O que nos faz desobedecer? A vontade de transgredir, o egoísmo, a vaidade,...
Mas, também temos que perguntar: o que faz com que eu obedeça? A consciência de que quero preservar minha vida e a de outros, a possibilidade de que alguém esteja observando, o medo de ser multado,...
- Então, se a lei fosse rigorosamente observada, teríamos um mundo perfeito, sem maldade? Ah, se fosse tão fácil. Se isso fosse possível, Deus não teria insistido na necessidade de um novo nascimento. É a graça de Deus, manifestada em Jesus Cristo, que supera a lei e renova o nosso interior.
Enquanto houver necessidade de uma lei que nos ordene não matar, esta mesma lei nos mostra quem somos: seres humanos, falhos, escravos daquilo que na Igreja nós chamamos de pecado; que não é nada mais do que a inclinação para fazer o errado, mesmo quando a gente sabe o que é certo.
Este texto de Paulo aos Romanos nos socorre quando estamos desanimados/as porque com a lei não conseguimos enfrentar o mal, que nos habita. Paulo sabe que os cristãos vivem sob o domínio da graça. A certeza do perdão, que por meio de JC, alcança nossa vida, nos possibilita andar de cabeça erguida. Não porque somos perfeitos/as, não porque somos melhores, mas porque, no batismo, Cristo nos resgatou do pecado e nos deu a sua graça, o seu perdão.
Somos pessoas reconciliadas: querer o bem e realizá-lo é uma dádiva e uma possibilidade que Deus nos dá. Deus nos ama e nos possibilita refazermos a vida a cada novo dia.
Por fim, volto à história contada para as crianças no início: temos 2 lobos dentro de nós: o bom e o mau, que lutam constantemente para nos dominar.
Qual dos 2 vence? Aquele que melhor alimentamos.
Cristo nos dá, no batismo, as condições para alimentarmos o lobo bom.
A paz de Deus, que supera nosso entendimento, guarde nossos corações e mente em Cristo Jesus. Amém
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Data: 29 de junho de 2014
Texto: Mateus 10, 40-42
Querida Comunidade aqui reunida,
um pastor conta que na sua infância havia um ditado que as mulheres usavam quando estavam tomando café com bolo (como faremos logo a seguir) e alguma não queria mais comer bolo, ela dizia: Não, obrigado, sabe como é: João 3, 30.
Algumas pessoas não sabiam o que significa. Uma tradução diz assim: importa que eu diminua e que ele aumente.
É claro que o texto bíblico não está falando do peso e sim da importância, mas como piada fica bem legal.
Mas, isso de ser maior ou menor, também foi colocado na história destes dois primos: o nascimento de João foi colocado para o dia 24 de junho, perto do dia mais curto do ano para nós, da noite mais curta no hemisfério norte; ao mesmo tempo, o nascimento de Jesus foi colocado no dia 25 de dezembro, perto do dia mais longo aqui e da noite mais longa no hemisfério norte.
- essas datas marcam não só o tamanho do dia, da noite, mas também o tamanho de importância destes dois.
- verdade é que a importância de Jesus se tornou muito maior do que o planejado. Olhei vários calendários. Para junho eles marcam o dia dos namorados, dia 12 e o dia de Corpus Christi, dia 19, mas nenhum marcou o dia 24 como dia de João Batista. Ele se tornou um ilustre desconhecido.
Até mesmo nas festas de São João, ele ficou escondido. Quem lembra do profeta João, filho de Isabel e Zacarias quando pula fogueira, toma quentão e vinho quente, come (... nomear as comidas típicas), dança quadrilha e solta balão?
E, o pouco que se conhece, está ligado a uma visão meio romântica, doce, deste homem. No entanto, ele foi um homem tremendamente corajoso, que enfrentou o rei e que provocou o medo do rei porque muitas pessoas o seguiam.
- aliás, existe um historiador judeu da época de Jesus chamado Flavius Josephus, que conta que João juntava mais gente que Jesus em suas pregações; que o motivo do rei Herodes de mandar matar João não foi tanto a sua pregação (que o rei até gostava), mas o grande número de pessoas que ele conseguia juntar no deserto, com sua pregação forte e seu jeito simples de viver. O rei temia que João organizasse um exército contra ele.
Mas, não era nada disso que ele queria. Pelo contrário, ele se esvazia, abre mão de todo potencial político e religioso que tinha acumulado, para apontar para seu primo Jesus, o Cristo, o Salvador. Tanto que na Bíblia ele desaparece. Não se fala mais dele, de sua pregação, dos seus discípulos, nada. Sua intensa vida foi dedicada para apontar para Jesus: ele é o Cristo, o Ungido, o Salvador.
Não sabemos se foi fácil ou difícil para ele abrir mão de todo o potencial que ele tinha. O que sabemos é que ele se tornou um exemplo de dedicação, de superação do egoísmo, de humildade.
Como seria bom ter um João nos dias de hoje. Alguém que mostrasse ao mundo, em especial ao Brasil como se faz para superar a arrogância tão presente em certas religiões que se acham mais certas, mas fervorosas, mais cristãs do que nós. Como faz falta alguém que diga não olhem para o pregador, olhem e escutem para aquele que foi pregado na cruz e ressuscitou e vive na eternidade, para onde nós, pela fé, também iremos. Não pelo rótulo, não pela imagem, não pela prosperidade, mas somente pela fé.
A fé cristã não acontece nas grandes demonstrações, mas ali onde se aponta para Jesus Cristo e se contribui para a construção do seu reino. Como?
Às vezes, como Pedro, que sempre tinha dúvidas da sua fé e mesmo assim assumiu a tarefa enorme de construir uma Comunidade em Jerusalém;
Às vezes como a ocupada Marta, que se ocupa em deixar os outros se sentirem bem quando querem estar na presença de Deus;
Às vezes como a viúva pobre, que não tinha quase nada para dar, mas que o fez de coração;
Às vezes como o samaritano, que simplesmente ajudou a quem necessitava, sem perguntar quem é, nem porque estava naquela situação.
E às vezes como um/a que chama como João no deserto, que coloca um espelho na frente de poderosos e humildes para que repensem a sua vida. Esta foi a sua importância naquele tempo e continua sendo hoje. Amém.
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22 de junho de 2014
Texto bíblico: Jeremias 20, 7-13
Prezada Comunidade,
Pedir demissão às vezes a gente pede, outras é demitido...
Complicado é quando a gente se demite por dentro – passa a fazer as coisas sem amor, ou nem faz mais: desiste, vira as costas, procura uma saída...
Exemplo que vem da Alemanha: professora que viu seu salário diminuir e as tribulações aumentar: alunos sem educação, pais que não assumem a sua parte, - pediu demissão interior. Continua dando aula, mas não tem alegria, não tem motivação, idealismo. Virou obrigação, não mais engajamento por uma causa. Os pais, alunos, direção, governo, tudo não interessa mais.
Jeremias não podia pedir demissão, nem podia demitir-se por dentro, por causa do seu coração. Seu contrato não é por tempo limitado, nem tem cláusula de demissão, de rescisão. Seu contrato é permanente, foi feito com Deus e ele não consegue romper.
- pelo contrário, apesar dos xingamentos que recebe, das ofensas de que é vítima, em vez de romper, ele se dirige a Deus, discute, argumenta, mas não vira as costas para Deus.
Lembrem o texto da filha do pregador Billy Graham quando ocorreu o 11 de setembro. Ela afirmou neste texto que as pessoas viraram as costas para Deus, decidiram viver sem Deus e que Deus aceitou isso e o resultado foi a destruição das torres gêmeas.
- nada mais errado e contrário à pregação de Jeremias. Mesmo quando voltamos as costas para Deus, Deus não nos deixa; mesmo quando não percebemos ou não queremos perceber sua presença, esta presença nunca deixa de acontecer. Deus não vira as costas para nós, mas chora junto às pessoas que choram...
Está na moda dizer que quem não é forte, quem não supera os problemas, não tem fé, portanto, não é abençoado por Deus;
- Jeremias é o exemplo do derrotado, fracassado, desanimado... do ponto de vista da prosperidade, ele não tem nada a apresentar. Então se diria: Não tem fé. Não tem esperança. Não tem Deus no coração.
- de acordo com este pensamento, Deus vira as costas, abandona quem se encontra em crise...
- quando, na verdade, Deus está tão presente na sua vida, no seu coração, na sua mente, que ele briga com Deus.
- dizem que o contrário de amor não é ódio; é indiferença. Mas, Jeremias não fica indiferente. Porque sabe que Deus não está indiferente ao seu sofrimento, ao seu desespero interior.
- Jeremias xinga Deus, mas não se vê abandonado. Deus está ali para ouvir o xingamento dele....
Jeremias, como depois foi dito por Jesus Cristo, não permitiu que as adversidades matassem a sua alma. Hoje também é fundamental a gente não deixar matar a alma. Por exemplo, o que os meios de comunicação tentaram fazer no Brasil antes da Copa. Sempre passando a imagem negativa, de que não vai dar certo, que não vamos conseguir. Muitas pessoas acreditaram, deixaram matar a alma, deixaram-se desanimar pela propaganda enganosa e perversa destes meios de comunicação. Como se tivessem se demitido por dentro.
- temos que agir como Jeremias: resistir, argumentar, brigar, mas não nos demitirmos por dentro e contar sempre com a presença de Deus.
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