Prédica feita em 25 de fevereiro de 2015:
P. Dr. Gottfried Brakemeier
Estimada comunidade!
"Naqueles dias veio Jesus de Nazaré da Galiléia..." Com essas palavras o evangelista Marcos introduz o seu evangelho. Ele não explica quem é este Jesus nem apresenta sua família. Ele não fala do lugar de seu nascimento nem de sua infância e adolescência. Sobre isto nada ouvimos. De repente Jesus está aí, pessoa adulta que logo vai começar a pregar o evangelho. Verdade é que João Batista havia anunciado a vinda de alguém mais forte do que ele, de quem ele, João, não seria digno de desatar as correias das sandálias. Mas esta é a única pista que o evangelista dá. E ela é muito vaga. João não menciona o nome de Jesus. Deixa em aberto quem será este mais poderoso. E então aparece Jesus. "Naqueles dias veio Jesus de Nazaré da Galiléia..." Inicia a sua história.
Iniciou na Quarta-feira passada também a época da quaresma, ou seja, a época em que a Igreja lembra com especial insistência a paixão de Jesus Cristo. Ela vai culminar na sexta-feira santa e desembocar na páscoa. O texto para a prédica de hoje ainda não fala nisto. Por ora, o sofrimento de Jesus parece estar longe. Antes de desenvolver esse assunto, o evangelista Marcos nos vai contar muitas histórias do que Jesus fez, vai nos informar sobre o que ele disse e sobre o que se passou com ele. O texto fala não da paixão, e, sim, dos inícios da atividade de Jesus. Ainda assim, este texto foi bem escolhido. Pois na verdade a quaresma não começa quando Jesus é preso. Ela começa muito antes. A cruz é a sombra que acompanha a trajetória de Jesus desde o começo. O evangelista Marcos deixa isto muito claro. Sempre de novo Jesus é hostilizado. Sempre de novo seus inimigos tramam algum ataque contra ele. Sempre de novo ele encontra resistência e oposição. A crucificação de Jesus não veio por acaso. Ela vinha se preparando aos poucos. A escolha do texto para a prédica neste início da quaresma quer alertar quanto a isto. É preciso ler a história de Jesus à luz da paixão.
E esta história não é a de um cidadão comum. Se Marcos até agora ainda não tinha falado da identidade de Jesus, agora sim, ele o apresenta. E ele o faz em três passos.
- A primeira apresentação acontece no rio Jordão. Ao chegar da Galiléia, Jesus procura João Batista que, nas margens daquele rio, conclamava as pessoas ao arrependimento a as batizava como sinal do perdão dos pecados. Também Jesus se submete a este batismo, embora não tivesse nenhuma necessidade disso. Mas ele o faz em solidariedade com os pecadores. E aí acontece algo estranho. Quando Jesus sai da água, os céus se abrem e o Espírito Santo desce como pomba sobre ele. E ouviu-se uma voz que dizia: "Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo." Então, agora sim está claro, quem é este Jesus de Nazaré. É o filho amado de Deus, no qual Deus tem sua alegria. Ele é portador do Espírito Santo que na ocasião veio pousar sobre ele em forma de pomba. Portanto, Jesus vai falar e agir em nome de Deus. Ele é o representante de Deus na terra.
Nós não sabemos como se deu esse episódio. Certamente se trata de uma "visão", respectivamente de uma "audição" que alguns tinham naquele momento. Mas nós desconhecemos o número das testemunhas bem como a repercussão que o acontecido teve.
Dificilmente podemos falar de uma "demonstração pública". Pois Jesus de modo algum foi reconhecido como filho de Deus por seus contemporâneos. Pelo contrário, houve quem o acusasse de ser cúmplice de Satanás, respectivamente um blasfemo que não mereceria outra coisa senão a morte na cruz. E, no entanto, houve também quem no batismo de Jesus descobrisse uma revelação. Deus identificou Jesus de Nazaré como sendo o seu filho amado. Ele o autorizou a atuar e falar em seu lugar. Jesus é o escolhido de Deus para salvar o mundo. Se o pessoal naquela ocasião não o percebeu, os leitores e as leitoras do evangelho de Marcos estão em situação diferente. São informados sem rodeios e floreios sobre a identidade daquele que veio da Galiléia. Inicia a história de Jesus de Nazaré, filho de Deus.
- Segue a segunda apresentação de Jesus. Marcos fala da tentação de Jesus. Também dessa vez ele o faz em máxima brevidade. Mateus e Lucas são bem mais explícitos nesse assunto. Depois de ter sido batizado por João Jesus vai ao deserto, onde se demora por quarenta dias e onde é tentado por Satanás. É só isto o que Marcos informa. Não lhe interessam os detalhes. Para ele é importante apenas o essencial: Jesus resistiu à tentação de Satanás, ou seja, à tentação de desviar do caminho de Deus e de trair a sua vocação de filho. O apóstolo Paulo vai dizer que Jesus Cristo foi obediente a Deus até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8). Não perseguiu seus próprios interesses, e, sim, os de Deus. Nós poderíamos dizer que naqueles quarenta dias no deserto Jesus passou por um teste. E ele foi aprovado. É bem verdade que esse teste não se limitou àqueles poucos dias antes de ele aparecer em público. A tentação acompanhou Jesus durante toda a sua vida. Não faltaram oportunidades para desprezar a vontade de seu Pai no céu. Mas a tentação se concentrou de modo especial ali, no deserto, antes de ele assumir sua atividade. Então, Jesus não é apenas o escolhido de Deus, ele também é a pessoa aprovada para desempenhar a missão de que Deus o incumbiu.
- Em terceiro lugar, Marcos apresenta Jesus como evangelista. Este que é o filho de Deus e que ficou aprovado nessa qualidade, este agora vai pregar o evangelho. Novamente Marcos é bem sucinto. Diz que, depois de João Batista ter sido preso, Jesus voltou à Galiléia. Talvez a prisão de João Batista seja um prenúncio do que mais tarde iria acontecer com o próprio Jesus. As pessoas não gostam dos profetas. Quem cobra os direitos de Deus neste mundo, quem exige conversão, mudança de rumo, quem insiste em "reformas" na sociedade costuma colher inimizade. Assim aconteceu com a maioria dos profetas do Antigo Testamento. Assim aconteceu também com João Batista. Foi morto por ter sido incômodo e ter contrariado a vontade do rei Herodes. Será que Jesus terá sorte diferente? Nós sabemos que não.
Isto apesar de que ele tem boa notícia a comunicar. Marcos resume a pregação de Jesus nas palavras: "O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." Aliás, é nisto que Jesus se distingue de João Batista. Este havia anunciado a proximidade do juízo de Deus. Deus faria uma grande faxina neste mundo. Acabaria com a corrupção, com as fraudes, com as injustiças, com a violência, viria para castigar os maus, os pecadores, os exploradores. João prega a proximidade do castigo de Deus. Ele ameaça e conclama ao arrependimento. Quem não confessar os seus pecados e quem não receber o perdão pelo batismo, será consumido pela ira de Deus. Assim falou João Batista.
Também no entender de Jesus a proximidade do reino de Deus exige o arrependimento. Da vontade de Deus não se zomba. E Deus vai castigar o pecado, sim.
- No entanto, antes de penalizar, Deus oferece sua graça. Jesus não veio para condenar, ele veio para salvar. Oferece chance aos pecadores, estende a mão aos cansados e sobrecarregados, liberta de desespero e exclusão social. Por isto mesmo a pregação de Jesus, sua ação, toda sua atuação é "evangelho", ou seja, mensagem de alegria, de conforto, de cura em sentido amplo. Tudo o que a fé cristã tem a oferecer ao mundo se resume nessa palavra bonita que é "evangelho". Por isso nós que seguimos a Jesus Cristo nos chamamos "evangélicos" e somos "Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil". Assim como Jesus, assim também nós estamos comprometidos a pregar o evangelho, a praticar o evangelho, a fazê-lo conhecido em todo o mundo. Se Jesus é "evangelista", nós também o devemos ser. Cabe-nos animar as pessoas, despertar amor, esperança e fé.
E vejam! Este evangelista acabou na cruz. Que absurdo!
Por quê aconteceu isso? É o enigma que ninguém sabe explicar. Talvez porque as pessoas não gostam do reino de Deus. Preferem construir seus próprios reinos. Acham que não precisam da graça. Supõem que conseguem conquistar tudo com as próprias forças. Julgam desnecessária a fé. Será que são estes alguns dos motivos da rejeição de Jesus? Eu não sei. Faço votos que a época da quaresma nos ajude a descobrir as causas da inimizade provocada pelo evangelista Jesus. Por que as pessoas nele se escandalizaram? Por que também nós tantas vezes nos escandalizamos nele?
Prezada comunidade! Vivemos em tempos difíceis. São crises por todos os lados. Poucos são os "evangelhos", ou seja, poucas são as boas notícias que nos vem do rádio e da televisão. Qual seria o evangelho de que o mundo de fato precisaria hoje? Será que o evangelho vivido e anunciado por Jesus já não tem mais nada a dizer? Desejo a nós todos que a quaresma nos ajude a responder esta pergunta crucial, pois o que está em jogo é nada mais, nada menos do que a Salvação. Amém.
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26 de novembro de 2014:
Prédica – Mateus 21, 1-9
Irmãos e irmãs em Cristo!
Como receber o Salvador.
Quando cidade do interior recebe uma visita ilustre, costuma enfeitar as ruas: o meio fio é pintado, o trânsito é desviado, o povo se aglomera nas calçadas para ver o visitante passar. Nós já vimos isso inúmeras vezes quando um governante visita a cidade, quando os atletas voltam vitoriosos de uma competição esportiva, quando o corpo de uma celebridade é conduzido para o sepultamento...
Na antiguidade, era comum a prática de "desfiles da vitória", quando os generais retornavam triunfantes das batalhas, e entravam na cidade à frente de seus exércitos invictos, conduzindo as conquistas da guerra (escravos e riquezas).
Esta também era a expectativa do povo de Israel que, após séculos de dominação estrangeira, aguardava ansiosamente o envio por parte de Deus de um Messias forte e libertador. Esperava que este entrasse em Jerusalém à frente de um exército invencível para expulsar definitivamente os invasores (no caso, os romanos). O povo esperava que o Messias inaugurasse um reino de paz e de prosperidade.
Mateus 21.1-11 relata sobre uma entrada "triunfal" em Jerusalém na semana que antecedia a Páscoa. Trata-se do Messias, do descendente de Davi, que iria libertar o povo do domínio romano e da elite judaica conivente com os invasores?
Quem adentra Jerusalém é Jesus de Nazaré! Ele vem montado num jumento, animal de carga, e ainda por cima emprestado. Ele vem à frente de um pequeno grupo de romeiros galileus e de um grupo de discípulos, a maioria deles pescadores humildes. Ele vem para ocupar um "trono" diferente: Ele vem para enfrentar a cruz e, assim, tomar sobre si os pecados das pessoas. Ele vem para reconstruir a ponte do amor, que reconcilia a humanidade com Deus.
Quem faz o desfile "triunfal" não é um general arrogante e orgulhoso, montado num cavalo de raça; não é um conquistador vitorioso à frente de um exército invencível; não é um governante bom de lábia e de voto.
Quem vem é um peregrino Galileu, acompanhado de um pequeno grupo de seguidores, já pré-condenado à morte pela liderança de Jerusalém (João 11.50,57). Provavelmente, as "multidões", aglomeradas à beira do caminho, decepcionadas, logo recolheriam suas bandeirolas (suas folhas de palma). Muitos dos que então clamaram: "Hosana", mais tarde gritariam: "Crucifica-o!"
E nós, como o recebemos? Na condição de cristãos pós-Páscoa, nós entramos na época de Advento, de espera pelo dia do nascimento de Jesus, o Cristo ressuscitado.
As multidões que aclamaram Jesus como um novo Davi, esperavam dele uma atitude política de libertação; uma forte atuação militar. Como hoje, alguns acham que para o Brasil seria melhor a volta dos militares.
Não seria ele o tão esperado Messias prometido por Deus?
Os discípulos estavam divididos entre o medo de acontecer o que Jesus anunciara três vezes (a morte na cruz) e a expectativa de que ele assumisse o governo dando-lhes cargos importantes no mesmo. Já a cidade se alvoroçou (v.10). Estava espantada e assustada com a ousadia de alguém, que sem qualquer recurso, parecia provocar os detentores do poder. Como estes iriam reagir? A reação romana poderia ser violenta, não só contra o pequeno grupo, como contra toda a nação (temor que se comprovaria mais tarde no ano 70 a.D.).
Volto à pergunta do Advento: como nós esperamos e recebemos o Salvador?
A proposta é esperar pela sua vinda assumindo responsabilidades. Se observarmos o contexto da entrada de Jesus em Jerusalém, veremos que ele distribuiu tarefas aos seus discípulos antes, durante e depois. Antes, na preparação da entrada em Jerusalém; durante, na preparação da Ceia; depois, após a ressurreição, os enviou para evangelizar o mundo.
Em seus ensinamentos (parábolas, Sermão do Monte), Jesus sempre nos chama à responsabilidade. Não basta "postar-nos à beira do caminho e aclamar a sua vinda". Ao montar num jumento, Jesus aponta para a profecia de Zacarias 9.9s.: O Salvador vem humilde, vem como mensageiro da paz. Ele nos chama para esta responsabilidade: promover a paz - uma paz que não é mera ausência de guerras, mas a justa e fraterna possibilidade de vida para todas as pessoas.
Ele vem na paz da manjedoura até mim e a ti, como aquele que enfrentou o caminho da cruz - para o nosso bem! E, tal qual no texto bíblico, ele envolve os seus discípulos (que hoje somos nós) no anúncio do reino de Deus.
No Advento esperamos e já anunciamos aquele que vem a nós - humilde e servidor - que veio assim na manjedoura de Belém, que adentrou assim na cidade de Jerusalém, montado num animal emprestado, que vem a nós no serviço de amor, de paz com justiça.
Ao aclamarmos Jesus como nosso Salvador, lembremos que o seu caminho passa pela humildade e pela cruz - este foi o seu trono - espinhos foram a sua coroa de louros - e tudo isso com uma única finalidade: revelar o profundo amor de Deus - um amor que não mede sacrifícios - um amor que liberta e salva!
Amém.
(Baseada na prédica do pastor Geraldo Graf).
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27 DE AGOSTO DE 2014:
Prédica
Predigt zu Romanos 10:5-15, verfasst von Gottfried Brakemeier
Prezada comunidade!
"Mestre, que devo fazer para conseguir a vida eterna?" Assim havia perguntado certa vez um jovem rico a Jesus. Nós conhecemos a história do evangelho de Mateus. E Jesus lhe havia respondido: "Se você quer entrar na vida eterna, guarde os mandamentos." São poucas as pessoas que hoje perguntam assim. A preocupação com a vida eterna cedeu espaço para a preocupação com a vida aqui e agora. Quem nos coloca a salvo das ameaças a exemplo da violência, da doença, da pobreza? É isto o que interessa. Mas a angústia de outrora e a angústia hoje é no fundo a mesma. Nós queremos salvar a nossa vida. Queremos viver bem, queremos segurança, queremos ter futuro. Que devemos fazer para alcançar esse objetivo?
É o que está em discussão também nesse texto da carta aos romanos. Paulo discute com seus compatriotas judeus. Que é preciso fazer para sermos salvos? Ora, a resposta é muito simples. "Se você quer assegurar a vida, guarde os mandamentos." Assim disse Jesus, assim já disse Moisés, e Paulo também o afirma. O apóstolo cita uma passagem do livro de Levítico (18.5), onde Deus promete pela boca de Moisés: "Se obedecerem às minhas leis e guardarem os meus mandamentos, vocês viverão. Eu sou o Senhor."
Que grande verdade! Imaginemos que revolução teríamos em nosso Brasil, se as leis de Deus fossem de repente respeitadas. Basta lembrar os dez mandamentos. Acabariam o roubo, o assassinato, a mentira e tantos outros males que infernizam nossa vida. Seria o fim da corrupção, o fim da injustiça, o fim da impunidade. Sim, é isto mesmo: Bem estar e saúde social se prendem à obediência aos mandamentos divinos. Paz, prosperidade, bênção, nada disso se consegue sem seguir a vontade de Deus. Quanto a isso há consenso entre Moisés, Jesus e Paulo. Deveria ser este um consenso também aqui no Brasil. Sem um mínimo de ética a sociedade se torna inviável. Existe aí um déficit a recuperar entre nós, bem como no mundo em geral. Sem o compromisso com o bem comum, com a honestidade e com outros valores humanos nós não vamos progredir. É bom enfatizar isto.
No entanto, Paulo afirma que a simples lei não basta, e também nisto ele pode respaldar-se em Jesus. Certamente estamos lembrados que aquela história do jovem rico terminou mal. Quanto ao cumprimento dos mandamentos aquele moço não se sentiu intimidado. Disse a Jesus que desde menino teria obedecido rigorosamente a todos eles. Queria saber: "O que mais me falta fazer?" E Jesus lhe responde : "Vá, vende tudo o você tem e dê o dinheiro aos pobres." Isto derrubou aquele jovem. Não disse mais nada e foi embora. Pois é! O que lhe faltou foi o
amor.
Não é necessário vender tudo e dar aos pobres. Se todo o mundo fizesse isto, a economia iria sofrer colapso. Não, o que Jesus quer dizer é que não adianta cumprir os mandamentos enquanto falhamos no amor. Jovem, se você é rico, veja o que você pode fazer para os menos favorecidos.
A lei, por si só, não salva. Ela precisa do amor. E mais: Ela precisa também da fé. É nisto no que o apóstolo Paulo insiste neste texto. A lei pode assegurar o bem estar, sim! Mas salvação, não! E mesmo o bem estar sem a fé em Deus está ameaçado. A lei não muda mentalidades, não ensina o amor, não faz as pessoas gratas. Os efeitos da lei são limitados. A lei diz que assalto é crime. Mas por que os índices não param de crescer? Por falta de policiamento? Ou haverá outras causas? Nós temos boas leis em nosso País. Mas os escândalos, se forem provocados por gente influente, acabam em ""pizza" como se diz. Vejamos como terminam as CPIs? A lei não tem chance contra o poder. Leis podem ser até mesmo injustas e favorecer o crime.
Pois é, a lei por si não salva. Ela é necessária, sim. Mas é fraca. E mesmo ali, onde ela é levada a sério, ela não consegue garantir a felicidade. Se eu me olho no espelho da lei de Deus, eu descubro o quanto fico em débito com ela. Foi este o caso de Lutero. Ele queria viver uma vida "santa", em conformidade com a vontade de Deus, e sempre de novo se flagrou pecador. Se não pecou em seus atos, pecou em seus pensamentos. Ele queria ter a consciência do "dever cumprido" junto a Deus. Mas as suas falhas, suas fraquezas, sua maldade o impediram. Lutero quase desesperou. Assim também hoje. Quem for honesto frente a si e frente a Deus não vai deixar de descobrir pecado sem sua vida. Por isto a confissão de nossa culpa faz parte de nossos cultos e do nosso cotidiano. Portanto, a lei não é capaz de matar o pecado na gente. Pelo contrário. A exigência de Deus até mesmo provoca a desobediência. Tudo o que é proibido desperta o apetite e o desejo de conhecer, assim como nós já o vemos em Adão e Eva no paraíso.
Então, não vamos esperar de leis o que elas não podem produzir. Por isto Paulo insiste tão energicamente na fé. Salvação vem pela fé, e somente por ela. Você não precisa subir ao céu para lá pegar Jesus Cristo e trazê-lo à terra. Você não precisa descer ao abismo para lá buscar Jesus. Todo esforço por apropriar-se da salvação é em vão. Jesus Cristo, e com ele a salvação, está bem perto de todos nós. É só acolher o que ele nos oferece. Cumpre crer somente. Por isto vale: "Se você disser com a sua boca : ‘Jesus é Senhor' e no seu coração crer que Deus ressuscitou Jesus, você será salvo." Quem crê espera a salvação já não de seu próprio esforço, mas sim da graça de Deus. Salvação é dom, jamais conquista.
É claro que não vamos conformar-nos com os nossos pecados. Vamos lutar contra eles. Mas não vamos desesperar se sofremos mais outra derrota. Deus nos oferece o perdão. E aí nós todos somos iguais. Quem aposta na lei sempre estará tentado a fazer uma distinção entre os transgressores e os cumpridores da lei, entre fariseus e publicanos, entre justos e pecadores. Quem aposta na graça já não pode fazer esta diferença. Não mais pode vangloriar-se. A fé apaga o desnível entre judeus e gentios, entre povos de todas as nações. Nós todos somos devedores de Deus.
Não raro tenho sido perguntado: Sim, e esta fé, como ela nasce? Como acontece a aprendizagem da fé? Também para isto o apóstolo Paulo neste texto tem resposta. A fé surge pelo anúncio da mensagem do evangelho. Quem dela não tomou conhecimento, também não pode crer. Por isto é tão importante ler e ouvir as histórias bíblicas, divulgar a história de Jesus, anunciar o evangelho. É este o nosso mais sagrado dever. Se não o cumprirmos, ficamos em débito com as pessoas. Aliás, seja lembrado que o anúncio da palavra não deve ficar limitado a uma questão puramente verbal. Deve incluir o exemplo de vida, o serviço, a prática cristã. Pais, mestres, a família, a comunidade, todos estão aí igualmente desafiados. Sem "missão" não vai haver fé cristã no mundo e em nossa sociedade. Na aprendizagem da fé, todos somos convidados a cooperar. Sem fé as pessoas sofrem prejuízos irrecuperáveis.
E a lei? As palavras de Paulo seriam mal entendidas como um desprezo a ela. Volto a dizer que leis são indispensáveis. Não por último a lei de Deus o é. A fé não anula a vontade de Deus. Esta quer ser feita "assim na terra como céu". Jesus o ensinou no Pai Nosso. Entretanto, não se deve esperar da lei o que ela não pode assegurar. Quem quiser salvar-se por ela, vai frustrar-se. Salvação exige a fé que se apega à promessa de Deus e sua ajuda. Salvação já nesta vida e na vida vindoura só pode provir de Deus. Quer ser recebido como presente divino. A lei como tal não é evangelho. É uma exigência a ser cumprida, um imperativo a ser seguido. Mas não é evangelho. Evangelho é a palavra que anuncia o que Deus fez por nós. É a promessa que nos reservou, de modo que as pessoas, assim esperamos, vão reagir, dizendo: "Como é bonito ver os mensageiros trazendo boas notícias." Amém.
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30 de julho de 2014:
Texto bíblico: Êxodo 16, 23.11-18
Prezada Comunidade,
O presente texto bíblico que nos mostrar duas coisas a respeito da fé:
- Que a fé não é um olhar para trás, com saudades de algo que já passou;
- Que a fé não se baseia em milagres e manifestações grandiosas.
Conclusão: a fé tem a ver com confiança. Confiança em Deus. Confiança que vem da experiência que se faz com Deus, em saber que com Deus se está em boas mãos.
Se passa no deserto do Sinai, terra dos árabes, depois que o povo de Deus tinha sido libertado da escravidão no Egito.
- Havia fome, sede, havia dificuldades naturais da vida no deserto; mas também havia um horizonte, um lugar para onde ir.
- o povo tinha se esquecido de onde poderia chegar se continuasse no caminho da libertação; queria voltar à situação que aparentemente era melhor, era mais cômoda.
- pode-se imaginar como funcionava isso no meio do povo; havia o grupo do que eu chamo de a saudade paralisante; eram pessoas egoístas, que tinham certos privilégios no Egito, e ficavam fazendo fofoca, instigando o povo contra Moisés e contra Deus;
- faziam parecer que lá atrás era melhor, mais seguro, menos problemático. Pessoas daquele primeiro grupo, que sempre acha que antes era melhor.
Olhar com alegria para o que já passou é bom, é bonito, traz alegria. Mas, se esse olhar impede de olhar para frente com confiança, com esperança, com fé, então se torna uma saudade paralisante e negativa.
Outro aspecto disso é que, quem, como Moisés, fazia olhar para frente, era severamente criticado e humilhado, era diminuído diante dos outros, para fazer parecer que não sabiam o que queriam, que não conduziriam o povo para um lugar melhor.
Mas, Deus os tinha tirado da escravidão do Egito, Deus tinha prometido sua presença na peregrinação para um lugar melhor. Mas, a turma da saudade paralisante não queria que o povo confiasse na presença de Deus, não queria que o povo tivesse a experiência com um Deus libertador.
O segundo aspecto deste texto, é que ele não quer mostrar um deus mágico, mas um Deus que ouve os clamores, que sofre junto e que age na história. Não age de forma a resolver os problemas particulares; um probleminha aqui, outro probleminha lá; um problemão aqui, outro problemão lá.
O que o texto nos mostra, é que as dificuldades pelas quais passamos nunca vêm sozinhas. Elas são o resultado de muitas coisas que acontecem na história de cada pessoa. Isso quer dizer, as experiências que cada pessoa vai fazendo na vida, as decisões que tomou ou deixou de tomar, os lugares em que participou ou deixou de participar.
- muitas dessas experiências não dependeram da nossa decisão, do nosso querer, mas fazem parte da história de cada um/a e fazem a gente ser o que é.
O texto do Êxodo quer nos chamar para uma coisa: pede que a gente reflita sobre como as experiências com Deus participam deste processo. Ou seja, como Deus fez parte disso que sou? Será que sou como sou apenas como resultado de outras experiências, ou a experiência com Deus também teve influencia e importância?
O texto quer nos mostrar exatamente isso: que Deus esteve presente em todos os momentos, também naqueles em que a gente não percebeu, e talvez não tenha se deixado influenciar por sua presença libertadora.
A comida (o maná e as codornizes) e a bebida no deserto não começaram naquele momento. Sempre estava lá, mas o povo não percebia, não recebia como presente de Deus.
- Moisés teve que chamar a atenção para isso. Não para mostrar um deus para trás, nem um deus milagroso, mas para mostrar que no Deus que os libertou da escravidão no Egito se pode confiar.
Aquela experiência com Deus nós vamos repetir agora, quando participamos da Santa Ceia. Que seja um momento de perceber a sua presença bem junto a nós, e de renovar a confiança de sua presença em todos os momentos e acontecimentos da nossa vida. Amém.
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